Análise | 11-11: Memories Retold é quase que literalmente a arte da guerra

Quando se pensa em guerra, é normal pensar em muitas coisas, mas talvez arte não seja a primeira delas — na verdade, talvez sequer faça parte do diagrama de pensamentos que se passa na cabeça de uma pessoa. Mas 11-11: Memories Retold é justamente sobre isso: a arte, na guerra.

Não, não tem absolutamente nada relacionado ao livro de Sun Tzu, muito embora seja possível correlacionar alguns temas da obra com o game desenvolvido pela Digixart e Aardman Animations (de Wallace & Gromit e Shaun O Carneiro) e distribuído pela Bandai Namco. Na realidade, 11-11: Memories Retold é sobre a 1ª Guerra Mundial.

Contudo, não espere ver aqui um jogo com ação desenfreada com muito tiro-tiro-tiro e sangue e violência… Não. Até nisso o jogo quebra o conceito sobre como as guerras são contadas, optando por algo muito mais íntimo, verossímil e artístico.

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E, mesmo sem mergulhar profundamente em questões que exploram a dubiedade da sociedade (no sentido humanista da coisa), todas essas questões estão lá, nas entrelinhas, transformando a experiência de jogar 11-11: Memories Retold em algo muito sensível, solidário e até mesmo emocionante.

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Dois lados da mesma moeda

Em 11-11: Memories Retold, jogamos com dois personagens: Harry, um jovem fotógrafo canadense que se envolve na guerra em suma para impressionar a garota que ele gosta, Julia; e Kurt, um engenheiro alemão que está em busca de seu filho, um soldado desaparecido, disposto até mesmo a se alistar para buscá-lo.

Eles estão claramente em lados opostos da 1ª Guerra Mundial, no auge do conflito, em 1918 (cem anos atrás, simbolicamente); e, ainda assim, são conceitos básicos para representar a grande maioria dos soldados que estiveram em uma guerra – mas não menos importantes por causa disso.

Mas o game ainda reserva algumas surpresas na manga como, por exemplo, a possibilidade de jogar no controle de um pombo ou de um gato. Os dois animais são os companheiros dos dois protagonistas humanos, funcionando quase como uma contraparte deles em toda a história.

É libertador e, porque não dizer, um pouco assustador assumir os pontos de vistas dessas adoráveis criaturas, observando um outro ângulo da narrativa e ajudando a costurar a história de Harry e Kurt. Além disso, há o esmagador e constante sentimento de medo e angústia pela vida dos companheiros, bem como a frustração por eles serem animais em meio à guerra.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Eles não apenas sabem muito mais do que Harry e Kurt, já que a perspectiva deles da história é completamente diferente e, claro, muito mais ampla; como também são criaturas indefesas em meio a um cenário trágico e perigoso. Ainda assim, sua presença no game é capaz de deixar tudo mais brilhante, mais especial.

Diferentes mecânicas

E já que existem quatro personagens diferentes para se jogar ao longo de toda a aventura, obviamente existem mecânicas diferentes aplicadas na jogabilidade de 11-11: Memories Retold. O título é todo em 3ª pessoa, então é possível mover a câmera com o analógico direito e vislumbrar não apenas os personagens, mas também os cenários ao redor deles.

Porém, também é possível executar tarefas diferentes com cada um dos protagonistas. O gato claramente pode escalar e se esgueirar por entre áreas pequenas e estreitas, enquanto o pássaro pode, obviamente, voar e levar mensagens como um bom pombo-correio.

Já Harry tem a habilidade única de tirar fotografias, registrar momentos, pessoas e lugares com sua câmera. E Kurt pode escutar através de paredes com um estetoscópio, reunindo informações importantes aqui e acolá.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Conhecimento é poder, mesmo

As informações, por sinal, são muito valiosas nesse jogo: elas são o principal instrumento para avançar na narrativa, e em especial COMO avançar nela. O jogador vai desbravando junto com os personagens e seus companheiros de guerra, bem como o pombo domesticado e o querido gato, como o ser humano pode ser incrível ou desprezível; além de eventualmente trabalharem juntos em uma forma de acabar com a guerra de maneira pacífica.

Todas as informações coletadas, por sinal, podem afetar o final do jogo. Ao todo, 11-11: Memories Retold possui 6 finais. O game é extremamente linear – o que pode incomodar alguns jogadores, os mais corajosos que adoram uma exploração, por exemplo –, mas é na maneira como se usa o conhecimento adquirido que os resultados se alteram.

No começo do jogo, esse percurso para o final através do uso das informações não parece tão evidente – ainda mais porque as escolhas mais importantes, e que realmente afetam como será o final da história, só acontecem quando se está mais próximo do último arco do game.

Todavia, é preciso ter algum cuidado na hora de escolher quais fotos enviar para Julia quando se está no comando de Harry, ou quais informações acrescentar nas cartas que Kurt escreve para sua esposa Katrin e sua filha Lucie. Tudo pode mudar se você decidir que quer impressionar sua garota ou se decidir abrir seu coração e mostrar vulnerabilidade; se pretende ser franco com sua esposa e sua filha ou se deseja acrescentar alguma fantasia às histórias.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Exploração x contemplação

Como já comentado, 11-11: Memories Retold é extremamente linear. Não há muito o que se explorar em termos de side-quests ou qualquer outro recurso do gênero que visa prender o jogador por muito mais tempo do que deveria, não. Aqui, vamos direto ao ponto, o que pode ser bom ou ruim.

Bom porque quem é apaixonado por narrativas mais do que mecânicas terá sua fome por uma delicada e importante história saciada em apenas algumas horas de jogatina. E ruim para quem busca explorar as trincheiras da 1ª Guerra Mundial com missões extras enquanto expande o lore deste universo através de miniarcos optativo-jogáveis.

Para o bem ou para o mal, 11-11: Memories Retold tem um mundo riquíssimo (e eu ainda nem entrei no mérito dos gráficos…). A narrativa gira em torno do polo Harry-Kurt-Animais, sim, mas há uma infinidade de soldados e histórias perdidas ali, todas coletadas a partir de documentos muito bem espalhados pelos cenários.

Chega a doer quando se avança para o próximo arco – ou automaticamente muda-se o personagem controlável – e os documentos com algum conto ou registros de algum soldado, ficam para trás. Dá uma sensação de que aquela história nunca vai ser concluída e a vontade é de imediatamente voltar e fazer tudo de novo.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

A contemplação é uma forma de exploração, ainda mais que seja mais… “Parado”, por assim dizer, afinal o jogador precisa tirar muitas fotografias com Harry e conversar bastante na pele de Kurt. Porém, é entendível que esse tipo de jogabilidade não seja para qualquer pessoa, especialmente aqueles que buscam algo mais dinâmico, algo mais voltados à ação.

Então, caso esteja buscando um game assim, talvez 11-11: Memories Retold não seja o ideal, pelo menos não agora. O título é certamente uma pérola que merece ser experimentada por todos. É educativo, delicado, humano — e a ironia de tudo é justamente se passar em um cenário completamente contrastante com tudo o que representa: a 1ª Guerra Mundial.

Arte

Por fim, gostaria de dedicar uma seção desta análise aos gráficos do jogo. O estilo utilizado aqui é certamente a cereja do bolo, a pitada extra e diferencial que certamente chamará a atenção de todos os jogadores, mesmo que por um breve momento. Afinal, é difícil não se admirar com o visual impressionista na tela.

O jogo inteiro é pautado nesse estilo gráfico e o impressionismo nada mais é do que um movimento social — de maneira simplificada, retrata a sociedade como um todo e a arte de concordar sobre discordar, e vice-versa. É também uma exteriorização de descobertas artísticas inspiradas pela fotografia; a composição de cores e como elas podem influenciar a ótica dos admiradores, transformando sua impressão sobre objetos, formas, tonalidades, etc.

O impressionismo é a escolha perfeita para ilustrar 11-11: Memories Retold, ainda mais nos dias de hoje, em que uma grande parcela dos jogos tem como objetivo impressionar os jogadores com gráficos ultrarrealistas. Aqui, o objetivo de impressionar é através da arte, pura e simples. É quase como uma pintura viva jogável.

E a trilha sonora? Também vale apontar como ela resplandece tons e cores, pois, da mesma forma que o estilo visual é um paralelo e um contraste com o os gráficos ultrarrealistas dos videogames modernos; as músicas ao fundo da mesma forma o são, traçando uma oposição e um correspondente com os gêneros orquestrais e épicos presentes na maioria das composições atuais. As músicas de 11-11: Memories Retold são, sem dúvidas, algumas das melhores do ano.

Por fim, mas não menos importante, o jogo conta com um trabalho de dublagem e localização honestos. No que tangem as vozes, contamos com Elijah Wood (O Senhor dos Anéis) na pele de Harry e Sebastian Koch (Homeland) como Kurt. Sobre a localização, o jogador ouvirá muito inglês e alemão, já que os desenvolvedores optaram por manter os idiomas nativos para ajudar ainda mais na imersão do universo do game; mas, no Brasil, o título está completamente em português.

11-11: Memories Retold não é sobre guerra. É sobre paz. É sobre humanidade. Tudo através da arte.

11-11: Memories Retold está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One. No Canaltech, o jogo foi analisado no PS4 com cópia gentilmente cedida pela Bandai Namco.

via Canaltech

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