Como funciona a iniciação no candomblé?

Ingressar no candomblé é tarefa que requer paciência, determinação e zero mimimi. Para se tornar filho de uma casa, o caminho é longo e cheio de desafios. Uma prova de resistência, na qual estão incluídas muitas limitações, grandes doses de esforço e o acesso a ensinamentos secretos, numa trajetória que se estende por meses, podendo chegar a um ano. De um modo geral, as pessoas não pedem para ingressar no candomblé: são convocadas. Em alguns casos, a mãe de santo, ao jogar búzios, recebe a mensagem de que aquele indivíduo precisa participar da religião. Porém o jeito mais comum desse recado ser dado é quando o cidadão “bola no santo”. Ou seja: o fiel simplesmente apaga durante uma festa ou um ritual religioso. Durante o período em que está desacordado, seu corpo se movimenta de acordo com os trejeitos de um determinado orixá. Chega a apontar para símbolos e imagens dispostos no terreiro. Quando acorda, a pessoa é informada de que recebeu uma intimação: precisa começar a se preparar para a iniciação.

Muitas etapas

A partir do momento em que bolou no santo, o fiel é considerado um abiã – termo dado aos iniciantes na religião. Para chegar a iaô, o filho de santo precisa, logo de cara, usar um colar de contas muito curto, que fica agarrado ao pescoço e é conhecido como quelê. Enquanto esse adereço não for retirado, o novato só poderá vestir roupas brancas, sentar no chão (nunca em cadeiras ou sofás) e comer com as mãos. Isso em qualquer lugar, no terreiro, em casa ou no refeitório do trabalho. Geralmente, a cerimônia da “caída de quelê” acontece três meses depois que termina todo o ritual de iniciação. E só então a rotina volta ao normal.

Colocado o quelê, começa um processo de três estágios. A etapa número 1 consiste em dar o bori: sentado no chão, o abiã é banhado pelo sangue de animais sacrificados na sua frente, geralmente aves. Terminado esse ritual, começa a preparação para o próximo passo, conhecido como orô. O candidato à iniciação é mantido confinado em um quarto por 21 dias. Ele (ou ela) tem a cabeça raspada e recebe marcas no braço ou na cabeça, geralmente feitas com espinhas de peixe. Essas cicatrizes simbolizam a porta de entrada do orixá durante a incorporação. A liturgia termina com um novo banho de sangue, agora de um animal de quatro patas, geralmente bode, carneiro ou cabra, sacrificados para o orixá em questão – o sangue é lançado sobre o filho. Por fim, depois desse período de recolhimento, o iaô é apresentado para a comunidade. É um ritual longo, que dura até dois dias ininterruptos, com várias aparições do novo filho de santo.

E na umbanda?

Na umbanda, o ritual de iniciação é bem mais simples. Por esse motivo, os seguidores do candomblé costumam criticar os umbandistas. Dizem que o ritual de iniciação deles não tem o mesmo valor. Tornar-se filho de santo da umbanda é, de fato, mais simples. Em geral, o frequentador de uma casa sente que está perdendo a consciência e abandona o lugar da plateia para participar do ritual. Depois de algumas sessões, começa a sentir que os guias espirituais que o acompanham estão próximos de incorporar. Cada casa conduz esse processo de maneiras diferentes, mas é à medida que recebe o guia, sessão após sessão, que cada pessoa vai aprendendo os rituais da umbanda. Para quem não é médium, o contato com a umbanda também costuma ser gradual. Quando percebe, a pessoa está assumindo novas obrigações com o terreiro.

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Humanos e gado são 96% de todos os mamíferos da Terra

Humanos e gado são 96% de todos os mamíferos da Terra

Mesmo assim, não somos nada em comparação ao mundo microscópico: os vírus da Terra, somados, pesam 3,3 vezes mais que a população humana. As bactérias, 1100 vezes mais.

O Homo sapiens ocupa espaço. Muito espaço: 96% dos mamíferos da face da Terra são seres humanos e gado (vacas, porcos etc.) usado para produzir carne e laticínios. Todos os outros animais que sê vê no zoológico e no Discovery Channel – de hipopótamos a saguis – ficam espremidos nos 4% restantes.

Esse espaço, porém, é relativo. Todos os mamíferos juntos têm massa equivalente a apenas um sexto (16%) do total de artrópodes – grupo que inclui os insetos e aracnídeos, como aranhas e escorpiões. A população dos oceanos também é monumental: O total de peixes pesa 11 vezes mais que os 7,5 bilhões de seres humanos que habitam a superfície.

As conclusões são de um estudo publicado na última segunda (21) por pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel. De acordo com Ron Milo, líder da equipe, esse é o levantamento mais completo já feito sobre a proporção em que cada grupo de micróbios, animais, fungos e plantas contribui com a biomassa da Terra – isto é, o peso somado de todas as coisas vivas.

Nenhum grupo chega aos pés das plantas: o conjunto dos vegetais terráqueos pesa 225 vezes mais que todos os bichos somados (82% de toda a vida na Terra). Já o segundo maior grupo, o das bactérias, acumula 35 vezes mais massa que o dos animais (13% de toda a vida na Terra). O dado mais impressionante, porém, é o dos vírus: se você colocasse cada uma dessas criaturinhas em uma balança, eles pesariam 3,3 vezes mais que a população humana.

Ao mesmo tempo que o estudo enfatiza a insignificância do ser humano em relação ao mar de verde em que estamos mergulhados, ele enfatiza o impacto que a nossa espécie teve sobre a biodiversidade. 70% dos pássaros do mundo são galinhas e outras espécies domésticas criadas em escala industrial. 83% da massa de mamíferos selvagens foi eliminada desde a origem da civilização.

“Nosso impacto desproporcional sobre a Terra é impressionante”, afirmou Milo ao The Guardian. “Quando eu brinco de jogo da memória com minhas filhas, geralmente há um elefante, e do lado uma girafa, e do lado um rinoceronte. Mas se eu quisesse dar a elas uma noção realista do que é o mundo, seria uma vaca, e aí uma vaca, e aí uma vaca e depois uma galinha.”

 

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Táxis sem motorista vão começar a rodar nos EUA

A empresa se chama Drive.ai, foi fundada por estudantes de Stanford e pretende lançar o serviço em julho. Será algo ao estilo Uber: o passageiro chamará o carro pelo aplicativo da Drive.ai. O veículo possui vários sistemas de comunicação com o trânsito, como painéis de led do lado de fora que avisam o que o carro está fazendo: esperando um pedestre atravessar a faixa, parado no sinal vermelho, pretendendo dobrar à esquerda, entre outros. Veja o vídeo abaixo, liberado pela empresa:

A empresa chamou a atenção no ano passado, quando liberou um vídeo de um de seus carros autônomos dirigindo à noite em um dia chuvoso. O serviço de táxi robótico, que será oferecido em mini vans laranjas (Nissan NV200), estará disponível em Frisco, no Texas, em uma região previamente monitorada que possui prédios comerciais e restaurantes. O serviço pretende ser a solução para pequenas locomoções em lugares movimentados — entre áreas nem tão próximas que dê para ir a pé e nem tão distantes que valha a pena pagar estacionamento. As viagens usarão locais fixos de embarque e desembarque de passageiros, e na fase de testes, nos seis primeiros meses, serão gratuitas.

Para evitar acidentes, todos os carros terão um monitoramento chamado de “tele-choice”, em que um funcionário da empresa assistirá as câmeras dos veículos e estará apto para responder a qualquer problema. Ele também poderá ser contactado pelo passageiro, para qualquer eventualidade.

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Ranking elege as linhas aéreas mais baratas do mundo

Ranking elege as linhas aéreas mais baratas do mundo

O site Rome2Rio analisou milhões de passagens de centenas de companhias aéreas para chegar à conclusão de quais são as mais econômicas no mundo

Você já deve ter ouvido falar de companhias aéreas gringas famosas por preços agressivamente baixos, as “low-cost”. Mas você imagina como são os preços praticados nos confins da Ásia? E nos nossos vizinhos da América Latina?

Os analistas de dados da empresa Rome2Rio tentaram criar um resumão razoavelmente simples disso tudo. Falar de preços de passagem é complicado, porque eles variam conforme a data, a antecedência da compra e, às vezes, até o navegador que você está usando – fora as questões que entram em qualquer discussão sobre preços entre países, como poder aquisitivo da população, salários e custos do combustível, por exemplo.

O Ranking Global da Rome2Rio não dá conta de incluir todos esses fatores. Ele é baseado no custo em dólares por quilômetro das passagens – ou seja, o quanto, em média, quanto você paga (em US$) a cada quilômetro viajado. Para fazer os cálculos, os analistas usaram como base mais de 1,5 milhão de passagens, que foram pesquisadas nos serviços deles por milhares de usuários entre janeiro e fevereiro de 2018.

A primeira conclusão da pesquisa provavelmente confirma suas suspeitas: comparados com os rankings dos anos anteriores, praticamente TODOS os preços de passagem subiram.

 

 

No Top 50 de empresas mais baratas, a campeã é a Tigerair Australia, cuja média é de 6 centavos de dólar por quilômetro voado. Ela é seguida de perto pela AirAsia X, baseada na Malásia, e sua filial Indonésia AirAsia (7 e 8 centavos, respectivamente). Com a medalha de bronze, fica a também australiana JetStar.

A maioria das empresas do Top 50 fica entre os 10 (caso da conhecida RyanAir) e os 14 centavos de dólar por quilômetro.

O ranking também separa as viagens internacionais das domésticas: na lista das 200 linhas aéreas com melhores preços para vôos internacionais, os campeões não mudam muito: sai a Tigerair Australia, que só faz voos domésticos, e a AirAsia X sobe para primeiro.

Mas começam a aparecer nomes mais familiares, como TAP Portugal (84ª posição, 16 cents), Avianca Brasil e Latam (101ª posição, ambas com 17 centavos por km). Em 113º vem a Azul, com 18 centavos. Por último entre as brasileiras aparece a GOL, em 179º lugar (28 centavos/km).

Quando olhamos só para as passagens nacionais internas, a coisa muda um pouco de figura para as linhas aéreas brasileiras. A GOL passa a ser a melhor colocada, em 73º lugar, empatando com a LATAM com US$ 0,22 por km. Atrás, vem a Avianca (US$ 0,24) e, por fim a Azul (US$ 0,26). O ranking doméstico ainda é dominado por companhias australianas e asiáticas. As duas últimas colocadas são do Nepal, com os nomes curiosos de Yeti Airlines e Buddha Air – ambas cobrando mais de US$ 1 por km voado – quase batendo com os preços dos jatinhos particulares da americana Charterlines Inc., que custam US$ 1,26 por quilômetro.

Abaixo, confira o ranking completo das 200 empresas mais bem colocadas, segundo a Rome2Rio. E para as listas completas, acesse o site da pesquisa.

Companhia Preço US$ por km Companhia
AirAsia X 0.07 Avianca Brazil 0.17
Air India Express 0.08 LATAM Brasil 0.17
Indonesia AirAsia 0.08 Norwegian Air Shuttle 0.17
Primera Air 0.09 Georgian Airways 0.17
IndiGo Airlines 0.10 Thai AirAsia 0.18
Etihad 0.10 Blue Air 0.18
Ryanair 0.10 Boliviana de Aviación 0.18
Qantas 0.10 Jet2.com 0.18
WOW air 0.10 American Airlines 0.18
Virgin Australia 0.10 Jetstar Pacific Airlines 0.18
Oman Air 0.10 Royal Air Maroc 0.18
Jet Airways 0.10 Spirit Airlines 0.18
Air India Limited 0.10 Azul Brazilian Airlines 0.18
SriLankan Airlines 0.11 Alaska Airlines, Inc. 0.18
Qatar Airways 0.11 Eastar Jet 0.19
Hainan 0.11 T’way Air 0.19
Kuwait Airways 0.11 Aeroméxico 0.19
AirAsia Philippines 0.11 Volotea 0.19
Royal Brunei Airlines 0.11 South African Airways 0.19
China Southern Airlines 0.11 TUIfly 0.19
Lion Mentari Airlines 0.11 Vietjet Air 0.19
Jetstar 0.11 Jin Air 0.19
Gulf Air Bahrain 0.11 JetBlue Airways 0.19
Cebu Pacific 0.11 Iberia 0.19
Emirates 0.11 easyJet 0.19
Thai Lion Mentari 0.11 Flydubai 0.19
Pakistan International 0.11 Air Baltic 0.19
China Airlines 0.11 Aegean Airlines 0.19
Singapore Airlines 0.11 Air France 0.19
Cathay Pacific 0.11 UTair Aviation 0.20
Scoot Tigerair 0.11 Kenya Airways 0.20
Air China 0.12 LATAM Chile 0.20
Garuda Indonesia 0.12 Middle East Airlines 0.20
Philippine Airlines 0.12 Pegasus Airlines 0.20
Aigle Azur 0.12 Shenzhen Airlines 0.20
Spicejet 0.12 Jeju Air 0.20
Air Astana 0.12 Air Moldova 0.20
EVA Air 0.12 Alitalia 0.20
Saudia 0.12 Bulgaria Air 0.20
China Eastern Airlines 0.12 British Airways 0.20
Biman Bangladesh 0.12 KLM 0.20
Virgin Atlantic 0.13 Tarom 0.20
AirAsia 0.13 Air Namibia 0.21
Japan Airlines 0.13 Swiss 0.21
Hawaiian Airlines 0.13 Vueling Airlines 0.21
Malaysia Airlines 0.13 Rwandair Express 0.21
Xiamen Airlines 0.13 Aer Lingus 0.21
Air Transat 0.13 Sky Airline 0.21
Thai Airways International 0.13 Avianca 0.21
Malindo Airways 0.13 Brussels Airlines 0.21
Air Arabia Maroc 0.13 SilkAir 0.21
SATA International 0.13 LOT 0.21
Wizz Air 0.13 Air Macau 0.21
Fiji Airways 0.13 Belavia Belarusian 0.21
Air New Zealand 0.13 Scandinavian Airlines 0.21
Jetstar Asia Airways 0.13 Lufthansa 0.22
Sichuan Airlines 0.13 Avior Airlines 0.22
Uzbekistan 0.13 WestJet 0.22
All Nippon Airways 0.13 Air Austral 0.22
Aeroflot Russian Airlines 0.13 Hahn Air 0.22
Iberia Express 0.14 Thomson Airways 0.23
Thomas Cook 0.14 CSA 0.23
Royal Jordanian 0.14 Air Algérie 0.23
Ethiopian Airlines 0.14 Air Serbia 0.23
Korean Air 0.14 Shanghai Airlines 0.24
Tigerair Taiwan 0.14 Tunisair 0.25
Icelandair 0.14 Austrian Airlines 0.25
El Al 0.14 Air Malta 0.26
Transavia Holland 0.14 Aerolíneas Argentinas 0.26
Air Seychelles 0.15 Eurowings 0.26
TAAG Angola Airlines 0.15 TAME 0.26
Asiana Airlines 0.15 Copa Airlines 0.26
Egyptair 0.15 Travel Service 0.26
Condor Flugdienst 0.15 Hahn Air Systems 0.26
AtlasGlobal 0.15 Flynas 0.27
Peach Aviation Limited 0.15 Cathay Dragon 0.27
Nok Air 0.15 Thai Smile 0.27
Hong Kong 0.15 Juneyao Airlines 0.28
VivaColombia 0.15 Gol Transportes Aéreos 0.28
Hong Kong Express 0.15 Firefly 0.3
Meridiana 0.15 Corsairfly 0.3
Ukraine International 0.16 Croatia Airlines 0.3
Air Tahiti Nui 0.16 Bangkok Airways 0.31
TAP Portugal 0.16 Flybe 0.34
Air Canada 0.16 Luxair 0.34
Azerbaijan Airlines 0.16 Cubana de Aviación 0.34
Air Arabia 0.16 Air Caraïbes 0.35
Vietnam Airlines 0.16 Lao Airlines 0.35
Turkish Airlines 0.16 CityJet 0.35
Finnair 0.16 Adria Airways 0.36
United Airlines 0.16 Montenegro Airlines 0.37
TUI fly Belgium 0.17 Caribbean Airlines 0.37
S7 Airlines 0.17 Widerøe 0.38
Interjet 0.17 Hop! 0.41
SunExpress 0.17 Cambodia Angkor Air 0.44
Air Europa 0.17 Porter Airlines 0.44
Air Mauritius 0.17 Sky Work Airlines 0.45
Ural Airlines 0.17 Amaszonas 0.45
Blue Panorama Airlines 0.17 BMI Regional 0.47
Volaris 0.17 Air Dolomiti 0.48

 

 

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Pessoas só dizem “obrigado” em 1 a cada 20 favores que recebem

Agora é oficial: o mundo tem um problema crônico de falta de educação. Gravações feitas em residências e locais públicos de oito países revelam que pessoas que pedem favores cotidianos a amigos e familiares só agradecem em 5% dos casos.

Microfones escondidos registraram 1057 conversas espontâneas  – do tipo “você pode passar o sal?” – em países tão variados quanto Peru, Laos, Polônia e Inglaterra. Uma equipe internacional formada por oito antropólogos e linguistas se esforçou para selecionar voluntários que falassem línguas radicalmente diferentes. Por exemplo: em Gana, na África, foram escolhidos habitantes de vilarejos Siwu, um idioma nigero-congolês que sofreu pouca influência externa.

Se os brasileiros de plantão acharam a estatística preocupante, é porque de fato as línguas da oeste da Europa, como o português, estão entre as que mais expressam gratidão no mundo. Falantes de inglês britânico agradeceram favores em 14,5% dos casos – os de italiano, em 13,5%. Pode ser pouco, mas ainda é bem mais que os poloneses (2,2%) e os indígenas equatorianos Chachi (um incrível 0%).

Para garantir que não houvesse distorções, qualquer expressão verbal de agradecimento, por mais exótica que fosse, entrou na conta. Por exemplo: em uma conversa entre dois adolescentes britânicos (relatada no artigo científico), um pediu ao outro uma batata frita. Ao receber a positiva, disse “da hora”.  Em outra situação, um aborígene australiano falante da língua Murrinhpatha reconhece o favor prestado por um familiar usando uma expressão que, ao pé da letra, se traduz por “você é bonito”.

A escassez de “obrigados” e afins, por incrível que pareça, não torna ninguém menos propenso a ajudar. De 1057 favores pedidos, 928 foram atendidos, mas só 51 “obrigados” foram ouvidos. Segundo os pesquisadores, a gratidão provavelmente é um conceito compartilhado entre pessoas de quaisquer culturas – é só que é mais comum expressá-la na prática, retribuindo o favor no futuro. Os Chachi, por exemplo, sequer têm uma palavra para agradecimentos cotidianos em sua língua.

“Não devemos confundir o sentimento de gratidão com o desejo de expressá-la. Nas interações do dia a dia, cooperação é a regra”, afirmou à imprensa Nick Enfield, pesquisador da Universidade de Sidney envolvido no estudo. “A vida social prospera porque é da nossa natureza pedir ajuda e retribuir com ações, em vez de meras palavras. Os acordos de cooperação são literalmente silenciosos.”

 

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A ambígua relação entre Hitler e a Igreja

Se, por um lado, o nazismo tinha uma face mística, por outro era radicalmente anticlerical. Mas o que isso significava na prática? “Heinrich Himmler almejava a destruição do cristianismo e a criação de uma nova religião germânica, baseada nas crenças dos antigos teutônicos”, diz o historiador Martin Ruehl. “Mas seu chefe, Adolf Hitler, se relacionava com o cristianismo de uma maneira muito mais pragmática. Para ele, as crenças religiosas eram irrelevantes, desde que não atrapalhassem a concretização de seus objetivos políticos”.

Exemplo desse pragmatismo foi a relação de Hitler com o cardeal Eugenio Pacelli, que mais tarde se tornaria o papa Pio 12. Um se sentia ameaçado pelo outro. Mas, apesar da desconfiança mútua, ambos viram vantagens em evitar o enfrentamento e acabaram assinando uma concordata em 1933. Pelo acordo, todos os alemães ficaram sujeitos às leis canônicas, o que garantiu a continuidade da ingerência do Vaticano sobre os assuntos religiosos na Alemanha.

Em contrapartida, o pacto pôs fim ao Partido do Centro Católico, única agremiação democrática que restava no país. Assim, Hitler tirou a Igreja da esfera política – um problema a menos para instaurar sua ditadura.

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A face mística do Terceiro Reich

Uma das sementes do nazismo é uma corrente de pensamento que estava em voga na Áustria do século 19 – não por acaso, o lugar e o tempo em que o filho de dona Klara Pölzl e do seu Alois Hitler veio ao mundo. Estamos falando da “Ariosofia” – a “sabedoria sobre os arianos”. 

Seus líderes eram Guido von List e Jörg Lanz von Liebenfels, dois antissemitas raivosos e ultra-nacionalistas. Ambos pregavam a união de todas as populações de língua germânica da Europa, sob a liderança da Alemanha. Mas os ariosofistas tinham outras ideias também. A maior parte, completamente insanas. 

Eles evocavam uma era pré-histórica dourada, na qual sacerdotes ocultistas teriam governado sociedades compostas de super-homens. Esses líderes espirituais do passado praticariam o gnosticismo pagão, uma crença seguida por seitas heréticas que alegavam possuir a gnosis – um conhecimento esotérico especial. List gostava particularmente do conceito de dualismo dos gnósticos. Ou seja: da oposição entre luz e trevas, bem e mal, heróis e vilões, e assim por diante. Ele costumava dizer que o mundo material em que vivemos é intrinsecamente perverso e só o caminho espiritual poderia levar à salvação.

Para a Ariosofia, quem melhor sintetizava esse ideal pagão eram as tribos teutônicas, que haviam habitado o norte da Alemanha e a Escandinávia na Antiguidade. List, Lanz e outros teóricos racistas do século 19 às vezes se referiam aos teutônicos como “arianos”, “indo-europeus” e “nórdicos”. Pouco importava para eles a confusão que isso pudesse gerar na cabeça de quem os ouvia. O objetivo era um só: atribuir a um povo antigo, supostamente ligado aos alemães, a marca da superioridade racial. O ocultismo seria o único jeito de resgatar a força milenar dessa raça superior.

“Os ariosofistas diziam que uma conspiração de interesses antigermânicos, arquitetada principalmente por judeus, havia arruinado a sociedade gloriosa do passado em nome de um igualitarismo espúrio”, diz o historiador britânico Nicholas Goodrick-Clarke, uma autoridade no assunto, autor do livro The Occult Roots of Nazism (“As Raízes Ocultas do Nazismo”, inédito no Brasil). “O resultado teria sido uma decadência racial que jogou o mundo em guerras e crises econômicas. Seria preciso, portanto, recuperar os ensinamentos esotéricos e a virtude racial dos antepassados alemães a fim de criar um império pan-germânico.”

Para assumir o papel de guru do ocultismo, List se apropriou de vários símbolos ancestrais. Um deles foi a suástica, cruz que representava a boa sorte entre os antigos povos hindus e budistas. “List convenceu muita gente de que a suástica era um símbolo sagrado ariano, pois derivava do Feuerqidrl, a vassoura de fogo usada pelo deus germânico Mundelföri para criar o cosmos a partir do caos”, explica o historiador. O ocultista relacionou essa lorota ao Edda – compilação de mitos dos antigos nórdicos – e às runas – escrita nórdica usada em amuletos e rituais xamânicos. Para completar, ainda dizia ser um devoto de Wotan, o deus teutônico da guerra.

Como se vê, a Ariosofia era uma tremenda salada, que ficou ainda mais temperada ao incorporar as ideias da russa Helena Blavatsky, fundadora da Teosofia. Essa corrente filosófica misturava hinduísmo, gnosticismo, esoterismo e espiritismo com uma visão meio torta da teoria evolucionista de Charles Darwin. No fundo, o que a russa queria também era exaltar a “pureza da raça ariana”. Blavatsky criou uma sociedade teosófica nos Estados Unidos em 1875. Quatro anos depois, embarcou para uma longa temporada na Índia, onde se “aperfeiçoou” em temas como imortalidade da alma, carma e reencarnação.

O ponto alto da carreira dela foi a publicação, em 1888, do livro The Secret Doctrine (“A Doutrina Secreta”), no qual ela rastreia as origens da humanidade seguindo as pegadas de raças que teriam vivido há milhares de anos em continentes mitológicos como Atlântida, Lemuria e Hyperborea. As ideias de Blavatsky se encaixavam perfeitamente no ideário ocultista de List e Lanz. Antissemitas até a raiz do cabelo, os três acabariam se transformando em profetas de uma “nova era” de domínio alemão. E influenciando o pensamento que, mais tarde, daria origem ao nazismo. 

Clima mitológico

Os ariosofistas permaneceram à margem da vida política alemã naquele final de século 19. Mas suas ideias, segundo Goodrick-Clarke, foram absorvidas no início do século 20 por líderes nacionalistas e antissemitas. Entre eles, o barão Rudolf von Sebottendorff, fundador do movimento Reichshammerbund (“Liga do Martelo”) – o nome vinha do jornal O Martelo, que o barão começou a editar em 1902. O tabloide, naturalmente, era o seu veículo para propagandear a tese de que os judeus eram o grande problema da Europa. E que a “inferioridade” deles tinha raízes biológicas. A Liga do Martelo, na prática, era um projeto de partido político. Mas o barão também fundou uma espécie de seita, a sociedade secreta Germanenorden (Ordem Germânica), que replicava os graus de iniciação da maçonaria. Várias sedes dessa sociedade, nos mesmos moldes das lojas maçônicas, surgiram em toda a Alemanha, ajudando a disseminar os ideais tresloucados de seu criador.

Em dezembro de 1912, a Ordem Germânica já reunia 316 “irmãos” espalhados pelo país, todos monitorando atividades judaicas. O símbolo da ordem era uma suástica curva superposta com uma cruz. “Foi principalmente por influência dessa sociedade secreta e de sua sucessora, a Thule, que o emblema acabou sendo adotado pelos nazistas anos depois”, diz Goodrick-Clarke. Nos rituais, havia símbolos como o Santo Graal e trilha sonora de Richard Wagner, o compositor antissemita que exaltava os antigos teutônicos.

As reuniões da Ordem Germânica e da Thule atrairam gente que, depois, faria parte da cúpula do nazismo. Caso de Max Amann (general da SS), Dietrich Eckart (mentor de Hitler nos primeiros anos de sua carreira política), Alfred Rosenberg (teórico do Partido Nazista), Rudolf Hess (vice de Hitler em 1933) e Anton Drexler (fundador do Partido Nazista). E o mais engajado nas teses estapafúrdias era justamente o mais graúdo desses peixes: Heinrich Himmler, o número dois de Hitler.  

Nascido em 1900, Himmler era filho de um professor de literatura e de uma dona de casa fervorosamente católica. “Ele pertenceu a uma geração que ficou adulta durante a 1ª Guerra”, diz um de seus biógrafos, o historiador Peter Longerich. “Foi um jovem que, como tantos outros de classe média, viu a derrota alemã transformar sua vida.” Em 1923, pouco depois de se formar em agronomia, Himmler entrou para o Partido Nazista. Àquela altura, já tinha abandonado o catolicismo e se interessava por astrologia e mitos pagãos. Dois anos mais tarde, ingressou na SS e logo virou o chefe da seção da Bavária. Metódico, disciplinado e com um discurso convincente, teve uma carreira 
meteórica dentro da organização. 

Quanto mais alto chegava, mais se envolvia com o ocultismo. Perto de completar 27 anos, entrou para a Liga Artaman, um grupo místico que exaltava o sangue e o solo alemães. Ali, tomou contato com o Richard Walther Darré, futuro ministro da Agricultura de Hitler – outro esotérico que adorava teorizar sobre a superioridade ariana.

Em 1929, já promovido a Heichführer (a mais alta patente da SS), Himmler decidiu transformar sua tropa na elite do futuro Reich. Adotou como modelo a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, uma milícia alemã que havia lutado contra muçulmanos em Jerusalém e estabeleceu um reino monástico na Prússia no século 12. Só que com uma diferença: a SS não seria cristã. “Himmler considerava que o cristianismo era uma força destruidora de nações e que os cavaleiros teutônicos tinha cometido um erro fatal ao adotá-lo”, diz o historiador alemão Peter Longerich, biógrafo de Himmler.

Mas afinal: o que o chefão da SS realmente pretendia ao evocar a Ordem Teutônica? “É difícil saber”, afirma o biógrafo. “Seus pronunciamentos sobre os teutônicos e a Idade das Trevas eram muito vagos.” Tudo indica que a intenção de Himmler era usar a ordem mais como propaganda do que qualquer outra coisa. O grupo continuava existindo na década de 1930, convertido numa simples associação católica chamada Ordem Alemã. Com a anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, ela seria proibida pelos nazistas – mas Himmler continuaria usando seus símbolos medievais para chamar atenção.

Quem mais exerceu influência sobre Himmler, pelo menos no que se refere a ocultismo, foi Karl Maria Wiligut, um ex-militar austríaco travestido de bruxo que alegava ser descendente do deus nórdico Thor. A doutrina dele era uma espécie de Ariosofia recauchutada, que situava o passado alemão num enredo de ficção científica barata. “A cronologia de Wiligut começava em 228 mil a.C., quando haveria 3 sóis no céu e a Terra seria povoada por gigantes, anões e outros seres mitológicos”, diz Goodrick-Clarke. 

Wiligut ingressou na SS em 1933, usando o codinome Karl Maria Weisthor, e, graças a todo esse “conhecimento” antropológico e astronômico sobre  assumiu um posto no governo nazi: o de chefe do Departamento de Pré-História. O cargo era meramente decorativo, criado sob medida para o mago. Wiligut também incutiu em Himmler a ideia de que o Tibet havia sido refúgio de uma civilização avançada – provavelmente a mesma que antes havia morado no continente perdido de Atlântida. Tinha também a “Teoria do Gelo Cósmico”, segundo a qual tudo que acontece no Universo é determinado pelo antagonismo entre sóis e planetas de gelo. Isso explicaria todas as catástrofes globais do mundo moderno. 

Os cientistas alemães, naturalmente, riam de tudo isso. Uma nação que havia produzido Johannes Kepler, talvez o maior astrônomo da história, agora tinha de engolir um charlatão que falava em “três sóis” e no “poder do gelo espacial”. Mas quem tinha as metralhadoras da SS a um pio de distância era Himmler. E ele apoiava esse bestiário teórico com fervor. “É fácil entender o motivo”, diz o pesquisador britânico Alan Baker, autor de Invisible Eagle – The History of Nazi Occultism (“Águia Invisível – A História do Ocultismo Nazista”, sem tradução para o português). “Para ele, essa tese servia como uma brilhante refutação da ciência materialista, personificada pelo judeu Albert Einstein.” Himmler não primava pelo quociente de inteligência.

Nos devaneios do líder da SS, ainda havia lugar para os cátaros, uma seita herege perseguida pela Inquisição medieval. “Os cátaros eram dualistas, pregavam a oposição entre um deus mau e um deus bom”, diz Baker. “O mau era Jeová, deus dos judeus no Velho Testamento, e isso agradava a Himmler”. Otto Rahn, o maior “especialista” em cátaros da SS, jurava que a seita havia guardado o Santo Graal nos Pirineus franceses. Himmler, é claro, acreditava na história.

Hoje, nenhum historiador questiona o fato de que Heinrich Himmler era mesmo um sujeito profundamente interessado em ocultismo. O que ainda se discute é até que ponto ele teria se envolvido com isso. O historiador Peter Longerich arrisca uma teoria interessante. Para ele, a mitologia germânica, reforçada por todo tipo de “ideias ocultas”, tornou-se uma espécie de religião substituta para Himmler. 

Pois é: apesar de muita gente considerá-lo a própria encarnação do demônio, Hitler não dava a menor bola para misticismos. Nas conversas informais, ele frequentemente ridicularizava o fascínio de Himmler pelo oculto. 

Mas o fato é que ele levou o mito da superioridade ariana e a paranoia antssemítica muito a sério. E as consequências foram bem mais reais do que as teorias estapafúrdias que vimos aqui.

Hitler e o cristianismo

Se, por um lado, o nazismo tinha uma face mística, por outro era radicalmente anticlerical. Mas o que isso significava na prática? “Heinrich Himmler almejava a destruição do cristianismo e a criação de uma nova religião germânica, baseada nas crenças dos antigos teutônicos”, diz o historiador Martin Ruehl. “Mas seu chefe, Adolf Hitler, se relacionava com o cristianismo de uma maneira muito mais pragmática. Para ele, as crenças religiosas eram irrelevantes, desde que não atrapalhassem a concretização de seus objetivos políticos”.

Exemplo desse pragmatismo foi a relação de Hitler com o cardeal Eugenio Pacelli, que mais tarde se tornaria o papa Pio 12. Um se sentia ameaçado pelo outro. Mas, apesar da desconfiança mútua, ambos viram vantagens em evitar o enfrentamento e acabaram assinando uma concordata em 1933. Pelo acordo, todos os alemães ficaram sujeitos às leis canônicas, o que garantiu a continuidade da ingerência do Vaticano sobre os assuntos religiosos na Alemanha. Em contrapartida, o pacto pôs fim ao Partido do Centro Católico, única agremiação democrática que restava no país. Assim, Hitler tirou a Igreja da esfera política – um problema a menos para instaurar sua ditadura.

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Hóspede misterioso: a bactéria por trás de problemas no estômago

Enquanto você lê este texto, há uma boa chance de uma bactéria indesejada estar alojada nas paredes do seu estômago. Trata-se do Helicobacter pylori, mais conhecido como H. pylori, identificado pela primeira vez em 1982 por dois cientistas australianos. O achado representou um marco no tratamento de várias doenças gástricas que, como hoje se sabe, podem estar ligadas à presença desse micro-organismo. Tanto que a dupla recebeu um Nobel pela descoberta.

Isso porque, até então, se acreditava que o estômago era um ambiente inabitável. “Havia um paradigma de que nenhum micro-organismo conseguiria viver no órgão por conta de sua acidez”, explica Luiz Chehter, gastroenterologista professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ocorre que não só o H. pylori gosta desse ambiente como os humanos são o maior reservatório da bactéria no planeta.

Prova disso é a alta incidência desse agente na população. “Estima-se que metade das pessoas do mundo o possuam e, no Brasil, essa taxa chega aos 70%”, aponta Jaime Zaladek Gil, gastroenterologista do Hospital Israelita Albert Einstein. “O índice está relacionado a questões de higiene e saneamento básico. Por exemplo, na Austrália, ele está em 25% dos habitantes”, completa Gil.

Tudo começa ainda na infância. “Adquirimos a infecção provavelmente nesse período, mas não sabemos disso porque a bactéria chega e causa uma gastrite aguda pequena, que pode nem se traduzir em sintomas”, conta Maria do Carmo Friche Passos, gastroenterologista professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e vice-presidente do Núcleo Brasileiro de Estudo do H. pylori e Microbiota.

E, mesmo que haja algum sinal como dor de estômago e náusea, o quadro é fácil de ser confundido com uma má digestão passageira. Por isso, dificilmente alguém procura o médico na primeira manifestação da infecção. Discreto, o bacilo passa anos praticamente indetectável, mas ativo.

Um incêndio escondido

“A maioria das pessoas nunca saberá que tem a bactéria, mas ela provoca um estado crônico de gastrite”, explica Friche. Vale fazer uma diferenciação: gastrite aqui é o processo inflamatório de alguma região do estômago, não a queimação e azia que sentimos e batizamos assim, cujo real nome é dispepsia. Quando se trata da versão crônica, quase nunca há queixas envolvidas.

Sem tratamento, a presença do H. pylori pode evoluir para quadros mais sérios, como uma úlcera (Pedro Piccinini/Abril Branded Content)

“Mas um percentual menor de indivíduos pode ter problemas, entre eles as úlceras, que são em grande parte causadas pelo H. pylori”, aponta Gil. Sem contar que essa inflamação constante está por trás da formação de tumores na região. “O câncer de estômago está muito ligado à presença da bactéria”, destaca Friche.

Antes de se apavorar, saiba que é difícil que a bactéria por si só cause a temida doença. “Depende muito da cepa do H. pylori e de outros fatores, como alimentação e herança familiar”, esclarece a gastroenterologista mineira. Mas, como as técnicas para saber qual o tipo de H. pylori que temos ainda são caras e inacessíveis, a recomendação é despejar esse hóspede indesejado tão logo ele seja descoberto.

Como é feito o diagnóstico?

Primeiro, existem indícios de que o H. pylori está vivendo no seu estômago. “Ele está associado à sensação da gastrite, náuseas, em especial matutinas, sentimento de estufamento, dor na região ao se alimentar e depois e até vômitos”, explica Dan Weitzberg, gastroenterologista professor da Universidade de São Paulo (USP).

Se houver histórico de câncer na família, a recomendação é investigar mesmo sem sintomas – até mesmo porque muitas vezes eles são inexistentes. A pesquisa é geralmente feita por meio de endoscopia: o médico retira com o aparelho um pedaço pequeno da mucosa e realiza um teste que denuncia na hora a presença da bactéria ali. Mas já existem outros métodos, menos invasivos.

“Há o teste respiratório, que detecta pelo ar que expiramos alguns produtos que a bactéria produz, e a pesquisa nas fezes pelo antígeno do H. pylori”, aponta Chehter.

Procure seu médico para informações sobre o tratamento. Afinal, vale mais uma visita ao médico do que viver com um visitante problemático em casa, não é mesmo?


Referências bibliográficas

Ahmed N. 23 years of the discovery of Helicobacter pylori: Is the debate over? Ann Clin Microbiol Antimicrob 2005;4:17 [acesso em 15 jan 2018]. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1283743/

Kusters JG, Vliet AHM, Kuipers EJ. Pathogenesis of Helicobacter pylori Infection. Clin Microbiol Rev 2006 Jul;19(3):449-490 [acesso em 15 jan 2018]. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1539101/

Mazzoleni LE, Mazzoleni F. Tratamento e retratamento do Helicobacter pylori [acesso em 15 jan 2018]. Disponível em: http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&id_materia=4309

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Um fio negro

Quando Eleonora esticou o braço para apagar a luz, percebeu na parede, a pouco mais de um palmo à direita da beira da cama, à altura de seus pés, como um fino fio negro em movimento. Era tanta a dor pelo corpo todo, tão grande o desânimo e tão pesado o sentimento de solidão que não teve coragem de mover-se para verificar de que se tratava. Não valia a pena. Não interessava. Nada podia ser pior do que já era, nada podia dar-lhe alguma esperança. Já havia fechado a porta do quarto e a janela, puxando cuidadosamente as persianas espessas para que nem um fiapo de luz coasse. Agarrou um a um os diversos aparelhinhos de controle remoto e foi desligando completamente a televisão, o decodificador, o reprodutor de DVD, até extinguir qualquer sinal luminoso, apagou a lâmpada de cabeceira e mergulhou no torpor que nem era sono nem vigília, um estado de suspensão naquele sofrimento pastoso que a envolvia. Era sua vida ou semivida havia tanto tempo! Dia e noite, de pé, sentada ou deitada, imóvel ou em movimento, servia a ela, a poderosa, soberana, onipresente, invencível e misteriosa dor. Eleonora era apenas sua serva e suporte. Mais nada. Faltavam-lhe as forças para tentar de fato viver apesar do corpo permanentemente dolorido e a coragem para pôr fim àquilo de modo radical. Deixou-se ficar na mais completa escuridão, olhos fechados esperando os poucos e esparsos minutos de algum sono, como a cada noite.

Assustou-se ao acordar de fato, sentir que despertava de um sono real, com o sol forte já filtrando-se à força pelas bordas da persiana. Percebeu ainda outras estranhezas naquele amanhecer. Custou a reconhecer o que era, talvez porque a própria hipótese estivesse inteiramente ausente de seus pensamentos, havia anos: não sentia mais dor alguma. Nem se lembrava da noite transcorrida, havia dormido um sono só, sem interrupções nem sonhos, a não ser uma leve impressão de formigamento pelo corpo todo, em algum segundo de sonho. Mais nada. Simplesmente a dor desaparecera e ela dormira profundamente a noite toda.

Enquanto avançava o dia, ainda descrente, Eleonora por vezes punha em questão sua sanidade mental, outras, cada uma mais duradoura que a anterior, era tomada por uma euforia crescente diante do fim da dor impondo-se como realidade.

Ao entardecer, voltou-lhe aos músculos e articulações algo como uma leve lembrança da dor intensa que a perseguia havia tanto tempo. Sim, a dor era real e, portanto, também era verdade que havia desaparecido, ou pelo menos baixado a um nível perfeitamente suportável, quase nada. Não, ela estava lúcida e equilibrada, nem maluca nem eufórica. Deitou-se, apagou tudo como de costume, teve a impressão de ver um fio negro serpenteando pela parede na fração de segundo antes que se extinguisse a luz da cabeceira. Estava feliz, nem ligou, adormeceu num átimo.

Na manhã seguinte, nem sombra de dor, de insônia ou de sonhos angustiosos. Ao fim do dia, o corpo levemente dolorido, mas Eleonora foi deitar-se confiante, já acreditando que uma simples noite de sono bastaria para recuperar o bem-estar dos últimos dois dias. Tinha sono de verdade, não apenas uma desistência da vida que a impelia para a cama, como antes.

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Assim se estabeleceu a rotina. A vida voltou a ser vida, nova perícia médica para retornar ao trabalho, amizades, a retomada do cuidado consigo mesma, com a aparência, a recuperação de uma alegria que lhe dava um certo brilho, justificando a renovada esperança de ainda encontrar um amor verdadeiro.

Passou a aceitar os convites de Alencar, o viúvo do quarto andar, para ir ao Teatro Municipal, para um almoço de frutos do mar no mercado de peixes de Niterói, ai!, há quantos anos não atravesso a baía!, para o lançamento de umlivro em Ipanema, jantar no Leblon. Ele discretíssimo, culto, programas perfeitamente honrosos, ela expandindo-se, renovando o guarda-roupa e a sapateira, assídua ao salão de beleza, rejuvenescendo e embelezando-se, ele avançando devagarzinho, vamos dar tempo ao tempo…, ares de coisa séria, ela pensando que quando estivesse em sua melhor forma…

Longas noites de sono tranquilo repunham em forma corpo e alma. Milagre, simples evolução desconhecida mas natural de uma doença pouco estudada, resultado tardio, afinal, de todas as terapias convencionais e alternativas que experimentara e das quais desistira havia tempos?

Curiosa para entender o que lhe acontecia, voltou ao especialista que tanto se havia interessado, sem nenhum resultado aproveitável, diga-se, pela suposta e complicada combinação de fibromialgia, artrite reumatoide, síndrome do túnel do carpo e do tarso e sabe-se lá mais o quê! Assim como não soubera explicar o complexo e hipotético diagnóstico anterior, o doutor tampouco soube explicar nem sequer levantar suspeitas sobre a repentina e espontânea cura. Ela estava muito bem agora, confirmou o médico, e isso era o que importava! Bola pra frente, que há anos perdidos a recuperar e o Alencar logo ali, no andar de baixo!

À noite, cansada de tantas e emocionantes novidades em seu cotidiano, já saía do chuveiro diretamente para a cama e o sono reparador sem perder mais nenhum minuto com detalhes agora desimportantes. Nada que viesse dela mesma era mais capaz de despertá-la no meio da noite, mas a sirene do carro dos bombeiros sim! Afinal, ela não estava surda. Sentou-se na cama, assustada, acendeu a luz, esfregou os olhos e então viu sua cama e sua pele inteiramente cobertas por um fervilhar negro, uma intensa sensação de formigamento por todo o corpo e, horror!, reconheceu milhares, centenas de milhares, milhões de minúsculas formigas pretas. Forte da nova vida que vinha vivendo havia algumas semanas, venceu a paralisia do medo, saltou da cama, correu para o chuveiro e abriu ao máximo as torneiras, afogando, sem dó nem piedade, a infinidade de formigas que vinham agarradas a ela. Voltou ao quarto com baldes cheios, vencendo outros milhares de inimigas com verdadeiras trombas d¿água.

Terminou a matança com um spray de inseticida e, finalmente, recebeu o primeiro raio de sol ainda com uma vassoura e uma pazinha na mão, o corpo meio dolorido, o que era perfeitamente explicável pela batalha recém-travada, mas ela e o quarto limpos, livres da invasão.

Ao longo do dia, sentiu um pouco mais cedo e um pouco mais forte a dor que insistia em voltar todo fim de tarde até que o sono a dissipasse. Pudera!, depois da madrugada louca que tivera, não era de admirar. Nada como uma boa noite de sono para repô-la em forma! Mas como me custa dormir hoje! Por que essa dor não quer ir embora desta vez? Acende a luz, olha em volta, nada de estranho, tudo normal, tudo em ordem, nem sequer um fio fora do lugar, apaga de novo a luz e não dorme, mergulha no torpor que nem é sono nem vigília, um estado de suspensão nesse sofrimento pastoso que a envolve e cresce.

 

Maria Valéria Rezende nasceu em Santos em 1942. É religiosa da Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Sto Agostinho, dedicada à educação popular em diferentes regiões do Brasil e no exterior. Vive na Paraíba desde 1976. Passou a publicar ficção em 2001. Ganhou um Jabuti em 2009, categoria infantil; outro em 2013, categoria juvenil; e mais um em 2015, na categoria romance e melhor livro de ficção com Quarenta dias (Alfaguara, 2014).

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Cientistas descobrem possíveis causas da leucemia infantil – e uma delas tem a ver com limpeza excessiva

Cerca de 13 mil novos casos de câncer em crianças e adolescentes ocorreram no Brasil em 2017. Dentre vários tipos, o de maior incidência é a leucemia, correspondendo a 30% dos casos. O por quê e como seres humanos tão novinhos desenvolvem essa doença gera controvérsias há décadas — possíveis causas ambientais, como radiações ionizantes, ondas eletromagnéticas ou até mesmo produtos químicos nunca apresentaram evidências concretas para serem aceitas. Agora, cientistas londrinos descobriram alguns possíveis culpados pela leucemia linfoblástica aguda (LLA) – e a limpeza excessiva na primeira infância está entre eles.

Não, isso não significa que agora você terá que manter seu bebê chafurdando no lixo de fraldas. Um ambiente limpo é importante, mas o “isolamento” infantil, numa tentativa de proteção, é prejudicial: segundo Mel Greaves, autor do estudo e cientista do Instituto de Pesquisa do Câncer, em Londres, o sistema imunológico se torna mais suscetível ao câncer se não tiver um contato razoável com micróbios no início da vida. Apesar de ser uma descoberta inusitada, a conclusão do estudo também é animadora: até certo ponto, dá para diminuir as chances de câncer infantil.

Antes de tudo, é importante saber o que é a leucemia linfoblástica aguda. A LLA é responsável por 75% dos casos de leucemia infantil, e, felizmente, 90% das crianças que fazem um tratamento adequado se curam. Esse câncer no sangue ocorre quando linfócitos (um dos vários tipos de glóbulos brancos, aqueles das aulas de biologia) em formação na medula óssea sofrem alterações e se multiplicam de forma desordenada. O caráter “agudo” da doença quer dizer que os linfócitos problemáticos são células muito jovens, imaturas. Quando elas começam a causar transtorno, isso afeta todas as células sanguíneas da criança. E o pior: esses linfócitos cancerosos evoluem muito rápido, tornando o diagnóstico precoce imprescindível para um tratamento eficaz.

Por que as crianças desenvolvem essa doença era um mistério para a medicina, mas a nova pesquisa achou dois pontos fundamentais para a ocorrência do mal: mutação genética e infecções em sistemas imunológicos frágeis. Greaves estudou câncer infantil por mais de 30 anos para se chegar nessas variáveis.

O primeiro fator envolve uma mutação genética específica: ela ocorre antes mesmo do nascimento do bebê e já predispõe a criança à doença — mas é bom ressaltar que apenas 1% dos nascidos com essa alteração desenvolve a leucemia.

O segundo fator é o polêmico: a doença, que se desencadeia mais tarde na infância, está mais sujeita a atacar crianças excessivamente limpas no primeiro ano de vida. A falta de contato com ambientes fora de casa ou outros bebês impossibilitou o sistema imunológico de se preparar contra outras ameaças. Infecções comuns surgidas na infância, que facilmente seriam curadas em crianças com mais contato com micróbios, são bombas no organismos dos bebês “limpinhos” — e acabam gerando uma possível desordem dos linfócitos.

Na pesquisa, Greaves apresenta essas evidências em uma teoria de “infecção tardia” como causa da LLA, afirmando que uma infecção quando novinho é benéfica para preparar e estimular nossas defesas. Mas uma primeira infecção posterior em crianças predispostas geneticamente, que não possuem preparo imunológico, pode influenciar no desenvolvimento da leucemia.

Anos de pesquisas e experimentos levaram a essas conclusões, incluindo testes em animais e estudos populacionais. Greaves agora investiga se a exposição anterior a micróbios inofensivos pode prevenir a leucemia em camundongos. Se der certo, a ideia é que o mesmo poderia ser feito em crianças, para protegê-las desse câncer.

A leucemia linfoblástica aguda atinge 300 mil crianças mundialmente, estando bem mais presente em sociedades ricas e desenvolvidas. Esse estudo espera que isso mude no futuro.

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