Análise | Shadow of the Colossus já era incrível; agora, se tornou indescritível

Em uma era tomada por remasterizações e retornos de games antigos, se tornou comum o pensamento de que um relançamento desse tipo é uma maneira fácil de ganhar algum dinheiro em cima de títulos do passado. Afinal de contas, basta pegar o que já está pronto, dar uma recauchutada e colocar em uma nova embalagem, não é mesmo?

Então surgem nomes como Shadow of the Colossus, um dos maiores jogos de todos os tempos, que, a bem da verdade, já foi remasterizado uma vez, em 2011, para PlayStation 3. Entre narizes torcidos e empolgação dos fãs que acham que relançamentos da obra-prima de Fumito Ueda nunca são demais, a desenvolvedora Bluepoint Games assumiu uma tarefa que parecia ser das mais difíceis.

Afinal de contas, como refazer um título tão cultuado? De que forma trazer para o mundo de hoje um game com seus bons 13 anos de idade, mas que envelheceu quase tão bem quanto um bom uísque? A resposta chegou às prateleiras neste dia 6 de fevereiro e constitui não apenas um dos melhores remakes já lançados na história dos games, mas também um tratado sobre como se realizar um trabalho desse tipo.

Descrever os motivos que levaram Shadow of the Colossus ao status de clássico não é uma tarefa das mais fáceis. Os motivos variam de pessoa para pessoa — alguns podem citar a escala épica dos combates contra os inimigos, com verdadeiras lutas de Davi contra Golias. Para outros, pode ser o mundo vasto; a beleza dos gráficos, que já enchiam os olhos mesmo nos idos do PS2; a trilha sonora incrível ou, ainda, a sutileza da trama, que tem um tom intimista e emotivo, palpável a todos, mesmo que, aqui, estejamos falando de um mundo de fantasia. Ou, talvez, seja a junção de tudo isso.

Para a Bluepoint, apresentar todo o jogo de intepretações, nuances e sentimentos envolvidos em Shadow of the Colossus poderia soar como uma batalha tão hercúlea quanto o combate do próprio protagonista, Wander, em busca da salvação de sua amada Mono. E aí veio a decisão mais acertada de todo esse processo — mexer apenas no que é necessário.

Tudo o que foi construído por Ueda em 2005 está aqui, de volta e em sua melhor forma. Este relançamento roda sobre as bases do original, literalmente, utilizando a mesma programação da época e também todos os seus recursos narrativos e de jogabilidade. Enquanto isso, em um trabalho impressionantemente belo, a Bluepoint chega não apenas remodelando completamente a parte gráfica, mas também trazendo um esquema de controles e câmera atualizado.

A Terra Proibida de Shadow of the Colossus ficou ainda mais impressionante

É justamente no conjunto visual que está o maior valor deste título. Cada pedrinha, árvore, templo e colosso foi totalmente redesenhado, com um reaproveitamento completo dos designs originais aplicado à arquitetura do PlayStation 4 e sua capacidade de gerar belos gráficos.

A performance técnica do jogo é impecável. Se o original, e mesmo sua remasterização, sofriam em momentos de processamento mais complexo, a nova versão de Shadow of the Colossus roda lisa. São 30 frames por segundo cravados na versão convencional do console, com uma resolução 4K no PlayStation 4 Pro. Se preferirem, os usuários do console mais robusto podem jogar em 1080p, mas com uma taxa de 60 fps.

Não apenas isso, mas o cuidado artístico é perceptível desde a cutscene inicial. Raios de luz volumétricos criam formas entre os pilares do templo em que está o cadáver de Mono. À distância, vemos cachoeiras com direito a reflexos realistas do ambiente em volta, enquanto, de perto, galhos caídos ao chão e folhas de árvores caindo do céu dão o tom de tranquilidade que contrasta com os perigos e mistérios de uma Terra Proibida.

De perto, pelas "lentes" do Photo Mode, Shadow of the Colossus fica ainda mais impressionante

O novo modo de fotografia, uma das novidades do remake, evidencia tudo isso, permitindo que o jogador crie belas imagens rodando a câmera em três dimensões e aplicando filtros ou efeitos visuais. Quem não quiser tirar fotos também pode olhar o trabalho de reconstrução deste mundo bem de perto, mais uma evidência de que, aqui, estamos diante de desenvolvedores que sabiam o que estavam fazendo.

Também pudera. A história da Bluepoint Games com Shadow of the Colossus, na realidade, não começou agora, mas sim há mais de dez anos, quando a empresa, em um de seus primeiros trabalhos, foi incumbida de remasterizar o título para o PS3. A saga da empresa se seguiu com outros clássicos, mas o amor permaneceu lá atrás, junto a um dos títulos mais impressionantes da história. Isso garante, agora, o retorno do épico por mãos extremamente competentes, com precisão cirúrgica.

Mexendo onde era preciso

Por mais que seja um dos maiores clássicos do mundo dos games, Shadow of the Colossus não era impecável. Sua maior deficiência, evidenciada principalmente com seu relançamento para o PS3, estava nos controles e no jogo de câmeras, que trazia o peso característico de jogos do início dos anos 2000.

Trata-se de um empecilho menor, que poderia constituir uma barreira para novatos, agora completamente destruída pela Bluepoint Games. O remake de Shadow of the Colossus até traz os controles originais, mas também permite a jogatina com um novo e incrementado sistema, que envolve controles e câmera, tornando a experiência muito mais fluída e interessante, mas sem facilitá-la demais.

No remake, os combates de Shadow of the Colossus se tornaram ainda mais épicos.

É claro, os veteranos da caça aos colossos perceberão que, no modo normal, o novo conjunto de comandos pode tornar as coisas um pouco simples demais. Para todos os outros, entretanto, o resultado dessa nova adição é uma mecânica muito mais inteligente e direta, que entrega todas as possibilidades de combate nas mãos dos próprios jogadores. Algumas heranças malditas aparecem aqui e ali, mas, de maneira geral, nunca estivemos tão preparados para enfrentar esses gigantes.

Mudanças de interface também aparecem neste remake, de forma a evidenciar o conjunto visual e, ao mesmo tempo, entregar as informações necessárias. Aproveitando-se da alta resolução proporcionada pelo PlayStation 4, o novo Shadow of the Colossus apresenta barras e indicadores minimalistas, que não ocupam mais do que o espaço de que precisam. Barras de energia e fôlego só aparecem nos momentos de ação, enquanto, no restante, a tela é limpa para que os visuais de embasbacar façam sua graça.

Remake de Shadow of the Colossus preserva o clássico e mexe apenas no que é necessário

Colecionáveis misteriosos e novos easter eggs completam um pacote que traz itens para todos e proporcionam uma das experiências mais incríveis da atual geração. O remake de Shadow of the Colossus não deixa nada a dever a outros games desenvolvidos na atualidade e, mais do que isso, mostra como um trabalho desse tipo deve ser realizado — preservando todos os aspectos que tornaram o original um clássico, ao mesmo tempo em que se torna relevante pela atualização e novidades.

Presente em listas dos games mais importantes de todos os tempos, estamos falando aqui de um dos títulos obrigatórios para qualquer pessoa. Agora, ao ser repaginado completamente, Shadow of the Colossus retorna melhor do que nunca, abrindo as portas para toda uma nova geração de fãs ao mesmo tempo em que extasia, mais uma vez, aqueles que acompanharam a saga de Wander no passado.

* Shadow of the Colossus foi analisado em cópia física cedida gentilmente ao Canaltech pela PlayStation Brasil.

via Canaltech

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