Vídeos ASMR: a maior moda do YouTube que você ainda não conhece

Se você gosta de dar longos passeios pelo YouTube – pulando de sugestão em sugestão na barra lateral até chegar em um vídeo que não tem nada a ver com o primeiro –, você já deve ter tropeçado na seguinte cena: uma moça, aos sussurros, fala com a boca bem próxima à câmera. A voz é a de quem conversa com um bebê prestes a cair no sono. Depois de uma breve introdução, ela começa a produzir ruídos sutis batucando dezenas de objetos – em geral itens domésticos ou de papelaria.

Ela (que, descobri depois, se chama Taylor) é a estrela do ASMR Darling, um canal verificado com mais de um milhão de assinantes. O vídeo em questão tem 4 horas de duração e 1,7 milhões de visualizações. Taylor se descreve, em seu perfil no Twitter, como uma “massagista cerebral da internet”.

Segundo a moça e sua comunidade de fãs, esses ruídos do dia a dia – dedos batucando uma caixa de clipes, o crepitar do fogo de um fósforo, fita crepe se soltando do rolo e até as famosas “raspadinhas” de casas lotéricas – são capazes de despertar uma sensação chamada de ASMR (em inglês, autonomous sensory meridian response).

A ASMR é descrita como uma espécie de cócega no cérebro; uma sensação de formigamento (tingle) que corre do topo da cabeça para os ombros, passando pela nuca. É ao mesmo tempo eufórica e relaxante, e até mais ou menos 2010 costumava ser explicada como uma espécie de orgasmo na nuca – mas essa definição, pelo teor sexual, passou a ser rejeitada pelos fãs. Hoje, há quem “venda” vídeos ASMR como uma ótima cura para insônia.

O parágrafo acima se baseia em descrições alheias. Este repórter bem que tentou, mas os ruídos ASMR não o amoleceram nem deram sono. “Muitas pessoas sentem ASMR, muitas não sentem”, afirma Taylor em um vídeo explicativo para os não-iniciados. Nem só sons são capazes de ativar o crepitar na pele dos mais sensíveis. “A primeira vez em que eu senti ASMR foi na quarta série. Eu estava vendo outra menina colorir um desenho, e eu pensei que o desenho era para mim.” Bingo, veio o formigamento.

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No Facebook, uma página com mais de 50 mil curtidas se declara a maior comunidade ASMR do pedaço. Eles prometem divulgar youtubers ASMR de sucesso e levá-los à fama, e mobilizam os fãs para causas humanitárias. “Nossos ASMRtistas [trocadilho com artistas] estão fazendo um crowdfunding para os que foram afetados pela devastação do Furacão Harvey”, afirma uma postagem de 4 de setembro. “Todo mundo que doar receberá um link para uma playlist de vídeos ASMR exclusiva para doadores.” 926 pessoas já contribuíram.

Essa popularidade toda leva a uma pergunta inevitável: será que o ASMR tem explicação científica? “Ele é interessante para mim, como um psicólogo, porque ele é um pouco estranho”, afirmou ao The Guardian Nick Davis, da Universidade Metropolitana de Manchester. Ele é autor de um dos únicos estudos sérios disponíveis sobre o assunto. “Nós queríamos saber se a experiência ARMS é igual para todo mundo, e se ela costuma ser causada pelo mesmo tipo de estímulo.”

Davis e seus colegas entregaram questionários a 500 fãs de ARSM. Perguntaram como, onde e por qual motivo eles assistiam aos vídeos, se outros membros de suas famílias também conheciam a sensação, se os ruídos – e a sensação subsequente – eram capazes de aliviar estresse e sintomas de depressão, e se eles também tinham experiências sinestésicas com frequência.

Tirado de um Tumblr dedicado a ASMR. Não nego que é gostoso de assistir.

A principal conclusão foi que o ARSM não é uma sensação puramente pessoal. Ele é descrito de forma surpreendentemente parecida por pessoas de origens e lugares diferentes.

“Um indivíduo descreveu a sensação de formigamento como intercambiável dependendo do gênero da voz dos vídeos de ASMR que ele estava assistindo. Uma voz feminina faria com que o formigamento se estendesse para uma perna. Já uma voz masculina aumentaria a sensação na outra perna. Vários outros indivíduos deram respostas similares, afirmando que diferentes estímulos atingiam diferentes parte do corpo.”

Além disso, esses “pulsos” de ASRM realmente parecem aliviar sintomas de depressão e estresse, e as pessoas capazes de senti-los são mais sinestésicas que a média da população (5,9% de incidência). Apesar de todas as estatísticas coletadas, os pesquisadores ainda estão longe de chegar a uma boa explicação fisiológica para o fenômeno.”O fato de que um número enorme de pessoas tem o ASRM ativado por vozes sussurrantes sugere que a sensação esteja associada a ter intimidade com alguém de uma maneira não-sexual.”

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Em 2012, em entrevista ao Independent, o psicólogo Tom Stafford, da Universidade de Sheffield, pediu uma dose saudável de ceticismo – mas também de mente aberta e curiosidade científica– em relação ao ASMR. “Ele pode mesmo ser um fenômeno real. Mas é inerentemente difícil de pesquisar (…) Quando há algo que você não pode ver e sentir, e que não acontece com todo mundo, ele cai em um ponto cego. É como a sinestesia – por anos foi um mito, e então, na década de 1990, bolaram um jeito confiável de registrá-la.”

(Detalhe curioso: a repórter que o entrevistou declarou ter formigamentos sensacionais assistindo a um vídeo de 20 minutos sobre como dobrar toalhas felpudas. É muita maciez para uma pessoa só.)

Em outro texto, este publicado em seu blog, Stafford explica que a internet trouxe à luz muitas sensações que as pessoas sentem desde que o mundo é mundo – mas nunca haviam expressado verbalmente. “Mesmo se você for um em um milhão, ainda haverá milhares de você na rede.”

De fato, um repórter do Mashable – que se declara usuário contumaz de vídeos ASMR – descobriu no pintor norte-americano Bob Ross um precursor analógico da prática. Vídeos do artista dando aulas de pintura na TV na década de 1980 são verdadeiros pontos de peregrinação virtual (o do link tem 4 milhões de visualizações).

Bob Ross vai te dar ASMR. Muito ASMR.

Ou seja: a ciência ainda não sabe muita coisa sobre o ASMR. E há muita pseudociência por aí tentando justificá-lo (lembre-se, as bases fisiológicas do fenômeno ainda não são conhecidas. Não é possível associá-lo a nenhum hormônio ou região do cérebro). Seja como for, se você sente o formigamento, não se sinta estranho. Vá ver suas toalhas. Ou caixas de fósforo. Ou raspadinhas. E seja feliz!

via Superinteressante

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