Remédio pode curar o Zika – e evitar transmissão para bebês

Um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia, liderado pelo biólogo brasileiro Alysson Muotri, descobriu uma droga que pode tanto impedir a infecção pelo vírus da Zika quanto evitar que ele seja transmitido para o feto em gestantes que já estão doentes, causando microcefalia. Os testes com células e camundongos deram certo, e a solução tem potencial para funcionar também no ser humano. 

A cloroquina, como é chamada, ficou famosa ao ser adicionada ao sal de cozinha da população da Amazônia na década de 1950 para combater um surto de malária. Seu truque é alterar o Ph (isto é, o grau de acidez) das células de forma que elas se tornem inóspitas para certos vírus. Não é comum usar medicamentos que originalmente tinham outras aplicações para combater doenças novas, mas o truque nesse caso, deu certo.

Os pesquisadores fizeram testes in vitro com sucesso – usando colônias de neurônios cultivadas especialmente para esse tipo de experimento. Depois passaram para os camundongos, que também reagiram bem ao medicamento. Fêmeas grávidas tratadas com cloroquina se tornaram imunes à doença, e tiverem filhotes saudáveis mesmo após serem expostas ao vírus. Os resultados estão em um artigo científico, publicado na Nature em novembro do ano passado. 

“O Zika pertence a um grupo de vírus – os flavivírus – que são muito resistentes a vacinas”, explica Muotri. “Demora muito tempo para desenvolver métodos profiláticos contra eles. Nós precisávamos de uma solução mais rápida. A cloroquina é um remédio já conhecido e barato, que não tem patente. Se houver outro surto de Zika no próximo verão, é possível usá-la para proteger a população.”

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Alysson Muotri no laboratório, em San Diego, Califórnia. (David Paul Morris/Universidade da Califórnia/Divulgação)

Essa já é a terceira investida da equipe de Muotri contra o Zika. A epidemia eclodiu em abril de 2015, e alguns meses depois foram registrados os primeiros casos de microcefalia no interior do Ceará. A mídia, desde o início, deu como certa a associação entre a infecção das grávidas pelo vírus e o nascimento de bebês com problemas congênitos. Mas a afirmação, na época, não tinha base científica sólida. Se baseava unicamente numa correlação estatística: como os filhos com problemas nasciam de gestantes com Zika, era muito provável que a culpa fosse da doença.

Muotri foi o primeiro a infectar uma camundongo fêmea com a versão brasileira do vírus – e confirmar que seus filhotes nasciam com problemas similares aos dos bebês humanos com microcefalia. As conclusões saíram em um artigo científico publicado em junho de 2016. “Hoje nós sabemos que o vírus, quando veio da África, sofreu mutações”, explica o pesquisador. “Essas mutações fazem com que ele se replique com muito mais facilidade em células humanas. Ainda resta descobrir quais pressões evolutivas tornaram a população do nordeste do Brasil mais suscetível à doença.”

Após a primeira vitória, a equipe se dedicou a descobrir qual tática o vírus adota para infectar o cérebro do feto. Não é uma tarefa fácil: primeiro é preciso passar pela placenta, uma barreira bastante seletiva. Depois, é necessário cruzar as meninges, três membranas protetoras que envolvem o cérebro. Poucos parasitas são capazes de fazer as duas coisas.

Foi a segunda vitória nacional. Os pesquisadores descobriram que o Zika, em estado dormente, se infiltra e pega carona nos macrófagos – células do sistema imunológico da mãe que têm acesso ao corpo do bebê. Superada essa barreira, o próximo passo do vírus é chegar ao cérebro da criança ainda nos primeiros estágios do desenvolvimento, antes que as meninges sejam capazes de impedi-lo. Quando a porta é fechada, ele já está lá dentro – um método apelidado por Muotri de “Cavalo de Tróia”.

Os três artigos provam que o Brasil está adiantado nas pesquisas sobre o vírus. “No ranking de pesquisas sobre o Zika, o Brasil está em segundo lugar. Só os EUA publicaram mais”, comenta Muotri. “Nós estamos muito bem, e muito disso é crédito da colaboração internacional. Os brasileiros conseguiram buscar apoio de cientistas no exterior para fazer a coisa andar mais rápido.”

Atenção: o leitor não deve se medicar sem prescrição médica. O uso de cloroquina no combate ao vírus ainda está em fase experimental e, se vier a ser aprovado, deverá ser feito supervisão de um profissional.

via Superinteressante

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