Conheça Hy-Brasil – e mais 5 lugares que só existiram em mapas

Atlântida é só a ponta do iceberg. Até o século 20, lugares hipotéticos ou imaginários apareciam em mapas e tratados geográficos sérios com frequência.

Leigos e cultos, é claro, acreditavam nessas versões fan fiction do mapa-múndi. Afinal, elas foram feitas com a melhor das intenções: preencher lacunas no nosso conhecimento em uma era em que não havia aviões ou satélites. Do ponto de vista geográfico, algumas eram hipóteses bastante razoáveis (porém erradas) sobre a natureza de lugares que eram desconhecidos por certa cultura em certa época. Outras eram pura especulação, e algumas são meras gracinhas, que nunca chegaram a ser levadas à sério. Conheça alguns casos.

(Nicolas Sanson (1650)/Domínio Público)

(1) Ilha da Califórnia foi, por muito tempo, o nome da península comprida e com jeitão de Chile que aparece no lado esquerdo do mapa do México – hoje conhecida como Baixa Califórnia. “Ilha” não é figura de linguagem. Entre a chegada de Colombo e o ano de 1747, não havia confirmação de que essa massa de terra realmente se conectava com o resto da América do Norte em algum ponto da costa. O resultado eram mapas como esse aí em cima, de 1650.

A ideia de uma ilha distante em um continente ainda inexplorado mexeu com a imaginação de muita gente. A descrição a seguir, uma das primeiras menções à Califórnia na história, é do romance de cavalaria Las sergas de Esplandián (1510), do espanhol Garci Rodríguez de Montalvo.

“Sabemos que na mão direita das Índias existe uma ilha chamada Califórnia muito perto da borda do Paraíso terrestre; e é habitada por mulheres negras, sem nenhum homem entre elas, pois vivem na forma de Amazonas. Eram lindas e robustas, coragem ardente e grande força. A ilha era grande, com seus penhascos íngremes. Suas armas eram todas de ouro assim como os arreios que usavam para domar os animais selvagens. Em toda a ilha não havia metais além do ouro” (veja aqui, na pág. 27).

Lugar bacana – agora você já sabe de onde vem a Mulher Maravilha.

(John Cary (1805)/Domínio Público)

(2) As Montanhas da Lua são resultado de um surto de criatividade dos conquistadores europeus na busca pela origem dos rios da África (dê um refresco – eles não estavam acostumados a ver tanta água em um lugar só). O mapa acima, de 1805, as representa como uma longa cordilheira, que cortaria toda a “cintura” do continente. Ali ficaria a então misteriosa nascente do Rio Nilo – que, hoje se sabe, é a união de vários rios, um dos quais se origina no grande Lago Victória. (3) As Montanhas de Kong são outra cordilheira, continuação das Montanhas da Lua, no sopé das quais nasceria o Rio Níger. As duas cordilheiras foram parte de qualquer mapa confiável da África entre 1798 e o final do século 19.

(4) A Ilha Nula, se existisse, ficaria nas coordenadas 0º, 0º, exatamente onde a linha imaginária do Equador encontra outra linha famosa, o Meridiano de Greenwich. Não se preocupe: ela é só uma piada de cartógrafo que foi um pouco longe demais.

Na prática, essa latitude e longitude indicam um pontinho de mar quente e chuvoso no golfo da Guiné, aquela espécie de reentrância na costa oeste da África em que o Brasil parece se encaixar como uma peça de quebra-cabeça.

A importância do local é o seguinte: qualquer aparelho de GPS tem a capacidade “mágica” de transformar o endereço da sua casa, com rua e número, em um conjunto de coordenadas – como -23.5651973,-46.7021723,19. É por isso que o Google Maps funciona. Quando você escreve um endereço errado – ou quando rola algum problema técnico –, alguns desses sistemas vão automaticamente para o default, que é 0º, 0º. Um erro de tradução da língua dos humanos para a dos mapas.

Ou seja: a Ilha Nula é o lugar em que estão todos os endereços errados. O sistema de coordenadas adotado hoje para a maior parte das aplicações não é o único – há outros, e cada um deles tem seu próprio ponto nulo. Todos eles estão listados neste mapa, que também conta uma breve história das ilhas nulas. Internet afora, há mapas e ilustrações e até uma bandeira da dita cuja – divirta-se.

(Cresques Abraham/Domínio Público)

(5) A Ilha de Hy-Brasil definitivamente não é resultado de um soldado inglês dando “oi” aos nativos de uma ilha que ele pensava ser nosso país na época da colonização – embora essa seja uma fábula etimológica tentadora. Na verdade, Hy-Brasil aparecia nos mapas da Europa pelo menos 125 anos antes da chegada de Cabral ao nosso atual território.

Segundo o mito celta que deu origem à confusão, Hy-Brasil é uma massa de terra circular à oeste da Irlanda, no norte do Atlântico, que passa períodos cíclicos de sete anos oculta sob grossa neblina – ao fim dos quais se revela por um único dia aos olhos, mas se mantém inalcançável aos navegantes.

Não é bem uma história em que um cartógrafo contemporâneo confiaria. Mas, no final da Idade Média, a lenda, de tão consolidada, foi promovida a fato. Em 1375, Hy-Brasil apareceu em um Atlas catalão – lembra um óvulo, ou um ovo frito, pode escolher. Em 1525, deu as caras no Livro da Navegação (Kitab-ı Bahriye) do otomano Piri Reis – onde aparece também redonda, mas com o litoral recortado. Em 1595, sua existência foi “confirmada” de vez pelo mapa do holandês Gerardus Mercator – cuja representação da Terra revolucionou a história dos mapas e da navegação. É, fake news não é de hoje.

Hy-Brasil vem de Uí Breasail. Na língua falada pelos celtas da antiguidade, isso significa “clã de Breasail” ou “filhos de Breasail”. Quem é a família do tal Breasail a SUPER não arrisca responder: há muitas versões possíveis para a origem do nome, nenhuma confirmada. O certo é que ela não tem nada a ver com o nosso Brasil – cujo nome, segundo a versão mais aceita, tem a ver com a árvore pau-brasil e sua coloração vermelha, de “brasa”.

(6) A montanha magnética do Polo Norte é uma explicação curiosa para o funcionamento da bússola – a atração magnética que permitia a navegação seria exercida por uma montanha especial cravada no teto do mundo, no entorno da qual “escorreria” a água que enche os oceanos. O mapa abaixo, feito por Gerardus Mercator em 1595, ilustra bem o conceito. Use a costa dos países nórdicos de referência, já que os contornos do Canadá ainda eram um mistério para os europeus.

(Gerardus Mercator (1595)/Domínio Público)

via Superinteressante

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