Como funciona o “piloto automático” do cérebro

Acontece sempre: eu subo no ônibus, abro a bolsa, tiro a carteira, passo o cartão magnético no validador, giro a catraca, guardo o cartão e sento. Alguns minutos depois, sem explicação, eu me assusto. Onde está o cartão? Será que eu guardei ele? Será que caiu no chão?

Abro tudo de novo e, para minha surpresa, o cartão está lá, são e salvo. Mesmo que eu não me lembre de nada. De alguma maneira, enquanto eu viajava na maionese pensando no final de semana, meu cérebro passou pela catraca sozinho, sem que eu precisasse me dedicar conscientemente à tarefa.

Entre motoristas, me garantiram, acontece algo parecido: quem volta do trabalho há anos pelo mesmo caminho tem a sensação de simplesmente surgir em casa. Exemplos assim existem aos montes, e ilustram bem nosso “piloto automático” – a capacidade que o cérebro tem de realizar tarefas mecânicas repetitivas sem prestar atenção nelas.

Apesar de familiar, as bases neurológicas desse fenômeno não eram conhecidas até a publicação deste artigo científico na última segunda (28). Nos experimentos, pesquisadores da Universidade de Cambridge colocaram 23 pessoas no interior de máquinas de ressonância magnética, e então ensinaram um jogo de cartas a elas. O jogo não foi apresentado de maneira formal. As regras precisavam ser deduzidas ao longo da partida, na base da tentativa e erro.

Parece bobo, mas deu certo: no começo, os voluntários precisavam se dedicar conscientemente a entender as regras. Nessa fase, foram detectados padrões cerebrais já conhecidos, que emergem quando estamos concentrados em aprender algo novo.  

Depois de algumas rodadas, quando as cobaias já tinham se acostumado às regras, o cérebro parou de prestar atenção no jogo – e passou a tratá-lo como uma atividade de segundo plano. Foram detectados, nesse momento, outros padrões, correspondentes ao piloto automático.

Esse segundo conjunto de padrões, descobriram os cientistas, lembrava muito o de uma rede chamada DMN (default mode network, em português, “rede do modo padrão”).

A DMN é conhecida desde 1929, quando Hans Berger, inventor do eletroencefalograma, percebeu que o cérebro de seus examinados continuava ativo mesmo quando eles, em teoria, estavam em repouso, sem fazer nada.

A sigla, porém, só foi cunhada na década de 90, quando a revolução da tomografia computadorizada permitiu medir com precisão quais áreas do cérebro trabalhavam mais ou menos conforme a tarefa que uma cobaia estivesse desempenhando – e entender como essas áreas trocavam informações entre si, formando redes. Após dezenas de estudos, ficou estabelecido que a recém-batizada DMN era responsável por… bem, por um monte de coisas.

Ela parecia – ainda que de forma bastante incerta – estar associada ao fato de que temos consciência de nós mesmos, de nossa história e do fato de que somos seres autônomos. Ela também parecia se relacionar com nossa capacidade de pensar no que os outros estão pensando e sentindo. E sem ela, ao que tudo indicava, nós perderíamos a capacidade de reter memórias detalhadas de eventos do passado.

O problema só aumentou quando descobriram bebês e ratinhos – que não são conscientes no mesmo grau humanos adultos – têm suas próprias DMNs, mesmo sem terem boa parte das capacidades da lista acima. Como é possível?

O estudo de Cambridge, portanto, fez mais do que encontrar a origem do piloto automático no cérebro: ele encontrou tarefas para a DMN que todo animal, do rato ao ser humano, precisa exercer: as monótonas. Pelo jeito, a função da DMN é manter nosso cérebro ligado mesmo quando, aparentemente, não há em que pensar.

via Superinteressante

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