Reduzidos a pó

Eles estão na Terra há mais de 50 milhões de anos, contra meros 6 milhões dos primeiros hominídeos, e em todo esse tempo não tiveram a sua espécie ameaçada por nenhum animal disposto a enfrentar a imponência de suas 3 toneladas. Agora, eles podem ser extintos por um predador 40 vezes mais leve, sem garras nem dentes afiados, mas que usa armas de grosso calibre. E por que o homem está exterminando os rinocerontes? Para arrancar os chifres e trocá-los por muito, muito dinheiro. O pó de chifre vale mais do que ouro, é a substância ilegal mais cara do mundo e movimenta mais de US$ 20 bilhões por ano junto com o tráfico de outras espécies selvagens. Entenda, a seguir, porque o ornamento é tão valorizado e o que está sendo feito para tentar evitar o colapso dos rinos.

Jagunços treinados para guerra e fortemente armados escoltam uma carga preciosíssima. A missão deles é levar o material até um cofre em um endereço sigiloso. Os guardas trabalham tensos porque podem ser atacados por ladrões que sabem bem o valor do que está sendo transportado. Não, eles não carregam obras de arte, dinheiro nem pedras preciosas. É uma tarde comum numa reserva florestal da África do Sul e esses soldados particulares estão protegendo o bem mais precioso de seus patrões: chifres de rinocerontes. Essa operação faz parte de uma estratégia para diminuir a matança dos rinos: cortar os chifres antes dos caçadores e estocá-los para que não sejam contrabandeados. No mercado negro asiático, cada quilo da peça custa US$ 53 mil – para comparar, um quilo de ouro custa mais ou menos US$ 40 mil.

Os responsáveis por esse extravagante filão comercial são magnatas do Vietnã e da China. Nesses países, há quem acredite que o chifre, em pó, seja um remédio de amplo espectro, indicado para males que vão desde uma mera dor de cabeça até a cura de um câncer.

O princípio ativo do pó de chifre de rinoceronte é a queratina, proteína abundante em todo o planeta, concentrada em pelos, unhas e cascos de inúmeras espécies animais, incluindo aí a espécie humana. A fama curandeira da substância – amplamente refutada pela ciência – tem origens na mitologia chinesa. “Uma das primeiras indicações das propriedades medicinais do chifre de rinos é do século 2 a.C., nos escritos Medicina Sagrada dos Fazendeiros”, explica a pesquisadora Alex Kennaugh, do Conselho de Defesa de Recursos Naturais sul-africano. A indicação do produto como medicamento se solidificou em 1597, sob influência de Li Shih-Chen, guru da medicina chinesa à época. Segundo a crença disseminada, consumir 1 grama diário – cotado a US$ 53 – é suficiente para manter a saúde.

Além do uso medicinal, o produto é usado por jovens ricos em festas, misturado com cocaína e também para curar a ressaca no dia seguinte. Há ainda quem curta ostentar tomando chá ou sopa com raspas de chifre. A gana dos vietnamitas pelo artigo exótico é tão grande que eles fraudam licenças de caça para traficar queratina da África do Sul.

Entre julho de 2009 e maio de 2012, 185 vietnamitas obtiveram autorização junto ao governo sul-africano para caçar os animais legalmente e levar os chifres para casa como troféus. Como espólio de caça nesse período, 659 chifres, o equivalente a 2 toneladas, foram exportados legalmente para o Vietnã. Uma investigação apontou que os caçadores estavam, na verdade, comercializando o produto. O país foi banido da caça legal, mas investigações posteriores revelaram que vietnamitas recrutaram caçadores de outras nacionalidades para obter a licença e engrossar o esquema. Hoje, essa concessão, que é a única forma de obter o chifre legalmente, só é liberada após um rigoroso e burocrático processo seletivo.

A peça também é valorizada como ornamento. No Iêmen, o homem é mais respeitado se usar a sua jambiya – adaga tradicional na cultura islâmica – com o cabo feito de chifre de rinoceronte esculpido.

Em 2007, a África do Sul registrou 13 rinocerontes brancos mortos. Em 2013, o número passou de mil – patamar que não recuou até hoje. Toda essa cobiça alimenta um esquema sofisticado de tráfico – o comércio ilegal de animais selvagens só fica atrás do tráfico de drogas, de pessoas e de armas – que envolve caçadores, exportadores e autoridades subornadas para fazer vista grossa. Atualmente, a cúpula do Ministério da Segurança da África do Sul está sob investigação – uma denúncia da TV Al Jazeera flagrou o comércio ilegal e registrou o depoimento de um traficante citando o nome do ministro de Segurança de Estado, David Mahlobo, como facilitador.

US$53 o grama é o preço que o pó de chifre pode atingir.





 

Alvos noturnos

A lua cheia atrai caçadores clandestinos – a maior parte deles amadores. E não é por crendice ou pela beleza noturna, mas por praticidade: perseguir os rinos no escuro dificulta a fiscalização, e a luz do luar deixa as presas mais visíveis. Os mercenários se armam com um rifle e um machado – em geral, um terceiro integrante leva uma mochila com mantimentos e espaço suficiente para carregar um chifre.

Eles entram no mato sabendo que podem ser atacados por leões, cobras ou por tiros de guardas florestais. Mesmo assim, estão dispostos a ficar horas à espreita sob o efeito de poções de curandeiros para enfrentar o medo. Quando finalmente encontram o intimidador rinoceronte, estão nervosos, apavorados. O atirador acerta o corpo do animal e o extrator entra em cena desesperado. Para terminar o serviço rápido e fugir, crava o machado na base do chifre e arranca pedaços da face junto. Ele sabe que, quanto maior a peça, maior o pagamento. Guardam o chifre ensanguentado na mochila e correm pela vida e pela recompensa.

Essa cena se repete a cada oito horas nos parques nacionais da África do Sul. Não à toa, a crise dos rinocerontes é chamada de “guerra”. Às vezes, a carcaça do animal fica dias na mata até ser encontrada pelas equipes das reservas – o que é compreensível, já que a maior do país, o Parque Nacional Kruger, é quase do tamanho de Sergipe. Apesar da imensidão da savana, alguns animais têm sorte e são encontrados no dia seguinte, a tempo de serem salvos, mas numa cena cruel: mergulhados numa poça de sangue e com o rosto desfigurado por um buraco. E nada indica que isso vá mudar: com o preço de um chifre de 3 kg rendendo US$ 7 mil para ser dividido entre o time de caça e US$ 159 mil para os traficantes, a luta contra a caça furtiva é uma batalha quase perdida. A demanda internacional só faz crescer a fila de aspirantes a caçador.

Assistência médica

Os rinocerontes mutilados que sobrevivem precisam de um tratamento de alta complexidade, e que resulta em muitas baixas – dos 54 animais tratados pelo governo da África do Sul desde 2014, 31 não sobreviveram. A operação de salvamento inclui viagem da equipe médica e instalação de hospital a céu aberto no mato com equipamentos de grande porte, além de remédios para sedação e tratamento do animal. Para complicar ainda mais o cenário, quando o paciente precisa de transporte, o único jeito é amarrá-lo pelas patas e pendurá-lo num helicóptero. Toda essa operação de guerra torna o tratamento de rinocerontes um dos mais caros da medicina de animais selvagens – casos mais críticos podem superar US$ 50 mil em despesas.

A principal equipe especializada em tratar rinocerontes feridos, a Saving The Survivors, atende gratuitamente cerca de 120 animais por ano. A procura é tão grande que a ONG precisa escolher os casos mais graves para atender: em geral, animais feridos no rosto e filhotes debilitados que tiveram as mães caçadas. O plano para aumentar o número de atendimentos é quase inviável, segundo a veterinária Zoe Glyphis: “A limpeza, a desinfecção, o tratamento e os curativos são muito caros. Ainda há todo o cuidado pós-operatório, que envolve alojamento, proteção e alimentação. Estamos falando de milhares de dólares para manter cada animal. E o tratamento dura até as feridas cicatrizarem completamente, o que leva meses, até mesmo anos.”

Por causa do alto custo de remediar o tráfico, campanhas de arrecadação de fundos para salvar os rinos são frequentes na África do Sul. Essas ações vão desde corridas e pedaladas até a venda de camisetas. As indústrias alimentícia e de bebidas também remetem parte dos seus ganhos para a causa. É muito comum, nos supermercados sul-africanos, encontrar balas, farinha, chocolate e outros itens que revertem parte do seu valor para organizações protetoras dos animais. Um exemplo disso é a Rhino Wine. Esta vinícola de Robertson, próxima à Cidade do Cabo, destina 10% dos seus lucros para um orfanato de rinocerontes.

Guerra de interesses

A África do Sul abriga aproximadamente 15 mil rinocerontes em parques estatais. Outros 7 mil estão em propriedades privadas, que funcionam como safáris. Os criadores aplicam várias medidas para evitar a morte dos animais. E, por mais que invistam em guardas florestais especializados, monitoramento por vídeo, drones e outros aparatos tecnológicos, nenhum sistema garante vigilância absoluta. Na busca pela salvação dos animais, alguns criadores optaram por uma solução emblemática: para evitar que os caçadores arranquem os chifres, os próprios donos de safáris estão fazendo a remoção. E aí voltamos para a cena de abertura desta reportagem. Lembra daqueles homens armados para transportar chifres?

Eles são seguranças contratados pelos proprietários dos parques para levar as peças para um local seguro. Alguns donos de safáris lutaram por anos na Justiça pelo direito de vender os chifres. Na esperança de um veredicto favorável, passaram a armazenar a valiosa queratina. A estimativa é de que os estoques privados ultrapassem 6 toneladas, o que equivaleria a US$ 318 milhões. O estoque federal, estimado em mais de 40 toneladas, valeria mais de US$ 2 bilhões. Uma fortuna que acabou de ser legalizada em abril de 2017, mas apenas para a comercialização dentro da África do Sul.

As medidas polêmicas não param por aí. Os sul-africanos também discutem métodos inovadores para devolver os chifres aos rinos salvos. Um deles é a produção de réplicas sintéticas, feitas com queratina mesmo, só que em impressoras 3D. Os artefatos seriam implantados no lugar dos chifres arrancados, mas isso poderia aumentar ainda mais a demanda no mercado negro.

A estratégia mais controversa é a autorização da caça. Apesar de toda mobilização para evitar os ataques, existem cerca de 200 caçadores – a maioria é de americanos – com direito de atacar os animais. O argumento para a permissão é que os caçadores esportivos pagam por isso, aumentando o rendimento das reservas privadas, que, assim, investiriam mais em segurança contra os mercenários. Resultado: na última década, mais de mil rinocerontes foram mortos legalmente na África do Sul.

Em nome da preservação da espécie, governo, criadores, entidades protetoras dos animais, organismos internacionais e países com alta demanda pelo produto seguram o chifre com todas as forças e pontos de vista possíveis. Agora, com os rinocerontes à beira do extermínio – nos últimos cem anos, o número de indivíduos despencou de 500 mil para 30 mil -, esses agentes precisam buscar maneiras de trabalhar para barrar a caça antes de o sol se pôr de vez para esses mamíferos de 50 milhões de anos.

(Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

80% dos rinocerontes do mundo vivem na África do Sul.

Maiores consumidores

O contrabando parte da África do Sul, Moçambique, Zimbábue e Quênia, passando por Eslováquia, República Tcheca, Bélgica, Itália e Alemanha. Vietnã, China e Iêmen se revezam nas últimas décadas como principais mercados para os chifres de rinoceronte, compostos de queratina — a mesma substância que forma unhas e cabelos humanos.

Escalada da morte

O gráfico mostra o número de rinos assassinados nos últimos dez anos, na África do Sul. A queda recente nas mortes pode ser um sinal de que os caçadores estão ampliando a área de atuação para países vizinhos, como Namíbia, Quênia e Zimbábue.

(Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Cotação afiada

US$53 o grama é o preço que o pó de chifre pode atingir.





Valor máximo, por quilo de pó de chifre, a cada década:

(Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Dias contados

No início do século 20, eram 500 mil rinos no mundo. Hoje, restam menos de 30 mil, de 5 espécies:

(Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Kit de caça

Trios de mercenários atacam em noites de lua cheia e dividem US$ 7 mil de recompensa por um chifre de 3 kg.

1- Mochila

Um dos caçadores fatura US$ 600 para levar mantimentos e ficar de vigia. É ele quem carrega o chifre.

2- Rifle

O atirador fatura entre US$ 2 mil e US$ 20 mil, de acordo com a sua experiência. A arma mais comum é o CZ-550 fabricado na República Tcheca.

3- Silenciador

O equipamento mais sofisticado protege o grupo de despertar a atenção dos seguranças.

4- Machado

O executor golpeia o rino para tirar o chifre pela raiz — e acaba arrancando pedaços da face junto. O sangramento costuma ser intenso e fatal.

 

 

(Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Medidas extremas

Reservas particulares têm adotado táticas ousadas para inibir a caça. Uma das saídas é antecipar-se aos caçadores, cortando os chifres e estocando-os. Eles dão tranquilizante para o rino e serram o chifre rente à raiz. O ornamento volta a crescer num ritmo anual de até 8 cm.

Resgate

Animais abatidos ainda com vida podem ser levados de helicóptero para serem tratados — por US$ 600 a hora. A recuperação de rinos severamente feridos pode incluir até 20 sessões , totalizando US$ 50 mil. Abaixo, os custos de cada sessão:

 

(Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Sem pai nem mãe

Os filhotes ficam ao lado das mães atacadas por dias, tentando se amamentar. Os sobreviventes vão para orfanatos e são alimentados por mulheres para não criar confiança em homens — seus caçadores quando voltarem à natureza.

300 é o número estimado de rinos órfãos que precisam de cuidado, por ano, na África do Sul.





via Superinteressante

Ansiedade pode ser sinal precoce de Alzheimer

Um novo estudo, realizado por pesquisadores do Brigham and Women’s Hospital em Boston, nos Estados Unidos, pode ter encontrado uma relação direta entre altos níveis de ansiedade e a aparição de Alzheimer em pessoas com idade avançada.

Até então, estudos anteriores haviam apontado depressão e outros sintomas neuropsiquiátricos como possíveis sinais precoces de Alzheimer em sua fase pré-clínica, quando há um acúmulo maior de beta amiloide no cérebro de pacientes. Essa fase pode acontecer até uma década antes dos efeitos do Alzheimer começarem a aparecer.

Os investigadores, porém, examinaram a associação do surgimento dos beta amiloides e as medidas de sintomas depressivos em 270 pacientes homens e mulheres, entre 62 e 90 anos, sem desordens psiquiátricas. Então, perceberam que níveis mais altos do peptídeos podem estar associados com sintomas de ansiedade crescentes. Em resumo: a ansiedade pode ser um sinal precoce de Alzheimer.

“Em vez de olhar para a depressão como um todo, decidimos encarar sintomas específicos como a ansiedade. Ao compará-la com outros sintomas característicos da depressão, como tristeza ou perda de interesse, os sintomas de ansiedade aumentaram com o tempo nos pacientes que demonstraram um nível mais alto de beta amiloides no cérebro”, afirmou a principal responsável pelo estudo, Nancy Donovan, em comunicado publicado pelo hospital. “Se mais pesquisas comprovarem a ansiedade como um sintoma precoce, a descoberta seria importante não apenas para identificar pessoas com a doença, mas também para iniciar o tratamento e potencialmente diminuir ou prevenir seu desenvolvimento”, completou.

via Superinteressante

Guerras são principal ameaça à fauna na África

Caça ilegal, ocupação de áreas de preservação ambiental, secas e corrupção são todos problemas que os grandes mamíferos da África precisam encarar na luta contra a extinção. Mas um fator de risco que normalmente não é levado em consideração – e que é bem mais difícil de combater – pode ser a maior ameaça aos elefantes e hipopótamos do continente: a guerra.

Dois especialistas em ecologia da Universidade de Princeton, nos EUA, analisaram mais de 500 documentos de várias origens – como artigos científicos, atas governamentais e relatórios de ONGs – em busca de estatísticas sobre a preservação de animais selvagens africanos de 1946 até hoje. Ao colocar essas informações em um gráfico, lado a lado com a evolução histórica dos conflitos armados no continente, perceberam que as duas curvas se entrelaçam: toda vez que o clima político esquenta, a fauna é afetada na mesma proporção. Os resultados foram publicados na Nature.

Entraram na conta 253 populações de 36 espécies de herbívoros, que habitam 126 áreas de preservação diferentes. A queda no tamanho das populações durante a guerra foi verificada até em regiões que foram atingidas com uma frequência relativamente baixa – um conflito a cada duas décadas, ou apenas um ao longo de cinco décadas. Disputas militares são a variável que, sozinha, melhor prevê a morte de animais – dados como corrupção ou habitação irregular em áreas protegidas não são tão precisos para isso.

Embora a primeira imagem que venha à mente seja a de animais presos no fogo cruzado, isso quase nunca acontece. A guerra afeta a fauna de maneiras indiretas: mamíferos de grande porte são uma boa fonte de alimento para soldados, e itens como chifres de rinoceronte podem ser vendidos no mercado negro para financiar a atuação de milícias – uma história que a SUPER contou no ano passado. Além disso, o número de armas disponíveis no mercado negro aumenta, e elas se tornam mais acessíveis a caçadores.

Até então, pesquisadores não descartavam a possibilidade de que as guerras, por obrigarem seres humanos a desocuparem determinados lugares, criassem ilhas de preservação ambiental em que a fauna poderia prosperar em relativa paz. Segundo o New York Times, a zona de fronteira entre as duas Coreias – uma faixa de segurança de 250 quilômetros que só pode ser acessada por militares – se tornou um parque exuberante, em que espécies raras vivem em paz.  

O estudo não traz apenas notícias ruins. Embora guerras estejam sempre associadas à diminuição no número de animais, ela raramente os leva à extinção. Costumam sobreviver pequenos grupos, que escapam das ameaças e servem de base para reconstruir a população quando chega a trégua. Segundo os pesquisadores, a intervenção rápida de grupos preservacionistas após o fim do conflito pode tornar a situação ainda melhor do que era antes. Um bom exemplo é o de Moçambique: após 15 anos de guerra civil (entre 1977 e 1992), o número de elefantes no principal parque nacional do país caiu de 2 mil para 200. Esforços posteriores de educação da população e combate à caça conseguiram elevar o número para 500, e a situação só tende a melhorar.  

via Superinteressante

Análise genética pode melhorar tratamento contra depressão

Um dos maiores calvários de pessoas diagnosticadas com depressão acontece durante o tratamento: muitas vezes é preciso trocar o remédio utilizado – seja por causa de efeitos colaterais agressivos ou pela pouca eficácia da medicação.
Um estudo conduzido pelo Instituto Karolinska, na Suécia, e publicado recentemente no The American Journal of Psychiatry, descobriu que a ineficácia de algumas medicações pode estar diretamente relacionada ao nosso código genético.

Uma das estratégias mais utilizadas para tratar a depressão envolve o uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina. Os remédios que utilizam este princípio ativo aumentam a concentração de serotonina ao inibir a recaptação dele nas células nervosas – e, com este efeito, melhoram o comportamento e humor das pessoas que sofrem de depressão.

Mas variações no gene que codificam a enzima CYP2C19 resultam em grandes diferenças nos níveis de escitalopram – um dos medicamentos antidepressivos da classe dos inibidores – em pacientes. A solução? Prescrever uma dose baseada na constituição genética de cada paciente.

A enzima CYP2C19 é a responsável por metabolizar esta medicação específica – e, em testes, 30% dos pacientes depressivos com alterações neste gene mudaram de remédios em um ano, enquanto apenas 12% de pacientes com um gene sem alterações fizeram esta alteração.

Esta descoberta pode ser mais uma aliada para tratar a doença que afeta 4,4% da população mundial, segundo dados da OMS de 2017; o Brasil é o país com o maior número de depressivos em toda a América Latina: são 11,5 milhões de pessoas sofrendo com este problema.

via Superinteressante

Não é só o ser humano: pinguins também se prostituem

Uma pinguim-de-adélia fêmea caminha nas escarpas nuas e frias do litoral da Antártida. Ela precisa construir um ninho para seus filhotes, mas, ao contrário dos pássaros comuns, não tem acesso a gravetos e folhas. Para a Pygoscelis adeliae, só resta uma matéria-prima: pedras.

Até aqui, parece só o começo de um documentário do Discovery Channel. Calma: algo inusitado vai acontecer. Durante a busca, a fêmea adentra o espaço de um macho desconhecido, onde ele está empilhando um conveniente montinho de cascalho. Ela se inclina em direção ao chão, de costas para ele, para roubar uma pedra e sair discretamente. Mas ele percebe, e se aproveita do gesto para uma rápida cópula. Ao final da interação, o macho, satisfeito, faz vista grossa ao furto, e a fêmea sai com a mercadoria – mais valiosa que cigarro em cadeia – em mãos.

A prática de trocar sexo por objetos de valor, na espécie humana, tem nome (e, em alguns países, carteira assinada). Mas será que a prática acima – relatada em um artigo científico de 1998 – pode ser chamada de prostituição? É difícil saber.

Fiona Hunter, bióloga da Universidade de Cambridge e uma das autoras do artigo, relata ter observado dez fêmeas interagindo sexualmente com machos que não eram seus parceiros habituais. (Aqui é importante dar uma explicação: os pinguins-de-adélia formam pares fiéis e duradouros durante a temporada reprodutiva – mais monogâmicos que muito ser humano por aí.)

Todos os casos seguiam o padrão narrado nos primeiros parágrafos: na ausência do “namorado” oficial, a fêmea oferece sexo a estranhos em troca de pedras, essenciais para a construção de ninhos. Algumas cobram mais caro: uma chegou a levar dez calhaus, e o macho não fez objeções. Em qualquer outra situação, um furto desse porte no ninho causaria uma reação violenta.

Outras dez fêmeas transformaram a prostituição em golpe: começam o ritual de acasalamento, mas o interrompem na metade, antes da penetração. Pegam uma pedra e dão o fora. Uma delas chegou a levar 62 pedras (!) sem nunca completar a cópula.

Os casos acima são diferentes dos das fêmeas que tentam simplesmente roubar pedras, sem segundas intenções. Os machos se aproximam, tentando acasalar, mas elas se esquivam e vão embora – na maior parte dos casos, sem levar pedra nenhuma. De fato, essa é média: só uma parcela muito pequena das fêmeas “se prostitui” deliberadamente.

Segundo Hunter, do ponto de vista evolutivo, a relação só é vantajosa para o macho: uma ou duas pedras são um preço baixo a se pagar diante da possibilidade de fertilizar uma fêmea e passar os próprios genes para a frente. Para a fêmea, por outro lado, uma ou duas pedras para o ninho não são lá muita vantagem. “A fêmea só leva uma ou duas pedras”, afirmou a pesquisadora à BBC na época do estudo. “São necessárias centenas para construir o ninho.”

Essa desvantagem, justamente do lado de quem toma a iniciativa, pede outra explicação. “Acho que elas estão copulando por outra razão, e levar as pedras é só um efeito colateral. Elas estão usando os machos de alguma maneira.” Umas das hipóteses é que a prática seja útil para manter uma agenda de contatinhos – possíveis pretendentes no caso do macho atual morrer antes da próxima temporada reprodutiva. Os estudos sobre a prostituição antártica, infelizmente, nunca foram além disso.

via Superinteressante

Fungo zumbi transforma moscas em escravas

Algumas pessoas têm medo de zumbis. Outras pessoas têm medo de insetos. Há, também, aqueles que têm medo de zumbis E de insetos. Se este é o seu caso, prepare-se para ter pesadelos por algumas noites: a bióloga Carolyn Elya descobriu, bem no quintal de sua casa, uma espécie de fungo zumbi que infecta moscas e as transforma em escravas.

Fungos parasitas são bem conhecidos no mundo dos insetos – e o modus operandi deles é simples: infectar o hospedeiro para, em seguida, controlar seu comportamento (e, com sorte, encontrar mais vítimas). As moscas atacadas por esse fungo específico – o Entomophthora muscae –, porém, são parceiras de longa data da ciência: comumente conhecida como mosca-da-fruta, a Drosophila melanogaster é um dos mais importantes organismos modelos da biologia; vê-las sendo tomadas como parasitas por um fungo possibilita mais estudos sobre a ação desses predadores zumbi e sobre como o corpo das vítimas reage.

Se você acha que Carolyn e os cientistas da Universidade de Berkeley só estão exprimindo um desejo sádico de observar moscas-zumbi, está enganado: segundo David Hughes, da Universidade Estadual da Pensilvânia, estudos sobre fungos zumbi podem ajudar na busca por tratamentos de doenças como o Alzheimer. “É incrível ter um modelo totalmente rastreável para estudo”, afirmou Hughes à New Scientist.

Metamorfose

Uma vez infectada pelo fungo, a mosca morre entre quatro e sete dias. O inseto se comporta normalmente até o último dia, quando para de voar. Com uma movimentação trêmula, a mosca se locomove até algum objeto vertical, quando para de andar e usa seu aparelho bucal para colar-se na superfície. Nos dez minutos seguintes, já zumbi, ela movimenta as asas violentamente até morrer, poucas horas depois.

Uma vez morta a mosca, o fungo começa a tomar controle do corpo e, no fim da infecção, o organismo se transforma inteiramente em uma colônia de fungos – que, cinco horas depois da morte, começa a lançar pequenos esporos para o ar.

Segundo Elya, o fungo invade o sistema nervoso do hospedeiro 48h depois do contato, atingindo diferentes regiões do cérebro para alterar o comportamento da vítima.

Nos resta torcer para que as moscas sejam o único alvo deste fungo do mal.

via Superinteressante

4 maneiras de abrir vinho sem saca-rolha

Com um sapato

É estranho, é arriscado (no mínimo, há o perigo de desperdiçar uma porção de vinho). Mesmo assim, ou talvez justamente por isso, há vários tutoriais do método circulando pela internet. Se algum dia você estiver em uma ilha deserta com uma garrafa de vinho fechada, um pé de sapato, luvas e óculos de proteção, eis o que fazer:

A. Remova o lacre.

B. Encaixe o fundo da garrafa na abertura do sapato e segure os dois firmemente na horizontal.

C. Bata, sem força demais, a sola do sapato com a garrafa contra uma parede (ou uma árvore, se não houver construções na ilha deserta). Repita várias vezes até a rolha começar a sair.

(101 Truques de Cozinha/Superinteressante)

Com parafuso, chave de fenda e martelo

Na falta de saca-rolhas, você pode apelar para a caixa de ferramentas. Separe um parafuso longo, uma chave de fenda e um martelo.

A. Remova o lacre da garrafa. Geralmente basta girar e puxar para fora com as mãos — se não der, rasgue-o.

B. Com a chave de fenda, rosqueie o parafuso para dentro da rosca, deixando cerca de um centímetro dele para fora.

C. Enrole um pano no gargalo da garrafa e a segure com firmeza.

D. Com a outra mão, encaixe o pé-de-cabra do martelo no parafuso e puxe para retirar a rolha.

(101 Truques de Cozinha/Superinteressante)

Com uma chave

De preferência, use uma chave que você não vai se importar de entortar, já que é grande a chance de isso acontecer.

A. Remova o lacre da garrafa.

B. Enfie a chave na rolha em um ângulo de 45 graus.

(101 Truques de Cozinha/Superinteressante)

C. Segure com uma das mãos a garrafa e com a outra a chave. Gire-as em sentidos opostos ao mesmo tempo em que puxa a chave para cima até que a rolha se desencaixe do gargalo da garrafa.

(101 Truques de Cozinha/Superinteressante)

Com uma colher de pau

(101 Truques de Cozinha/Superinteressante)

A. Remova o lacre.

B. Enrole um pano de prato na garrafa para segurá-la com firmeza e absorver respingos do vinho.

C. Empurre a rolha com o cabo de uma colher de pau até que ela afunde para dentro garrafa.

D. Sirva o vinho. Se a rolha presa na garrafa atrapalhar a saída do líquido, empurre-a com a colher de pau enquanto serve a bebida.

 

via Superinteressante

Coca-Cola faz sucesso no Japão com versão saudável – e laxante

O Japão é conhecido por criar versões únicas de alimentos e bebidas tradicionais, como chocolates Kit Kat sabor wasabi, bolachas Oreo de chá verde e Pepsi sabor pepino.

Agora, chegou a vez da Coca-Cola ser reinventada. A fabricante de bebidas está fazendo sucesso com uma versão “saudável”, a Coca-Cola Plus. O refrigerante contém um ingrediente considerado laxativo, a dextrina indigestível, que é rica em fibras e ajuda na movimentação do sistema digestivo.

De acordo com a companhia, a bebida foi criada para ajudar a suprimir a absorção de gordura e regular o nível de triglicérides no sangue. A bebida não contém calorias e é recomendada para ser ingerida junto com as refeições. De acordo com o site da companhia, o produto é voltado para consumidores com 40 anos ou mais.

Por essas características, a bebida ganhou um selo de Alimentos para Usos Especificado de Saúde do governo japonês. Significa que a bebida contém um ingrediente considerado saudável pelo governo. É o terceiro refrigerante a ganhar essa designação no país.

A bebida foi lançada no ano passado e tem enorme adesão entre a população mais idosa, de acordo com o Wall Street Journal. A companhia precisava de um item para atrair a população mais velha, bastante preocupada com sua saúde.

Apesar do benefício, é melhor ter calma com a bebida. Mais do que uma garrafinha por dia pode ter efeitos adversos, diz o jornal Chicago Tribune.

 

Este conteúdo foi publicado originalmente em Exame.com

via Superinteressante

Como cair sem se machucar (muito)

Do chão não passa

Quando você perceber que está caindo, tente ficar calmo – e deixe braços, pernas e pescoço relaxados. Se você cair “duro”, a chance de se machucar é maior.

Não tente se proteger pondo as mãos para a frente. Se fizer isso, você irá bater e raspar cotovelos e punhos no chão. O melhor é tentar cair de lado (veja dicas a seguir).

Caindo de frente

1. Vire o rosto de lado.

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

2. Faça uma leve rotação com o corpo, no mesmo sentido da cabeça. Assim,você cairá de lado – e o impacto será absorvido pela lateral da coxa e pela parte de trás do ombro, que são regiões menos sensíveis.

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

3. Mantenha os braços flexionados e alinhados com as palmas das mãos. Assim que tocar o solo, dê um tapa forte no chão. Isso ajudará a distribuir o impacto da queda.

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

Caindo de costas

1. Encoste o queixo no peito e vire a cabeça para o lado.

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

2. Mantenha os braços flexionados e alinhados com as palmas das mãos. Assim que tocar o solo, dê um tapa forte no chão para amortecer o impacto.

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

3. A força da queda poderá fazer com que suas pernas sejam jogadas para trás. Não lute contra isso. Deixe as pernas subirem, pois isso distribui a energia da queda. O seu corpo poderá dar uma cambalhota para trás. Se isso acontecer, apoie o peso do corpo sobre os ombros.

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

Caindo do banquinho

Ele bambeou e você foi abaixo? Flexione os joelhos: além de amortecer a queda, isso diminuirá a altura entre o seu corpo e o chão. Depois é só seguir as dicas anteriores (para queda frontal ou de costas).

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

Caindo de bêbado

A queda não parece tão dolorosa, pois a pessoa está entorpecida pelo álcool. Mas cuidado com a cabeça. Um estudo que analisou as quedas de 113 bêbados constatou que, em 48% dos casos, houve lesões nessa região.

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

Caindo da escada

Rolar pela escada pode levar a ferimentos gravíssimos. Nessa situação, o melhor a fazer é adotar uma política de redução de danos – e proteger o rosto. Use os braços como apoio para que ele não bata no chão.

(Estúdio Pingado/Superinteressante)

Fontes: Vera Lúcia Sugai e Sumio Tsujimoto, da academia Kyto; Livro Principles of Stage Combat, de Claude D. Kezer; Artigo Alcohol Related Falls: An Interesting Pattern of Injuries, Hospital de Ulster (Irlanda); Global Burden of Disease Study 2010, Organização Mundial da Saúde

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Remédio pode curar o Zika – e evitar transmissão para bebês

Um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia, liderado pelo biólogo brasileiro Alysson Muotri, descobriu uma droga que pode tanto impedir a infecção pelo vírus da Zika quanto evitar que ele seja transmitido para o feto em gestantes que já estão doentes, causando microcefalia. Os testes com células e camundongos deram certo, e a solução tem potencial para funcionar também no ser humano. 

A cloroquina, como é chamada, ficou famosa ao ser adicionada ao sal de cozinha da população da Amazônia na década de 1950 para combater um surto de malária. Seu truque é alterar o Ph (isto é, o grau de acidez) das células de forma que elas se tornem inóspitas para certos vírus. Não é comum usar medicamentos que originalmente tinham outras aplicações para combater doenças novas, mas o truque nesse caso, deu certo.

Os pesquisadores fizeram testes in vitro com sucesso – usando colônias de neurônios cultivadas especialmente para esse tipo de experimento. Depois passaram para os camundongos, que também reagiram bem ao medicamento. Fêmeas grávidas tratadas com cloroquina se tornaram imunes à doença, e tiverem filhotes saudáveis mesmo após serem expostas ao vírus. Os resultados estão em um artigo científico, publicado na Nature em novembro do ano passado. 

“O Zika pertence a um grupo de vírus – os flavivírus – que são muito resistentes a vacinas”, explica Muotri. “Demora muito tempo para desenvolver métodos profiláticos contra eles. Nós precisávamos de uma solução mais rápida. A cloroquina é um remédio já conhecido e barato, que não tem patente. Se houver outro surto de Zika no próximo verão, é possível usá-la para proteger a população.”

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Alysson Muotri no laboratório, em San Diego, Califórnia. (David Paul Morris/Universidade da Califórnia/Divulgação)

Essa já é a terceira investida da equipe de Muotri contra o Zika. A epidemia eclodiu em abril de 2015, e alguns meses depois foram registrados os primeiros casos de microcefalia no interior do Ceará. A mídia, desde o início, deu como certa a associação entre a infecção das grávidas pelo vírus e o nascimento de bebês com problemas congênitos. Mas a afirmação, na época, não tinha base científica sólida. Se baseava unicamente numa correlação estatística: como os filhos com problemas nasciam de gestantes com Zika, era muito provável que a culpa fosse da doença.

Muotri foi o primeiro a infectar uma camundongo fêmea com a versão brasileira do vírus – e confirmar que seus filhotes nasciam com problemas similares aos dos bebês humanos com microcefalia. As conclusões saíram em um artigo científico publicado em junho de 2016. “Hoje nós sabemos que o vírus, quando veio da África, sofreu mutações”, explica o pesquisador. “Essas mutações fazem com que ele se replique com muito mais facilidade em células humanas. Ainda resta descobrir quais pressões evolutivas tornaram a população do nordeste do Brasil mais suscetível à doença.”

Após a primeira vitória, a equipe se dedicou a descobrir qual tática o vírus adota para infectar o cérebro do feto. Não é uma tarefa fácil: primeiro é preciso passar pela placenta, uma barreira bastante seletiva. Depois, é necessário cruzar as meninges, três membranas protetoras que envolvem o cérebro. Poucos parasitas são capazes de fazer as duas coisas.

Foi a segunda vitória nacional. Os pesquisadores descobriram que o Zika, em estado dormente, se infiltra e pega carona nos macrófagos – células do sistema imunológico da mãe que têm acesso ao corpo do bebê. Superada essa barreira, o próximo passo do vírus é chegar ao cérebro da criança ainda nos primeiros estágios do desenvolvimento, antes que as meninges sejam capazes de impedi-lo. Quando a porta é fechada, ele já está lá dentro – um método apelidado por Muotri de “Cavalo de Tróia”.

Os três artigos provam que o Brasil está adiantado nas pesquisas sobre o vírus. “No ranking de pesquisas sobre o Zika, o Brasil está em segundo lugar. Só os EUA publicaram mais”, comenta Muotri. “Nós estamos muito bem, e muito disso é crédito da colaboração internacional. Os brasileiros conseguiram buscar apoio de cientistas no exterior para fazer a coisa andar mais rápido.”

Atenção: o leitor não deve se medicar sem prescrição médica. O uso de cloroquina no combate ao vírus ainda está em fase experimental e, se vier a ser aprovado, deverá ser feito supervisão de um profissional.

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