FIFA 18 aposta em mudanças sutis para continuar soberano [Análise]

O juiz autorizou o pontapé inicial e a bola está rolando! FIFA entra em campo mais uma vez como o título futebolístico preferido do público e neste ano traz mudanças muito sutis em várias vertentes, melhorando praticamente tudo que já dava certo na série para continuar reinando soberano. Em outras palavras, FIFA 18 não traz nenhuma novidade disruptiva e é um exemplo claro de que a EA está confortável na posição que ocupa atualmente e confiante de que não precisa mexer no time.

Isso fica evidente logo nos primeiros minutos que temos contato com FIFA 18. Apelando para cenas cinematográficas, o título coloca o jogador como expectador-controlador do clássico Real Madrid x Atlético de Madrid. Os jogadores são fielmente representados, os gráficos retratam muito bem o gramado e todo o estádio e os gritos da torcida aumentam ainda mais a imersão no derby. O realismo é tamanho que um desavisado qualquer que observar a TV com o "rabo do olho" pode se enganar e acreditar que aquilo se trata de uma partida real.

Toda a direção é digna de um filme hollywoodiano, até que Cristiano Ronaldo sofre falta e o jogador assume o controle do ponta português. A partir da cobrança da penalidade, tudo o que acontece é de responsabilidade do jogador, que aos poucos vai experimentando o que FIFA 18 tem a oferecer.

 

Na jogabilidade se mexe

Se em time que está ganhando não se mexe, na jogabilidade se mexe, sim. Tanto é que bastam algumas trocas de passe para perceber que FIFA 18 é diferente do antecessor. Neste ano, a EA resolveu pisar um pouco no freio e tornar o jogo menos frenético e mais cadente.

A opção por esse estilo de jogo um pouco mais lento altera completamente o jeito que cada jogador joga e as estratégias que ele usa. Quem antes era acostumado a colocar a bola nos pés de um jogador rápido e habilidoso, agora descobrirá que FIFA 18 penaliza isso cansando o elenco mais rapidamente. O jeito, então, é aprender a avançar pelo campo trocando passes e utilizando os jogadores mais rápidos apenas em bolas enfiadas e contra-ataques.

Outro aspecto que também recebeu foram os jogadores em campo. Agora eles não só parecem mais reais, como têm uma movimentação mais fluida. Em mais um sinal da maturidade da engine Frostbite, a bola também parece mais real. Alvo de críticas em títulos anteriores, agora ela realmente aparenta ser uma pelota que pesa 450g e tem seus 70 centímetros de circunferência, sofrendo as ações da gravidade sobretudo quando é chutada com força e para o alto.

Com essas mudanças, provavelmente o objetivo da Electronic Arts é refletir melhor como são as partidas no mundo real. O problema é que isso pode trazer algumas implicações negativas, e FIFA 18 não escapa incólume disso.

Caiu na área, é pênalti!

Basta algumas horas a mais de contato com FIFA 18 para perceber que ele sofre com alguns probleminhas – e uns são bem irritantes. Começando pela troca de passes, quando bem executada, ela rapidamente leva um time da defesa ao ataque. O problema é que o ritmo mais lento do jogo impede que o elenco acompanhe essa evolução a contento. Resultado: muitas vezes você se vê no ataque com apenas um jogador, enquanto o restante do time vem atrás em marcha lenta.

Falando em ataque, cabe dizer que a inteligência artificial (IA) do game é impecável no campo adversário. Ela não só se posiciona muito bem como também toma a iniciativa de arrancar por trás da "linha inimiga", favorecendo enfiadas de bolas que quase sempre resultam em gol. Do outro lado do campo, entretanto, a coisa muda de figura e fica feia.

Agora, defender não é mais apenas apertar um botão para roubar a bola. É preciso paciência e timing para ser bem-sucedido nos desarmes
Agora, defender não é mais apenas apertar um botão para roubar a bola. É preciso paciência e timing para ser bem-sucedido nos desarmes (Reprodução: Electronic Arts)

Não raramente a IA se embanana na marcação e coloca o jogador em ciladas inacreditáveis. Isso é especialmente verdade em bolas lançadas por cima. É só deixar o adversário mandar uma para ver o defensor controlado pela IA perdido, sem saber o que fazer, deixando a bola passar raspando na orelha como se não estivesse acontecendo nada.

Por falar em defesa, eis uma tarefa que exige muita paciência e dedicação do jogador. Não basta mais pressionar o botão de desarme no controle para impor pelo menos alguma dificuldade ao adversário. É preciso ter uma boa noção de timing para "dar o bote" e saber utilizar a cobertura de um defensor extra para ser bem-sucedido nos desarmes.

A sensação que temos depois de um certo tempo é que as poucas mudanças de jogabilidade feitas em FIFA 18 acabaram, sim, contribuindo para que aquilo que já era bom ficar ainda melhor, mas também comprometeram outros aspectos importantes do jogo.

Chutou e é gol!

Se FIFA 18 comete alguns pecados ao tentar refinar sua jogabilidade, em todos os outros aspectos o título marca um golaço. A começar pelos menus e pela trilha sonora que embala o game. Enxutas, as opções de jogo são objetivas e assertivas. Claro que sempre tem alguém que investe um tempinho a mais ajustando uma coisa e outra, e é justamente aqui que a trilha sonora de FIFA 18 se destaca.

Diferente do que fazia anos atrás, a EA já não investe tão pesado no licenciamento de canções que marcaram época como, por exemplo, em Need for Speed Underground. Mesmo assim, ainda há um leque variado de músicas com uma pegada indie e de qualidade. Os conhecidíssimos Weezer e Lorde constam na playlist, mas os destaques ficam por conta de BORNS, Kovic, RAC & St. Lucia e, principalmente, Rex Orange County, que trazem uma boa empolgação para os momentos pré e pós-partida.

A qualidade visual empregada na representação das principais estrelas também se estende para os estádios, o gramado e seu entorno. Os principais palcos das disputas futebolísticas mundiais estão fielmente reproduzidos, bem como suas arquibancadas, locais dos bancos de reservas e espaços destinados à imprensa – que vez ou outra ou desvia ou leva uma bolada num chute mais torto. A relva, invariavelmente, começa as disputas verdinha, como um tapete. Mas bastam algumas bolas mais disputadas para começarmos a ver os buracos se formarem no campo, mostrando todo o capricho e realismo impostos pela EA.

No quesito narração, FIFA 18 segue apostando em quebrar a quarta parede com Tiago Leifert e Caio Ribeiro. Isso significa que os "narradores" mais parecem dois amigos sentados ao lado do jogador falando sobre as partidas com muitas piadas e referências a outros jogos do que propriamente comentaristas profissionais. É uma proposta diferente da adotada por PES 2018 e que agrada uma parcela dos jogadores e faz outra torcer a cara. Independentemente disso, não há como negar que o trabalho foi muito bem feito e na grande maioria das vezes as falas estão sincronizadas e condizentes com os lances da partida.

E já que falamos da "brasilidade" do jogo, talvez o único pecado de FIFA continue sendo a falta de clubes brasileiros licenciados. Enquanto o rival se destaca por investir cada vez mais no Brasileirão, aqui não há sequer um clube com o elenco ou estádio licenciado – algo estranho, mas na mesma medida compreensível, dada a dificuldade que é negociar com as equipes locais. Em outras palavras, quem busca por clássicos como Corinthians x São Paulo, Flamengo x Fluminese ou Cruzeiro x Atlético Mineiro em FIFA 18, se decepcionará bastante.

Superastros são fielmente reproduzidos em FIFA 18. Além do visual, movimentação em campo, toque de bola e até comemorações são reproduzidos perfeitamente
Superastros são fielmente reproduzidos em FIFA 18. Além do visual, movimentação em campo, toque de bola e até comemorações são reproduzidos perfeitamente (Divulgação: Electronic Arts)

Quer jogar como?

FIFA 18 oferece uma miríade de possibilidades de se jogar futebol. As partidas avulsas e torneios customizáveis são o feijão com arroz do título, mas há outros modos que agradam desde os jogadores iniciantes até aqueles que querem controlar até os aspectos fora das quatro linhas.

O futebol feminino mais uma vez se faz presente, com mecânicas e jogabilidade refinadas para Marta, Cristiane e companhia. Desta vez, a EA também teve o cuidado de gravar falas exclusivas para elas, evitando os erros bizarros de concordância de gênero que rolaram em edições anteriores.

O modo Carreira, por sua vez, deixa você jogar tanto como jogador como técnico de um time. Como jogador, o progresso é medido partida a partida, com as notas que são atribuídas à sua performance dentro do campo. Com os pontos ganhos, é possível dar um level up nos atributos do jogador. Enquanto gestor, cabe a você definir os futuros da equipe, negociando jogadores com outros clubes ou persuadindo os atuais a permanecerem no seu elenco.

Em sua segunda temporada, o modo Jornada dá continuidade a história de Alex Hunter. Com as bases de sua carreira solidificadas, agora o aspirante a astro tem de provar que não é apenas uma promessa alçada à fama e parte em busca de reconhecimento em outros clubes de ligas fora da Inglaterra.

Alex Hunter está de volta na segunda temporada do modo Jornada. Agora, o aspirante a astro alça voos maiores e sai em busca do estrelato em clubes fora da Inglaterra
Alex Hunter está de volta na segunda temporada do modo Jornada. Agora, o aspirante a astro alça voos maiores e sai em busca do estrelato em clubes fora da Inglaterra (Divulgação: Electronic Arts)

Nessa epopeia, o jogador controla Hunter dentro e fora dos campos, conduzindo-o tanto em partidas em uma comunidade no Rio de Janeiro como em encontros com astros do calibre de Cristiano Ronaldo.

Quem jogou FIFA 17, pode importar seu Alex Hunter de lá, trazendo para FIFA 18 todas as estatísticas e escolhas feitas durante a primeira temporada. Ah, e finalmente a EA deu uma utilidade aos seguidores de Hunter nas redes sociais e o dinheiro ganho após as partidas: destravar e comprar atualizações estéticas, como tatuagens, cortes de cabelo, chuteiras e outros itens desse tipo.

Fora isso, fica evidente que a Electronic Arts investiu bastante tempo e recursos na continuação da história de Alex Hunter, que ganhou ares mais dramáticos e mais possibilidades. Entretanto, apesar de estar no caminho certo, a ideia ainda está longe de alcançar o que a 2K faz com a série NBA 2K.

Menina dos olhos

Ainda que todos esses modos de jogo ofereçam horas de diversão, é o Ultimate Team a menina dos olhos da EA e dos jogadores. Com uma fórmula extremamente viciante, o FUT coloca os jogadores para gerir seu time e disputar partidas contra equipes de amigos e outros jogadores de todo o mundo.

A grande sacada aqui é que você tem um orçamento limitado e tem de se virar para encontrar os jogadores que melhor se encaixam na sua formação e estratégia. Para ganhar mais dinheiro, você pode disputar partidas contra o computador ou online, cumprir alguns desafios e até mesmo completar algumas transferências que surgem como "desafios".

Uma adição interessante que surge para acelerar a forma que ganhamos alguns trocados é o novo Squad Battle. Nele você enfrenta várias partidas contra equipes muito bem montadas pelo computador ou por outros jogadores, o que torna as partidas mais desafiadoras e recompensadoras. À medida que você vence, vai avançando no ranking global e mais chances tem de faturar mais.

A adição de mais jogadores lendários, em diferentes épocas de suas carreiras, também dá um fôlego extra ao FUT
A adição de mais jogadores lendários, em diferentes épocas de suas carreiras, também dá um fôlego extra ao FUT (Divulgação: Electronic Arts)

Com dinheiro no bolso, é chegada a hora de ir ao "Mercado de Transferências" para encontrar aquele jogador, membro da comissão técnica ou item consumível que tanto procura. As ofertas são listadas pela comunidade do jogo, e o sistema só não é melhor por não deixar utilizar filtros de atributos nas buscas.

Em todo caso, o Ultimate Team é, de longe, o modo mais viciante e gostoso de se jogar no FIFA 18. É preciso ter muito cuidado para não perder a hora e não ficar fissurado nele, ainda mais quando há possibilidade de gerenciar tudo isso através de um aplicativo para dispositivos móveis (Android e iOS) e na web.

É caixa ou não é?

Soa o apito final e todo mundo quer saber se FIFA 18 vale a pena ou não. Embora seja possível constatar um erro aqui e outro acolá, o título da EA continua reinando soberano quando o assunto é futebol nos videogames. Prova disso é que não há mudanças gigantescas no game, apenas ajustes na jogabilidade e nos seus modos mais populares. Além disso, ele é muito bem-sucedido ao trazer as várias formas de apreciar o esporte bretão, seja dentro ou fora dos campos, cabendo ao jogador decidir como quer fazê-lo.

Agora, a parte chata de verdade é a falta de representatividade do Brasil. Com clubes nacionais genéricos e que nem de longe lembram as contrapartes reais, a impressão que fica é que faltou vontade de correr atrás de um ou outro time para inclui-lo em FIFA 18. A gente sabe que é difícil, mas não é impossível, como PES 2018 vem mostrando ano após anos.

FIFA 18 foi analisado no Xbox One com cópia física gentilmente cedida ao Canaltech pela Electronic Arts.

via Canaltech

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