O fim do motor a combustão interna

A questão não é se você vai ter um carro elétrico algum dia – caso você não abra mão de ter carro. É quando. Talvez nem seja um 100% elétrico, como os da Tesla, no curto prazo. Pode ser um híbrido, tipo o Toyota Prius, que tem um motor elétrico ajudando o a combustão, e transforma o carro praticamente num abstêmio, que não precisa de muito mais do que 4 litros de gasolina a cada 100 km.

A Volvo, por exemplo, já comunicou: partir de 2019, nunca mais vai fazer um carro com motor exclusivamente a combustão. Só híbridos e elétricos vão sair de suas linhas de montagem. Não é pouco. A montadora sueca, apesar de não ser exatamente a maior do mundo, produz meio milhão de carros por ano.
A tendência é geral. A Mercedes, que vende 1,5 milhão, disse que vai banir de vez os motores a gasolina dos Smart, os carrinhos hipercompactos da montadora alemã. Também separaram US$ 1 bilhão para desenvolver 10 modelos elétricos. Assim, a alemã espera fazer frente à sua conterrânea BMW, que lançará 12 elétricos até 2025 (e 13 híbridos).

Volvo, Mercedes, BMW. Ok. Natural que as marcas premium se esforcem para apresentar produtos mais tecnológicos. Mas e entre as montadoras de massa? É a mesma coisa, na verdade. A Volkswagen, que vende 10 milhões de veículos por ano, promete pelo menos uma versão elétrica de cada um de seus 300 modelos até 2030. Mesmo a nova Kombi, que está em testes nos EUA, nasceu 100% elétrica.

Quanto vale o show

Carros elétricos, por enquanto, têm uma pedra no sapato. A autonomia? Nem tanto: o preço. Um Chevy Bolt, um elétrico da GM feito para custar pouco, aguenta 380 km de “bateria cheia”. O problema é que, para tanto, ele usa o equivalente a 1100 baterias de notebook. Então, mesmo com as isenções de impostos que beneficiam os elétricos nos EUA, ele sai por quase US$ 40 mil. Se fosse importado para cá, daria o dobro disso em dólar. Coisa de R$ 250 em reais. Valor de Mercedão, por um compacto.

Mas o preço das baterias está caindo, já que a produção cresce vertiginosamente. A agência de notícias Bloomberg estima que, com isso, um carro elétrico custará o mesmo de um a combustão em algum momento entre 2025 e 2030, e que um pouco depois disso pelo menos um terço da frota mundial já seja elétrica.

A coisa toda, porém, não acontece só por iniciativa das montadoras. O fenômeno da eletrificação só explodiu por conta da pressão de vários governos. Até agora, 7 nações já determinaram prazos para proibir a venda de veículos com motor a combustão. O veto de França e Reino Unido está previsto para 2040. A China, que abriga o maior mercado consumidor de carros, pretende tomar a mesma atitude antes até, a partir de 2030, mesma época estipulada pela Alemanha e pela Índia.

A Noruega está infestada de Teslas. Carros elétricos e híbridos já formam metade da frota do País.





A Noruega, que, como sempre, está à frente de todo mundo, já está eletrificada. Há dez anos, praticamente não existiam carros elétricos por lá, nem em lugar algum. Hoje metade da frota norueguesa, de 200 mil automóveis, usa eletricidade – 31,8% são híbridos e 17,6%, completamente elétricos.

“Estou há meia hora em Oslo e já vi 15 Teslas”, disse o documentarista americano Johnny Harris, num vídeo com 2 milhões de views no YouTube que ele fez para registrar o fenômeno da eletrificação na Noruega. E de fato: quase todos os carros que aparecem fluindo pelas avenidas durante o vídeo são Teslas Model S – o elétrico mais desejado do planeta (talvez o mais desejado entre todos os sedãs do mundo).

Ou seja: o “fator Tesla” foi no mínimo tão importante quanto os incentivos. Com o Model S, de 2012, a Tesla se tornou a primeira montadora a produzir um elétrico que as pessoas realmente tinham vontade de comprar. Os números ainda são modestos. No primeiro semestre de 2017, a marca produziu 47 mil unidades – não dá metade do que a Chevrolet vendeu só de Onix no Brasil no mesmo período.

A Tesla, de qualquer forma, espera turbinar as vendas em 2018, com o Model 3. O carro mais barato já lançado pela Tesla (US$ 35 mil – metade de um Model S) já tem mais de meio milhão de encomendas, e a empresa deve produzir mais de 10 mil veículos por semana para reduzir a fila de espera. Ou seja: se tudo der certo, logo, logo só o Model 3 venderá mais unidades do que uma Volvo inteira, tornando-se o carro mais vendido do mundo.

Mas nem tudo são flores no jardim elétrico. Ainda falta infraestrutura adequada para carregas esses carros em qualquer lugar. É que, se você está na rua, não basta uma tomada (coisa que já é difícil de achar). Na tomada, eles demoram pelo menos 8 horas para se reabastecer de elétrons. Na rua, então, você precisa de tomadas especiais, capazes de recarregar a maior parte da bateria em coisa de 20 minutos.

A Alemanha investirá 300 milhões de euros para construir uma rede de carregamento assim no país até 2020. Boa parte desta quantia será aplicada na construção do Parque da Inovação de Zusmarshausen, propositalmente localizado no estado da Baviera – lar de quase todas as montadoras alemãs. Serão 144 carregadores prontos para receber até 4 mil carros por dia.

Até as gigantes do petróleo estão entrando na jogada. Em outubro, a Shell comprou a New Motion, uma rede de controla 30 mil postos de carregamento na Europa. Se essa tendência se mantiver, não deve demorar o dia em que cada posto de gasolina será capaz de recarregar elétricos, e que o complemento “de gasolina” logo deixe de acompanhar a palavra “posto”. Também tem a vantagem financeira: a preços brasileiros, você gasta R$ 25 para abastecer um elétrico com 400 km de autonomia.

Carroça

A graça dos elétricos, de qualquer forma, não fica só na parte da grana ou do ar puro. Eles pedem menos manutenção que modelos a gasolina (ou diesel, ou flex), simplesmente porque seus motores têm menos peças. E não menos importante: eles são mais gostosos de dirigir, já que aceleram bem mais rápido que os convencionais. Ande em um e você provavelmente vai achar que o seu é uma carroça. E tudo certo: em pouco tempo, ele será mesmo.

via Superinteressante

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