Artigo: escândalo da Cambridge Analytica é bom para usuários do Facebook

Para autor, as consequências da polêmica são positivas já que colocam as práticas da rede social sob análise microscópica da imprensa e do governo.


O recente escândalo envolvendo o Facebook e a consultoria política Cambridge Analytica resultou em uma revolta global, com usuários da rede social apagando furiosamente suas contas em um gesto em massa contra o fundador da plataforma, Mark Zuckerberg

Caso você não tenha acompanhado esse caso que colocou a maior rede social do mundo em parafuso, a versão resumida é a seguinte: a Cambridge Analytica usou uma brecha para coletar os dados de dezenas de milhões de usuários do Facebook. Depois a empresa usou essas informações para tentar influenciar os resultados de eleições – incluindo aquela que teve Donald Trump como vencedor em 2016. 

O ponto é que os dados que a Cambridge acumulou não eram limitados aos usuários que optaram por participar do seu quiz de personalidade; a coleta também se estendeu para os dados dos amigos desses usuários. Em outras palavras, mesmo as pessoas que não tinham concordado em compartilhar suas informações pessoais com o app acabaram tendo os seus dados comprometidos. A indignação é compreensível. Saudável até. É claro que devemos nos levantar sempre que o nosso direito à privacidade – ou qualquer outro direito – for comprometido.

Mas apagar a sua conta do Facebook é realmente a resposta? A partir da minha perspectiva, é um caso clássico de cortar o nariz para irritar o rosto. O fato é que o escândalo da Cambridge Analytica é a melhor coisa que poderia ter acontecido aos usuários do Facebook. A plataforma social agora está sendo analisada microscopicamente pela imprensa e por órgãos governamentais, e você pode apostar que qualquer outro comportamento suspeito envolvendo a rede social será desenterrado rapidamente.

Não é diferente do que aconteceu com o produtor de cinema Harvey Weinstein. O escândalo continua a dominar as manchetes seis meses depois do surgimento das primeiras acusações contra ele por má conduta sexual, trazendo à luz o predomínio muito difundido do assédio e do abuso sexual – não apenas em Hollywood, mas em ambientes de trabalho de forma geral. 

Com o Facebook agora sendo observado muito de perto, esse tipo de atitude de tolerância zero será replicada por Mark Zuckerberg e sua equipe à medida que eles tentam restaurar rapidamente a boa vontade do público em relação à rede social.

Zuckerberg já pediu um pedido de desculpas, admitindo que o Facebook possui a responsabilidade de proteger os dados dos seus usuários, e que tomaria diversas medidas para garantir que esse tipo de coisa não volte a acontecer no futuro. Isso inclui realizar uma auditoria completa de qualquer aplicativo demonstrando atividade suspeita, e banir qualquer desenvolvedor que tenha usado indevidamente informações pessoalmente identificáveis.

No final das contas, o que isso significa para os usuários finais é que acabaram os dias dos aplicativos terceirizados tendo liberdade total com os nossos dados. Apesar de sempre ter existido um acordo subentendido de que o Facebook poderia usar os dados que fornecemos para a sua plataforma para anunciar produtos e serviços, a extensão de acesso que as empresas tinham a esses dados nunca foi totalmente compreendida. Não realmente. Mas, graças à Cambridge Analytica, essa ambiguidade será retificada como um ponto de prioridade.

A partir desta semana, todos os mais de 2,2 bilhões de usuários do Facebook começarão a receber um aviso nos seus feeds de notícias – intitulado “Protegendo as suas informações” (“Protecting your information”) – com um link que mostra todos os apps que estão conectados com a sua conta atualmente, juntamente com as informações pessoais compartilhadas com esses aplicativos. A partir daí, desabilitar os apps individualmente – ou barrar completamente o acesso de apps de terceiros – será algo relativamente simples.

Por mais tentador que seja participar da insatisfação que está impulsionando a campanha #deletefacebook, a verdade é que sempre existirão riscos quando o assunto é compartilhar dados com terceiros. Isso inclui bancos, fornecedores de serviços e departamentos governamentais. 

Se você fosse cortar laços com todo provedor de serviços que for alvo de um vazamento de dados ou que lidar incorretamente com informações pessoais, provavelmente acabará ficando sem empresas para lidar em pouco tempo. Em vez de ceder à reação #deletefacebook que está em alta no momento, é melhor fazer um julgamento de valor e questionar se os riscos de compartilhar os seus dados pessoais valem a recompensa. 

No caso do Facebook, essa recompensa é ter acesso ao que tornou-se um microcosmo interativo de toda a Internet, com conteúdos sendo publicados e curados pela sua rede de amigos, juntamente com marcas, veículos de comunicação e influenciadores que você segue, assim como uma engine de recomendações de produtos e serviços selecionados com base nos seus “likes” e “dislikes”.

É o maior quadro de avisos comunitário do mundo, o principal serviço de mensagens instantâneas, o maior repositório de fotos e um fluxo interminável de memes divertidos e vídeos de cachorros e gatos.

Isso é algo difícil de abandonar, uma vez que amamos odiar a influência do Facebook nas nossas vidas. Se você vai apagar a sua conta do Facebook por conta dos riscos percebidos de privacidade, então também pode seguir em frente e deletar todas as suas contas on-line e mudar para uma comunidade hippie auto-sustentável – e, mesmo assim, os seus dados pessoais ainda podem cair nas mãos erradas.

Certamente vamos responsabilizar as empresas sempre que elas errarem. Mas também vamos ser práticos e continuar mantendo os nossos principais interesses em foco. No meu caso, pelo menos, isso significa manter a minha conta do Facebook intacta.

*Michael Jankie é CEO da PoweredLocal

via IDG Now!

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