PES 2018 peca nas licenças, mas é gostoso e acessível de se jogar [Análise]

O árbitro apita e tá valendo! Ano após ano, os meses de setembro e outubro são recheados de novidades para os fãs do futebol. E, como normalmente acontece, Pro Evolution Soccer é quem dá o pontapé de saída, trazendo cada vez mais melhorias para disputar o título de melhor jogo de futebol da atualidade com FIFA.

Interessante notar que até pouco tempo atrás PES era incontestável. Ainda gozando dos louros que Winning Eleven colheu no PlayStation e PlayStation 2, a franquia futebolística da Konami parece ter se acomodado e hoje corre atrás do prejuízo – o que é muito estranho para alguém que, como eu, passou anos sem se arriscar nos gramados virtuais. Agora, tudo indica que PES está ressurgindo das cinzas.

Mecânicas refinadas

Uma das principais apostas de PES 2018 é o novo Real Touch+, que confere mais fluidez e realismo à movimentação dos jogadores. Graças a ele, agora há mais pontos de toque entre a bola e o jogador, que pode dominá-la usando os quadris, calcanhar ou até mesmo o joelho.

Com mais possibilidades de dribles, fintas, passes e criação de jogadas, PES 2018 se torna um jogo mais cadente, um pouco mais lento e mais próximo da realidade que seu antecessor. E isso é curioso, já que a bola corre mais solta nos gramados, deixando aquela sensação de que há cola na ponta das chuteiras dos jogadores no passado (com exceção de Messi, claro).

Essa característica pode preocupar muita gente, pois bola mais geralmente solta significa que há mais chances de haverem roubadas de bola. Para compensar isso, a Konami também ajustou o sistema de proteção de bola, dando o espaço e o tempo necessários para o jogador pensar no próximo movimento.

Apesar de esses ajustes trazerem uma boa pitada de realidade, ainda não dá para cravar que PES 2018 é um "simulador". O foco do game ainda é a experiência do jogador, o que o torna bastante acessível para todo tipo de público.

Se por um lado os ajustes trazidos pelo Real Touch+ funcionam muito bem, por outro a Konami ainda não conseguiu solucionar uma queixa antiga dos fãs de PES: os goleiros. Até mesmo quem se arrisca no game casualmente percebe que os arqueiros espalmam demais, até mesmo em chutes mais fracos.

Além disso, parece que alguém na Konami é fã do René Higuita. Algumas defesas, que poderiam ser feitas da maneira mais simples possível, acabam se transformando numa acrobacia de fazer qualquer artista de circo sentir inveja. Nesses momentos, principalmente em partidas mais disputadas, o coração só falta saltar pela boca com o medo de tomar um gol aos 90 minutos por causa de um "enfeite" do goleirão.

Visual melhorado, narração sofrida

Como acontece todo ano, as comparações entre PES e FIFA se estendem para o quesito gráfico. O placar dessa disputa sempre tende ao empate, mas a verdade é que PES vem fazendo um bom trabalho sobretudo na modelagem dos atletas.

Quando analisamos principalmente os grandes jogadores, percebemos que houve um trabalho meticuloso da Konami para reproduzir suas expressões faciais e sentimentos. Outras características físicas, como tatuagens, cicatrizes e penteados enfeitados também estão presentes, possibilitando identificar rapidamente os astros dos grandes times. A qualidade desses detalhes, porém, não é linear como acontece em um NBA 2k18, por exemplo, e quanto menor a importância de um clube ou de um jogador, menos detalhado ele será – em alguns casos o jogador sequer parece com seu alterego da vida real.

Principais atletas dos clubes que têm exclusividade com PES estão extremamente detalhados no game
Principais atletas dos clubes que têm exclusividade com PES estão extremamente detalhados no game (Reprodução: Konami)

Outro aspecto que traz a emoção das grandes partidas de futebol para os videogames é a ambientação dos estádios. O gramado foi melhorado – apesar de ainda não ser ideal -, todos os elementos que normalmente ficam às margens do campo estão presentes, e as imagens externas dos estádios parecem muito mais reais do que jamais foram. A movimentação das torcidas nas arquibancadas é bastante convincente e sincronizada, e a maioria dos gritos são condizentes com o momento do jogo. Nesse quesito, só há uma falha: aparentemente não há distinção entre time visitante e de casa, já que a vibração é a mesma para ambos os lados.

A narração em português, de Milton Leite e Mauro Beting, por outro lado, desconstrói todo o esforço de criar um ambiente realista para uma partida de futebol. Há cortes bruscos nas falas, trechos gravados em diferentes tons se unem bizarramente no meio do jogo e, em alguns momentos, frases se sobrepõem umas às outras de uma maneira que nem o Galvão Bueno e o Arnaldo César Coelho conseguiriam fazer em um momento de desentendimento numa transmissão ao vivo.

Detalhes dentro e fora do gramado ajudam a criar uma atmosfera próxima da real
Detalhes dentro e fora do gramado ajudam a criar uma atmosfera próxima da real (Reprodução: Konami)

Resultado disso é uma narração sofrida, genérica, sem emoção e que passa a sensação de que a quantidade de frases que foram gravadas ficou muito abaixo do necessário.

Jogue do seu jeito

A quantidade de modos de jogo disponíveis em PES 2018 é um chute certeiro lá onde a coruja dorme. Ele traz de volta o "Seleção Aleatória", onde o plantel é composto por atletas de todas as partes do mundo. O "Jogar Agora", por outro lado, é o jeito mais fácil de iniciar um amistoso, seja contra a inteligência artificial ou contra um amigo.

E já que o assunto são os amigos, há também o modo cooperativo "3×3", em que você se une a outros dois amigos para enfrentar uma equipe rival composta, também, por três amigos. Aqui a diversão fica por conta de saber quem faz mais em campo, numa dinâmica que faz todo mundo dar o seu melhor.

No "Rumo ao Estrelato", o jogador cria seu avatar e controla apenas ele em campo para ser o próximo grande astro do futebol mundial.

A "Master League", marca registrada de PES, continua lá, mas deu mais espaço a ascensão do "myClub". Nele, o objetivo é criar o time perfeito, contratando jogadores e técnicos para vencer partidas, torneios e desafios. Fãs de Football Manager (ou Elifoot) que não se contentam em apenas assistir o desempenho de sua equipe irão se sentir em casa no "myClub".

É no "myClub", também, que o jogador poderá participar do PES League, o torneio oficial de Pro Evolution Soccer que garante vaga para as competições oficiais da Konami – cujas finais acontecerão em Kiev, na Ucrânica, em 2018.

Como dá para perceber, há um leque gigantesco de modos de jogo que atendem a todos os perfis de jogadores – desde os mais casuais até os mais comprometidos que querem ter controle total sobre todos os aspectos do clube do coração.

O problema das licenças

Desde o vídeo de apresentação ao apito final de uma partida, é visível o esforço de PES 2018 para superar seu rival. O jogo é bom, gostoso de se jogar e acessível, mas ainda esbarra no problema do licenciamento dos clubes e ligas.

Para quem acompanha a série há algum tempo, talvez a sensação é que há uma constante evolução nesse quesito; para quem cai de paraquedas, há um choque ao procurar pelo Real Madrid e não encontrar e ter de se contentar com um "London F.C." ou "Man. Blue" na hora de escolher o Chelsea ou o Manchester City, respectivamente.

Apesar de os jogadores desses clubes estarem ali, a falta dos nomes e uniformes oficiais compromete a experiência como um todo. Pior do que isso só escolher seu clube de coração para descobrir que a escalação original não está lá.

Compromisso da Konami com público brasileiro levou mais mais um estádio para o game. Desta vez, São Januário é fielmente reproduzido em PES 2018
Compromisso da Konami com público brasileiro levou mais um estádio para o game. Desta vez, São Januário é fielmente reproduzido em PES 2018 (Reprodução: Konami)

No caso do Campeonato Brasileiro, é perceptível o esforço da Konami para agradar o público local. Ao todo, três clubes têm contrato de exclusividade com PES 2018: Flamengo, Corinthians e Vasco da Gama. Graças isso, todo o elenco dos times está no jogo e seus principais jogadores estão tão bem representados quanto um Neymar, Suarez, Messi ou CR7. No caso específico do Vasco da Gama, até seu estádio, São Januário, foi trazido para o game – há quem acredite, inclusive, que é o estádio mais bem modelado de PES.

Outros times, como Palmeiras, têm acordos parciais, enquanto Chapecoense e Coritiba têm acordos mínimos, com escalações genéricas e representações que não lembram em nada os jogadores reais.

Corinthians é uma das três equipes brasileiras que tem contrato de exclusividade com PES 2018. Por isso, todos os jogadores, bem como estádio e uniforme, estão fielmente reproduzidos no título
Corinthians é uma das três equipes brasileiras que tem contrato de exclusividade com PES 2018. Por isso, todos os jogadores, bem como estádio e uniforme, estão fielmente reproduzidos no título (Reprodução: Konami)

Mesmo com essa sensação generalizada de vazio, Pro Evolution Soccer 2018 acerta muito mais do que erra. A Konami parece ter encontrado o elemento certo para resolver a equação que a impedia de competir de igual com a Electronic Arts, e o resultado disso é um jogo divertido e extremamente acessível para todos os públicos – desde os novatos aos mais experientes. Vamos torcer apenas para que mais equipes licenciadas venham por aí.

Pro Evolution Soccer 2018 foi analisado no Xbox One com cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Konami.

via Canaltech

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