Verme fêmea tem filhotes sozinha – e “limpa” genes masculinos do DNA

Há mais ou menos 100 milhões de anos, a vida ficou mais prática para as fêmeas da espécie C. briggsae – um verme cilíndrico de um milímetro de comprimento que habita jardins e bosques de regiões temperadas, e adora cogumelos. Foi nessa época que a espécie divergiu (ou seja, tomou um caminho evolutivo diferente) de seu parente mais próximo, um verme quase idêntico chamado C. nigoni.

O C. nigoni não reinventou a roda, e ficou com o esquema de macho e fêmea comum no mundo animal – em que é necessário unir espermatozoides e óvulos para se reproduzir. O C. briggsae, por sua vez, chutou o balde: suas fêmeas aprenderam a fabricar os próprios espermatozoides, e passaram a fecundar a si próprias, sem participação dos machos.

Com a mudança, uma boa parte do código genético usado para conferir características masculinas aos animais se tornou desnecessária e foi apagada. Em 100 milhões de anos, a espécie jogou fora um quarto de seu DNA – cerca de 7 mil genes. A descoberta foi feita por biólogos da Universidade de Maryland, nos EUA, e publicada na Science.

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Quando os pesquisadores compararam o DNA da C. briggsae com o da C. nigoni – que, apesar das diferenças reprodutivas, são quase iguais em todo o resto – descobriram que vários dos genes excluídos na espécie assexuada eram equivalentes aos genes que davam vantagens reprodutivas aos machos da espécie sexuada. Em outras palavras, para o verme hermafrodita, o amor próprio foi um caminho evolutivo mais eficiente que a vida conjugal. Como os hermafroditas XX (isto é, com cromossomos sexuais na configuração de fêmea) em geral produzem filhotes também XX, a proporção de machos caiu bruscamente na população.

Segundo o New York Times, é provável que a autofertilização, por permitir um aumento populacional rápido, seja uma boa tática para tomar de assalto ambientes nutritivos – como uma maçã em decomposição. A divergência de um ancestral comum entre uma espécie sexuada e outra hermafrodita é um experimento científico natural perfeito para geneticistas, que agora podem ter uma ideia da quantidade de DNA que uma espécie dedica à reprodução. “Isso nos mostra qual fatia do genoma está envolvida nas minúcias do acasalamento – e é impressionante o quanto essa fatia é grande”, afirmou Da Yin, líder do estudo, ao jornal americano. Pelo jeito, a vida de solteiro já era tentadora muito antes do surgimento do Homo sapiens.

 

 

via Superinteressante

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