Livro promove viagem no tempo com seleção de 198 memes que fizeram o Brasil rir

A Luiza que estava no Canadá, Gretchen, Xuxa, Nana Gouvêa, Nicole Bahls, Glória Pires no Oscar, deselegância de Sandra Annenberg. Estes são alguns exemplos que fizeram — e ainda fazem — a festa nas redes sociais. Os memes, esses gremlins que se espalham por Twitter, Facebook, Instagram e WhatsApp ao menor sinal de uma foto mal tirada ou uma frase de impacto, já podem ser chamados de preferência nacional.

Basta alguém dizer alguma coisa fora do contexto para ser alvo de montagens e piadas das mais absurdas, em repetições que se espalham tão rapidamente que é basicamente impossível controlar.

Então, quando a Glória Pires diz, na cobertura do Oscar, que não sabia opinar sobre determinado filme, ela, que tinha sido escalada para comentar a premiação, não só cria um meme orgânico como imediato. As montagens começaram ainda na noite da festa do cinema e, mesmo depois de quase dois anos, ainda resistem, com menor intensidade.

Meme sobre a participação de Glória Pires no Oscar

Memes existem às centenas, mas o jornalista Kleison Barbosa conseguiu fazer uma seleção no livro Os 198 Maiores Memes Brasileiros que Você Respeita (editora Abril). A obra faz parte da coleção publicada pela revista Mundo Estranho.

Kleyson Barbosa, mineiro de Coronel Fabriciano, tem passagens pelo Agora SP, Superinteressante, Mundo Estranho, G1 e Playboy. Atualmente, ele aparece no UOL, organiza a reforma de seu apartamento e desenvolve projetos de conteúdo. Um deles é o Grifei Num Livro, projeto que publica fotos de trechos marcados por leitores.

Como um almanaque, os memes são formatados em verbetes, com explicação sobre a origem e o contexto de cada um deles. Há entrevistas com algumas das “vítimas” das piadas visuais, como Gretchen, presença constante em diversos memes. Em depoimento ao livro, a artista disse:  “Acho que ninguém sabe como eles começaram. Mas, a partir do momento que comecei a entender, fui me atualizando, procurando e aí adorei. Meu público até rejuvenesceu”.

Meme que mistura Gretchen e Pokémon

Quando recebeu o convite para fazer o livro, Kleyson não titubeou. “Eu topei na hora! Além de usar internet desde os tempos de mIRC, trabalho há mais de dez anos com web. Eu gosto dessa maneira como as informações são replicadas virtualmente e acompanhei a popularização dos memes.”

Os critérios de seleção

O processo de escolha foi “divertidíssimo”, diz o autor. “Procurei reunir os memes mais compartilhados e que causaram impacto não só no mundo digital. Muita gente repete por aí certos bordões e brincam com frases como ‘Olha ela’, ‘Vem, gente’, ‘Todas chora’ e ‘Eita Giovana’, mas é difícil acompanhar tantas histórias, entender como surgiram todos elas.”

Na preparação, o autor percebeu que as pesquisas pelo termo meme no Google começaram a crescer a partir de 2011. Hoje, já é tema de estudos acadêmicos e pesquisadores defendem que a memética se torne uma ciência. “Fiz uma viagem no tempo e na cultura digital, por espaços conhecidos por serem berços de muitos dos memes e procurei desvendar a histórias dos maiores”, afirma Kleyson.

"Luiza, que está no Canadá", um divisor de águas

Se há um marco no Brasil, é este: "Luiza, que está no Canadá". Tudo começou com um anúncio de um prédio residencial na Paraíba. O pai de Luiza convidava as pessoas para o lançamento, menos sua filha, que estava fazendo intercâmbio no exterior. A repercussão foi tão grande que o meme foi parar em jornais e noticiários.

Kleyson fez o caminho do surgimento. “No sábado daquela semana, o cantor Lenine utilizou o bordão em seu show: ‘Que maravilha, está todo mundo aqui, rapaz! Só não está a Luíza, que está lá no Canadá’. Era oficial: Luiza no Canadá havia se tornado o primeiro meme brasileiro a sair do virtual e pautar conversas no mundo real em larga escala.”

A história não ficou restrita à frase. O Brasil acompanhou a história “como uma novela”. “A fama instantânea estimulou Luiza a voltar para o Brasil antes do fim do intercâmbio. Seu irmão postou uma mensagem no Twitter confirmando seu retorno, e os fãs memezeiros reagiram da melhor maneira que sabiam: criando inúmeros eventos engraçadinhos no Facebook para recepcioná-la”, diz Kleyson.

Um dos memes com o bordão da Luiza

Um pouco de história sobre os memes

O nome meme não surgiu de alguma piada na internet, mas sim de um livro do etólogo e escritor britânico Richard Dawkins.

Na obra O Gene Egoísta (editora Companhia das Letras), publicado em 1976, ele introduziu o conceito de memes. Kleyson explica: “Nos últimos capítulos da obra, ele busca demonstrar que o princípio básico do darwinismo poderia se expandir a situações em que uma unidade replicadora se mostra capaz de permitir o salto de geração em geração. Ele propôs a palavra ‘meme’ para designar essa novidade e o termo, com origem no grego mimema, que tem a mesma raiz de mimese (imitação), foi reduzido para duas sílabas para soar parecido com ‘gene’.”

Já o marco inicial pode ser determinado em 1988, quando Joshua Schachter criou o site Memepool, um agregador de links da web, na época, ainda de alcance restrito. O trabalho no Memepool ajudou a inspirar o Delicious, também criação de Schachter.

Anos depois, já no início do século 21, o termo reapareceu em festivais promovidos por Jonah Peretti, criador do Contagious Media, um centro de pesquisas que fazia experimentos com conteúdo viral. “Eles retomaram o termo como sinônimo de disseminação das informações pela internet”, diz Kleyson.

Para o autor do livro, o Dancing Baby é o primeiro meme que se tem notícia na internet. A animação em 3D de um bebê com fraldas que dançava surgiu em 1996. Sem YouTube e redes sociais, os memes eram compartilhados por e-mail.

O gif do bebê que dança

A origem no Brasil

E quando qual seria o primeiro meme brasileiro? Para Kleyson, é o do Bátima Feira da Fruta.

Kleison conta a história: “Em 1981, dois adolescentes dublaram uma de suas séries prediletas: Batman, aquela dos anos 1960. Com cerca de 18 anos na época e nenhum roteiro nas mãos, Fernando Pettinati e Antônio Camano improvisaram com o que sabiam melhor: um monte de palavrões, piadas e troca de insultos. Como trilha sonora, nos momentos mais estranhos, escolheram Feira da Fruta, do Grupo Capote, que acabaria por batizar esse meme, muito anterior à era dos memes. Até se converter à era digital, a hilária gravação circulou por vários anos como VHS. Tornou-se quase lendária e finalmente se disseminou on-line em meados de 2003. Em dezembro de 2005, chegou ao seu auge na busca do Google. Ganhou comunidades no Orkut e, posteriormente, no Facebook. Desde então, já teve uma versão remasterizada, outra em 3D e até uma homenagem em quadrinhos, feita pelo ilustrador Eduardo Ferigato e outros desenhistas”.

Aviso! Tire as crianças do recinto antes de assistir (humor para adultos e linguagem chula).

As fábricas de memes

Kleyson lista os lugares de onde surgem a alegria das redes sociais.:

  • 4chan, maior fórum de imagens do mundo, com mais de 13 milhões de visitantes por mês
  • Orkut, extinto em 2010 e de onde surgiram vários memes, como o Fica vai Ter Bolo
  • Vale Tudo, do UOL Jogos
  • Twitter

Jogo rápido com Kleyson Barbosa

O jornalista Kleyson Barbosa

Brasileiro gosta de se intitular o melhor do mundo, o mais criativo. Na categoria meme, em que posição ele se encontra?

Olha, não conheço um ranking que tenha um rigor expressivo. Mas, no coração da gente, somos os primeiros, vai.

Quem produz bons memes hoje?

Entre todos, os brasileiros. Certamente.

O que ficou de fora?

Ficaram de memes clássicos e que eu adoro, mas faz parte. Esquecemos, por exemplo, do xuxing, que foi a onda de fotos-paródias da pose da Xuxa no álbum Xou da Xuxa, de 1986. Eu mesmo cheguei a tirar foto com amigos.

O que surgiu depois do livro e que merece destaque?

Este tem sido um ano em que, diante das adversidades, os memes têm nos feito alegria. Gosto muito da Cuca, que conquistou o mundo, e dos recentes memes contra a cura-gay.

O que faz um meme ser um bom meme?

Isso é segredo. Se desvendar, me conte!

Qual seu top 5 de memes?

O top 5 eu não sei dizer, mas os 198 maiores estão reunidos no livro. Gosto de praticamente todos! Foi muito divertido organizar e analisar os fenômenos mais criativos e malucos que bombaram on-line e provam que o melhor do Brasil é o brasileiro.

O livro 198 Maiores Memes Brasileiros que Você Respeita pode ser encontrado na Amazon por R$ 33,55.

via Canaltech

Deixe uma resposta