Sheryl Sandberg: Facebook sabia de Cambridge Analytica, mas não agiu

Executiva deu declaração à NBC em que afirma que a empresa não verificou o alcance do mau uso de dados quando foi exposta ao problema


Imagem Crédito: Shutterstock

Em mais um episódio do escândalo envolvendo o Facebook e a Cambridge Analytica (CA) a chefe de operações da rede social, Sheryl Sandberg, disse ao programa Today da NBC, na última quinta-feira (5/4), que a empresa sabia que a CA havia “manipulado mal” os dados dos seus usuários há dois anos e meio, mas que não conseguiu checar o que foi feito e como foi feito depois que a companhia garantiu que os dados foram totalmente apagados.

Sheryl, assim como Mark Zuckerberg, vêm concedendo uma série de entrevistas com pedidos de desculpas pela mídia em razão das falhas cometidas pelo site. Enquanto isso, o fundador da rede social se prepara para comparecer, no próximo dia 11 de abril, ao comitê de Energia e Comércio da Câmara dos Deputados dos EUA, diante de parlamentares norte-americanos. O depoimento está marcado para às 10h locais (11h em Brasília).

“Poderíamos ter feito isso …”

Em um momento de sinceridade, Sheryl admitiu que se o Facebook tivesse auditado o uso desses dados pela CA, a rede social poderia ter evitado o escândalo de privacidade que colocou a empresa e os próprios membros da plataforma em situação complicada.

“Você está certa, poderíamos ter feito isso há dois anos e meio… Achamos que os dados foram apagados e nós deveríamos ter verificado”, disse em entrevista à Savannah Guthrie. Questionada sobre por que o Facebook não verificou o que estava acontecendo quando soube do uso de dados em 2016 pela CA, Sandberg se viu contra a parede.

“Achamos que tinha sido excluído porque eles nos deram garantias”, disse. “Nós tivemos garantias legais de que eles deletaram”, completou, sem revelar quais seriam. “O que não fizemos foi o próximo passo, uma auditoria e estamos tentando fazer isso agora”, finalizou.

O uso da palavra “tentar” por Sandberg, ao se referir à auditoria, diz respeito ao fato de o Facebook estar sob investigação. A executiva afirmou, em oportunidade recente, que a rede social não pode realizar sua revisão porque deve esperar que o comissário de informação do Reino Unido termine a sua própria investigação sobre a atividade eleitoral da CA no País. 

“Até hoje não sabemos quais dados a Cambridge Analytica tem”, disse ao Financial Times. 

Investigações nos EUA e no Reino Unido

As investigações sobre a manipulação de dados feita pela CA no Facebook estão em curso nos Estados Unidos e no Reino Unido, mas sabe-se que afetou também usuários no Brasil (mais precisamente 443 mil contas). A empresa está sendo questionada pela maneira como colheu dados de 87 milhões de pessoas e usou para atingir eleitores em nome da campanha eleitoral do presidente dos EUA e do referendo sobre o Brexit no Reino Unido.

A Cambridge Analytica teve acesso a um enorme volume de dados ao lançar um aplicativo de “teste psicológico” na rede social. Esses usuários do Facebook que responderam as perguntas e participaram do teste entregaram não só as respostas e não apenas as suas próprias informações mas, conforme as configurações de acesso de aplicações na rede social, deixaram o caminho livre, também, para os dados de todos os seus amigos do perfil.

A denúncia foi feita pelos jornais The New York Times e The Guardian e levantou dúvidas sobre a transparência e o compromisso do Facebook a proteção de dados dos usuários.

Com a CA obteve os dados

A CA teria comprado os dados coletados por Aleksandr Kogan, pesquisador da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que pesquisava sobre como deduzir personalidade e inclinações políticas a partir de perfis no Facebook — e criou o aplicativo em questão. A Universidade de Cambridge já afirmou não ter nenhuma relação com a CA. 

Em posse de informações pessoais de usuários do Facebook, teria usado esses dados para criar um sistema que permitiu predizer e influenciar as escolhas dos eleitores nas urnas, em jogo que envolveu manipulação, retórica, dedução de personalidade e inclinações políticas.

Sob vigilância

Em meio ao turbilhão de processos, Sheryl reconhece que há questões operacionais que precisa mudar. Principalmente no que diz respeito à forma como desenvolvedores captam e usam dados dos usuários obtidos em aplicações e jogos na plataforma.

Ainda em 2018, nos Estados Unidos, o Facebook deve introduzir padrões de privacidade semelhantes aos que serão aplicados na Europa, conforme duas novas leis: General Data Protection Regulation (GDPR) e ePrivacy laws. Ambas exigem que as empresas obtenham resposta afirmativa de cada usuário para cada dado que qualquer empresa mantém ou processa.

Analistas acreditem que o novo processo de permissão de uso de dados causará um impacto para os usuários porque forçará o Facebook a dizer, em detalhes, quais dados e com quem estão compartilhados, forçando uma reflexão sobre o uso da plataforma no geral. 

Quem é a Cambridge Analytica?

A CA é uma empresa que combina mineração e análise de dados (big data) com comunicação estratégica para o processo eleitoral. Sua equipe trabalhou em conjunto com o time responsável para campanha do republicano Donald Trump nas eleições de 2016, hoje atual presidente dos Estados Unidos. 

Na Europa, a mesma empresa foi contratada pelo grupo que promovia o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), em uma campanha que envolveu a opinião pública. O dono é o bilionário Robert Mercer, do mercado financeiro, e quem respondia como presidente era Steve Bannon, hoje assessor de Trump.

 

via IDG Now!

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