3 razões para não perder tempo lendo os livros de Game of Thrones

Todo ano, quando a temporada anual (ou bianual, agora) de Game of Thrones chega ao fim, eu tenho o mesmo papo com alguém. “Vou aproveitar o intervalo até a próxima temporada para me atualizar nos livros”, esse alguém me diz. A depender da intimidade com o interlocutor, a resposta costuma ser curta: entre “Tem certeza?” e “Não perca seu tempo”.

1º Motivo: Game of Thrones é difícil pacas de ler

A primeira razão é a mais óbvia: As Crônicas de Gelo e Fogo são livros de fantasia tradicionalzona. É uma literatura que às vezes fica popular, mas em geral é de nicho, assim como a ficção científica. E não é feita para ser fácil.

Para te inserir em um mundo antigo, ainda que fictício, os autores usam de termos arcaicos, neologismos, etc. Em questão de formalismo, Martin é até mais acessível que Tolkien, por exemplo.

Você engata nos livros pelos seus ótimos personagens, é claro, mas nem toda página gruda sua atenção. Narradores legais ficam livros inteiros sem aparecer, de propósito, para aguçar sua curiosidade… Mas aí demora tanto para voltarem que você faz um esforço para lembrar qual era o tal do cliffhanger que te empolgou. Os livros são, por causa disso, um esforço de memória e atenção.

Muita gente ama O Senhor dos Anéis. Mas quantas pessoas que leram o livro todo você conhece? São mais de mil páginas maravilhosas, mais difíceis de ler. Agora pense nisso, multiplicado por cinco livros gigantescos de As Crônicas de Gelo e Fogo. Só de livros já publicados, são 4.228 páginas. Mesmo entre fãs de fantasia, vi muita gente parar no meio, sempre prometendo que vai retomar.

2º Motivo: Versão Brasileira Herbert Risos

Desventuras em Série seria um bom título (se já não fosse o título de outra obra) para descrever a lambança que rolou quando os livros foram publicados no Brasil.

Os quatro primeiros livros nunca foram traduzidos para o público brasileiro. Isso é polêmica velha, mas a editora comprou a tradução feita para Portugal, do Jorge Candeias, e “adaptou” para a nossa língua. Só que essa adaptação foi sem pé nem cabeça. Tem horas que ela não aparece. Outras em que muda o significado do texto. Na maioria das vezes, só acaba mesmo com a cadência original (que Candeias se esforçou para manter) e destrói o clima de fantasia medieval. Tem horas que o discurso de um camponês aparece superformal. Outras em que um nobre é tratado quase na base do “tá ligado, queridão?”.

Posso deixar Jorge Candeias falar por mim: em dois posts no seu blog, ele descreve a confusão que deu, a falta de comunicação com ele e os problemas de adaptação sérios que surgiram (notáveis e marcantes desde as primeiras duas páginas do primeiro livro). Para dar um gostinho antecipatório, só vou adiantar o título de um dos posts: “É de levar as mãos à cara e bradar aos céus”. Animador, né?

A Dança dos Dragões, o quinto livro, foi o primeiro a receber tradução totalmente brazuca. E aí falhou feio na revisão. Na época, o boato era de que o livro, de mais de 800 páginas, foi revisado em só dois dias. O resultado foi um show de erros de ortografia e até traduções nonsense de alguns trechos. Para completar, o livro foi lançado com um capítulo inteiro faltando e precisou rolar um recall.

Mas o foco aqui é o impacto da tradução. Se tem uma coisa que os livros originais fazem bem, é te inserir dentro daquele mundo fictício. Ele é desenhado (até em excesso) para rechear sua imaginação. E uma tradução assim acaba, por pura lambança, engasgando a leitura.

3º Motivo: A demora eterna de um Martin sem carinho

Esse item é a verdadeira razão deste post ter sido escrito. O terceiro motivo é uma ofensa que eu levei para o lado pessoal lá atrás, quando comecei a ler os livros.

Lembra, no primeiro item, aquela história de que esses livros são “um esforço de memória e atenção”? Todos os bons livros desafiam o leitor. E a série tem tudo para recompensar cada uma das dezenas de cliffhangers que plantou com belos desfechos. Mas quando?

Vamos voltar para 1993, quando o mundo fantástico de Martin estava ganhando forma. A ideia do autor era escrever uma trilogia. Depois, a história de Westeros foi expandida para uma hexalogia.

Winds of Winter, o próximo livro a ser lançado, era para ser o último de seis. Depois, Martin decidiu que escreveria mais um, A Dream of Spring. E ele já deixou claro que pode mudar de ideia e ampliar a história ainda mais. Mas, por enquanto, temos no mínimo mais dois livros pela frente (eu não vou me alongar sobre o risco de George R. R. Martin morrer antes de completá-los, mas só como adendo, ele faz 69 anos no próximo dia 20).

A média da produtividade dele, na verdade, não é ruim: os primeiros três livros foram lançados com apenas dois anos de intervalo entre eles. Só que a coisa desandou de um jeito depois disso…

Cinco anos depois da publicação do terceiro livro, Martin anunciou que o manuscrito da continuação estava com 1.527 páginas. E que aquela quantidade foi declarada impublicável.

Solução: ele dividiria o livro em dois. Mas não bastava dividir o livro no meio, nããão… Ele decidiu dividir os acontecimentos geograficamente. O primeiro livro se passa no Sul. O segundo, no Norte e em Essos. Só que a história dos dois acontece simultaneamente. Quando fiquei sabendo disso, no prefácio de O Festim dos Corvos, até achei bem interessante em termos de narrativa…

O Festim dos Corvos, aliás, saiu em 2005 e ficou com 753 páginas. Pensa comigo: sobraram 774 páginas de manuscrito. Dá para pintar, bordar, editar, revisar a história, acrescentar detalhes bacanas, gastar um tempinho, mas pelo menos você já tem 774 páginas escritas.

Doce ilusão. A segunda metade, que você imagina que estivesse praticamente pronta, levou seis anos para ser lançada. Mei-a dú-zia de anos. E saiu com 1.040 páginas, apenas 300 a mais que a última metade. E sem resolver nenhum cliffhanger do livro anterior, porque os livros acontecem simultaneamente. Um total de 11 anos e 1.793 páginas lidas para a história não andar nada cronologicamente.

Achei importante dar esse background todo porque o fã comum de Game of Thrones já está acostumado a ouvir que Winds of Winter, o penúltimo livro da série, está demorando muito para sair. Quis mostrar que o buraco é mais embaixo – e que essa enrolação toda não tem previsão para terminar.

Os últimos (por enquanto) dois livros estão planejados para serem gigantescos, tendo cerca de 1.500 páginas de manuscrito. É, igualzinho aquele manuscrito impublicável da última vez. Vai entender.

A quantas estamos agora? Bom, preparamos uma linha do tempo para mostrar, no final do texto.

No começo, Martin ainda tinha a cara de pau de dar umas respostas tipo “se me cobrarem, eu vou demorar ainda mais”. E foi isso que alimentou meu rancorzinho. Ler as Crônicas de Gelo e Fogo por vezes é um esforço hercúleo. Tem gente (muita gente) que dedicou os últimos 22 anos a ser um fã ativo: não só ler os livros, mas as enciclopédias, spin-offs, discutir teoria em fórum. E a postura evasiva e às vezes até meio atrevida do autor nunca me desceu muito bem.

Mais recentemente, porém, o próprio Martin sentiu o peso da procrastinação, então não dá para queimá-lo na fogueira: no post que ele publicou em seu blog quando perdeu o último prazo no ano passado, fala o quão decepcionados estão seus editores, seus fãs e, acima de tudo, ele mesmo. Dá para sentir empatia pelo senhorzinho.

No fim das contas, um motivo para investir

Em outros tempos, esse item nem estaria aqui. Isso porque eu costumava terminar esse papo com o seguinte argumento: a série faz um bom trabalho de adaptação. Ficar só na série tira um pouco do suspense de algumas storylines possíveis, mas nem todas são boas (estou olhando para você, (f)Aegon Blackfyre!). A experiência que dava para ter apenas assistindo não deixava muito a desejar no universo das Crônicas de Gelo e Fogo – e evitava passar pelos aperreios dos livros. Se você é o leitor médio que queria curtir a história sem sufoco, estaria mais que bem servido, com ficção televisiva de qualidade, que desafia na medida certa.

Só que, conforme as temporadas passaram, eu mordi a língua.

Tudo começou com Dorne. Dorne só ganha protagonismo na história lá pelos últimos livros, junto com Pyke. “Ah, mas isso rolou na série!”. Não, meu querido.

Dorne era incrível e cheio de mulheres fodas pelas quais dava vontade de torcer. Elas não mataram Myrcella: seu golpe foi bem mais político e inteligente (mas não vou dar spoilers, vai que depois de tudo que já expus você ainda decide ler).

A herdeira de Dorne, Arianne Martell, é uma das minhas personagens favoritas dos livros e… Nem existiu na série. Na TV, as personagens de Dorne tiveram mortes mais interessantes que suas vidas.

E então, chegou a sétima temporada. Correndo demais, não dando tempo suficiente para tornar cenas importantes verdadeiramente épicas e surpreendendo muito pouco. Você se lembra a última vez que sentiu medo, durante uma cena “de risco”, que um personagem querido morresse? Game of Thrones perdeu aquela característica arrebatadora, que exige um espectador alerta e desconfiado o tempo inteiro. Ao contrário dos livros, que por vários motivos dificultam demais a vida do leitor, a série facilitou em excesso.

Nada disso é irrecuperável – a série pode dar a volta por cima. Mas as duas últimas temporadas me motivaram a esperar ansiosa pelas palavras de George R. R. Martin, e como elas vão recriar o futuro de Westeros. Tudo isso apesar do meu rancorzinho pelo que considero, sim, falta de consideração deliberada do autor pelos leitores, a maioria deles bem mais dedicados que eu.

Dá para apostar, com alguma confiança, que os desfechos nos próximos livros vão ser bem mais satisfatórios e saborosos do que temos visto na TV – caso, é claro, ele realmente termine a saga até a próxima maldita década. Tempo para fazer um bom trabalho, teve de sobra.

(Arte/Superinteressante)

via Superinteressante

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