Deusas gregas: rivais olímpicas

O mundo foi dividido entre os três irmãos divinos: Zeus, Poseidon e Hades. Mas, na prática, muito do que acontecia entre deuses e mortais passava pelo poder das grandes deusas do Olimpo. “As divindades femininas tinham imensa autoridade no mundo antigo, pois todas, de certa forma, estavam ligadas à fertilidade da Terra, coisa essencial entre os gregos, cuja sociedade tinha grandes tradições agrárias”, explica o historiador Francisco Marshall, especialista em Antiguidade clássica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

E, assim como os deuses, as deusas eram muito zelosas de seus privilégios e de suas reputações. Eram generosas com os seguidores fiéis, mas se tornavam terríveis e mortíferas quando zangadas. Por sinal, foi uma rivalidade entre Hera, Palas Atena e Afrodite que desencadeou a maior e mais destrutiva guerra da mitologia grega.

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Hera

No vasto salão do olimpo, a rainha Hera (Juno, entre os romanos) sentava-se em um trono branco como as nuvens. Em sua cabeça, brilhava um diadema dourado. Ao seu lado, um pavão real movia suas plumas multicoloridas – esse pássaro altivo e algo arrogante era o símbolo da senhora dos deuses.

Oficialmente, ela era a rainha de todo o mundo conhecido. Poderia usufruir de sua vidinha de rainha numa boa. Mas as intermináveis infidelidades do marido eram uma perturbação constante. Por isso, Hera ficou famosa como a mais ciumenta e vingativa das divindades. E também a mais conservadora: detestava adúlteros de todos os tipos e zelava sempre pela ordem e os bons costumes.

No início, o casamento entre Zeus e Hera foi feliz. Na ilha de Samos, eles passaram uma lua de mel que durou 300 anos. Mas Hera é tão recatada que, mesmo após séculos de casamento, continuou virgem. Não que eles não fizessem sexo. É que ela se banhava regularmente na fonte de Cânatos, na região da Náuplia, cujas águas tinham a propriedade de restabelecer a virgindade de qualquer mulher, fosse deusa ou mortal. Zeus, portanto, tirava a virgindade da esposa sempre que dormiam juntos.

Mas isso não era o bastante para o ardente senhor do Olimpo. As constantes traições de Zeus tornaram Hera uma deusa amarga e feroz. Perseguia cruelmente as amantes do marido. Uma delas foi a princesa Io, de Argos. Como punição por ter cedido aos desejos de Zeus, Hera a transformou em uma novilha branca e a condenou a vagar pelo mundo atormentada por um enxame de insetos.

A deusa também lançava desgraças sobre os rebentos ilegítimos do marido. Foi o que fez com Héracles, o filho favorito de Zeus. Contudo, ela foi obrigada a aceitar no Olimpo alguns frutos da infidelidade do marido: os deuses Apolo, Ártemis, Hermes e Dioniso.

Despeitada, Hera estava sempre discordando do esposo nas assembleias divinas. Era raro que um dia se passasse sem que o casal olímpico brigasse por algum motivo. Embora divindades supremas, Zeus e Hera tinham um matrimônio humano, demasiado humano.

Poderosa Afrodite

As ondas do mar roçavam as areias da ilha de Citera, no Mar Egeu. Soprando suavemente as águas, o vento oeste – chamado Zéfiro, em grego – empurrou até as praias uma grande concha, vinda de alto mar. Dentro dela, navegava Afrodite, que os gregos chamavam de “a Dourada”, por conta de seus cabelos louros e cacheados – entre os romanos, conhecida como Vênus.

Foi a mais bela de todas as deusas da mitologia (entre as mortais, a mais linda foi Helena, filha de Zeus e Leda). Afrodite havia nascido, solitária e deslumbrante, no meio do oceano. Erguera- se da espuma do mar. Alguns gregos acreditavam que ela não tinha pai, nem mãe: surgira do nada, simplesmente, para encher o mundo de desejo. Outros diziam que ela nascera do esperma de Urano, o Céu Estrelado (quando Urano foi castrado por seu filho Cronos, seus testículos despencaram no mar).

Seja como for, Afrodite, recém-nascida, navegou em uma concha até a ilha mais próxima. Descendo de seu barco improvisado, caminhou pela areia, com os cachos gotejantes de água salgada, enquanto tufos de grama e de flores nasciam sob seus pés. Tudo isso aconteceu antes que Zeus e seus irmãos nascessem – logo, Afrodite era a mais antiga divindade do Olimpo. Porém, jamais perdeu a aparência jovem. E, por toda a eternidade, teve sempre o comportamento impulsivo de uma adolescente.

Afrodite não era simplesmente a deusa do amor. Era a deusa do amor sexual, o amor físico. Vivia apenas para o prazer. Por questões de política olímpica, a mais bela das deusas casou-se com o deus mais feio: Hefesto. Mas o coração da bela pertencia ao brutal e sanguinolento Ares, deus da guerra. O resultado desse triângulo: Hefesto flagrou, e ridicularizou, o casal.

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A sábia deusa do combate

O dia não tinha nuvens, mas o céu estava escuro: as flechas dos inimigos cobriam o Sol. Os gregos desesperavam-se – os inimigos eram inumeráveis, e a batalha parecia perdida. Mas, de repente, um vulto passou voando sobre as cabeças dos soldados. Era um pássaro de olhos imensos e brilhantes: uma coruja. Imediatamente, um grito de triunfo e coragem se espalhou pelo exército. E os gregos, antes acovardados, agora se lançaram à luta com ardor duplicado.

Cenas como essa se repetiram várias vezes, nos mitos e na história. Na Ilíada, o voo de uma coruja era o suficiente para atiçar o ânimo dos gregos contra os troianos. Nas batalhas históricas de Maratona e Salamina (travadas contra os persas, no século 5 a.C.), aparições da ave de rapina foram vistas como prenúncios da vitória grega. Tudo isso porque a coruja, com seu olhar penetrante, ao mesmo tempo sábio e perigoso, é o símbolo de Palas Atena (entre os romanos, Minerva) – deusa do combate, da sabedoria e grande protetora dos guerreiros e dos heróis.

Palas Atena teve um dos nascimentos mais inusitados da mitologia grega. Certo dia, Zeus acordou assolado por uma horrenda dor de cabeça. As têmporas latejavam e o deus gritava a plenos pulmões, com as mãos apertando os cabelos. Quase enlouquecido, pediu que Hefestos, o ferreiro do Olimpo, abrisse seu crânio com um golpe de martelo. Hefestos obedeceu. E do sangue que jorrou da cabeça de Zeus, ergueu-se de repente uma figura de terrível elegância: uma jovem de olhos cinzentos e brilhantes, armada de lança e escudo, e usando uma armadura fulgurante.

Aquela visão foi tão impressionante que todos os deuses ficaram em silêncio, assombrados. O Olimpo estremeceu e as ondas do mar rugiram. Todos sabiam que um ser imensamente poderoso havia surgido. Embora tivesse nascido armada, Palas Atena não amava a violência, nem tinha prazer em guerrear. Sempre que necessário, usava sua lança com perícia insuperável. Mas, quando possível, preferia resolver as coisas usando a razão. Por isso, foi a inimiga mais amarga de seu meio-irmão, Ares, o brutal e desvairado deus da guerra, que pensava apenas em derramar sangue e promover carnificinas.

Se Ares era o deus da fúria assassina, Atena era a protetora dos estrategistas e dos sábios. Preferia construir em vez de destruir, e criou muitas das invenções que serviriam ao dia a dia dos mortais, como as artes de cozinhar e costurar, o arado, as carruagens e os navios.

Muitos deuses e mortais gostariam de ter Atena como esposa – ou amante. Afinal, ela era não apenas belíssima, como também dona da mais brilhante inteligência do Olimpo. Mas Atena não quis saber de ninguém. Seu relacionamento com os mortais era baseado na amizade e no aconselhamento. E também não se rendeu às cantadas de nenhum deus.

Apesar de seu temperamento generoso e sensato, houve uma vez em que Atena se rendeu à fúria. Embora solteira e eternamente virgem, ela era vaidosa de seus dotes físicos, como todas as deusas gregas. A fúria de Atena sobreveio após uma competição de beleza, disputada com as rivais Afrodite e Hera – e a vingança de uma deusa despeitada é sempre terrível.

O julgamento de Páris

O mais famoso festim da mitologia grega foi o casamento entre o mortal Peleu, rei da ilha de Egina, e Tétis – a mesma ninfa que ajudou Zeus durante a rebelião no Olimpo. A celebração ocorreu nos prados da Tessália, à sombra do Monte Pélion. Todos os grandes reis da Grécia foram convidados. E também todos os deuses – ou quase todos.

A deusa Éris (ou Discórdia, para os romanos) ficou fora da lista. Era uma divindade desagradável, mas necessária: sua função era espalhar as disputas e os conflitos, sem os quais a vida de deuses e mortais ficaria estagnada. Éris não perdoou a afronta – ela jamais perdoava nada nem ninguém.

A sinistra divindade planejou plantar o desentendimento entre os convivas que se divertiam nos campos da Tessália. Apanhou uma maçã dourada e escreveu, na casca, as palavras fatais: “À mais bela”. Depois, deixou o pomo da discórdia rolar até a mesa onde estavam os olímpicos. Hera, Afrodite e Palas Atena cravaram os olhos na fruta e na inscrição. Sempre houvera uma discreta rivalidade entre as três. Agora, o duelo era aberto. “Qual de nós merece o prêmio?”, perguntaram, ao mesmo tempo, a Zeus – e havia ameaça na voz de cada uma delas. Sem querer se comprometer, o senhor do Olimpo deu de ombros. “Sou suspeito para julgar. Melhor encontrar um árbitro fora de nossa família”.

O juiz escolhido foi um jovem pastor que vivia nas encostas de um monte, na atual Turquia. Era Páris, filho de Príamo, rei de Troia. Embora ainda fosse um adolescente, ele já havia seduzido inúmeras mulheres e ninfas. Era, portanto, um especialista na beleza feminina. Por isso, as três deusas se transportaram ao monte onde Páris cuidava das ovelhas. Surgiram em todo seu esplendor aos olhos do rapaz e exigiram que ele julgasse qual das três era a mais bonita.

A princípio, Páris não soube responder. Vendo que o senso estético do garoto estava ofuscado por tanta beleza, as deusas recorreram ao suborno. Palas Atena prometeu tornar Páris o homem mais sábio do mundo, se a escolhesse. Hera garantiu-lhe o domínio sobre todos os reinos da Europa e da Ásia. Mas Afrodite fez a oferta mais tentadora: “Se me escolher, eu lhe darei o amor de Helena, a mulher mais bela que já existiu ou que vai existir no mundo”.

Páris, o mulherengo, não teve dúvidas. Escolheu Afrodite. Assim ganhou o eterno favorecimento da deusa do amor, mas também o ódio de Hera e Palas Atena. A duas deusas juraram, silenciosamente, destruir Páris e sua família – e transformar em brasas e cinzas a grande cidade de Troia.

Deméter

A grande deusa da fertilidade e das estações

(Adams Carvalho/Superinteressante)

Irmã mais velha de Zeus, Deméter era uma mulher esplendorosa: seios fartos, quadris volumosos e longos cabelos dourados como espigas de trigo. A aparência era um símbolo de sua função divina: era a deusa das colheitas e da agricultura. Nos primórdios da Grécia, todas as deusas eram símbolos da fertilidade da terra – mas, com o tempo, esses atributos se concentraram na figura viçosa de Deméter (conhecida como Ceres em Roma). Era ela quem espalhava a energia nos sulcos do solo, fazendo com que as sementes germinassem. Por isso, sempre que chegava o tempo das colheitas, os gregos faziam preces a ela.

Zeus foi seduzido pelo encanto exuberante da irmã mais velha. Sua única noite de amor teve um fruto luminoso: a menina Perséfone, a quem Deméter amava mais que a si mesma. Feliz na companhia da filha, Deméter espalhou pelo mundo uma eterna primavera.

Mas a beleza primaveril de Perséfone despertou o sombrio desejo de Hades. Certo dia, Perséfone brincava em um campo florido, quando uma fenda subitamente se abriu na terra. Em meio à fumaça, surgiu a carruagem de Hades, puxada por dois cavalos negros. Perséfone não teve tempo de fugir. O mais temido dos deuses agarrou-a e arrastou-a para o mundo dos mortos.

Destroçada pela perda, Deméter envelheceu subitamente. Seus cabelos se tornaram grisalhos e sua pele murchou. No solo, as sementes não vingavam. A terra se tornou estéril. E Deméter jurou que abandonaria o mundo inteiro à fome, a menos que tivesse a filha de volta. Os humanos agora morriam à míngua nos campos desolados.

Zeus interveio: ordenou que o senhor dos mortos devolvesse Perséfone à luz do mundo. Hades concordou – aparentemente. Ao despedir-se de Perséfone, ofereceu-lhe uma singela romã. “Coma essa fruta doce, para lembrar que não sou um companheiro tão amargo”, disse. Perséfone mordiscou apenas sete sementes da romã, sem saber de uma antiga lei que vigorava entre os deuses: todo aquele que comesse algo no mundo dos mortos era obrigado a passar parte do ano nas profundezas.

Por isso, durante alguns meses, Perséfone passou a viver nos subterrâneos, como rainha dos mortos. No resto do tempo, vivia com a mãe. E é por isso que o solo permanece morto durante os meses de inverno – mas volta a verdejar e frutificar quando Deméter reencontra sua filha à luz do Sol.

Ártemis

(Adams Carvalho/Superinteressante)

Quando os gregos entravam em um bosque virgem ou escalavam a encosta de uma montanha, jamais se esqueciam de fazer uma prece a Ártemis (Diana, entre os romanos), também chamada “a senhora dos animais ferozes” e “a disparadora de flechas”.

Filha de Zeus e da ninfa Leto, era irmã e amiga de Apolo. A mira infalível era uma característica partilhada pelos irmãos. Mas, se Apolo era vaidoso, Ártemis era reservada. Protetora das florestas e das feras, ela passava seu tempo percorrendo os recantos selvagens da Grécia, longe de deuses e mortais.

Quando criança, Ártemis havia pedido ao seu pai, Zeus, o domínio sobre bosques, montanhas e rios. Zeus realizou seu pedido, e lhe deu de presente um arco de prata e flechas que jamais erravam o alvo – tudo forjado pelos ciclopes. A partir de então, Ártemis viveu a percorrer seus domínios em uma carruagem dourada, puxada por duas corças.

Embora protegesse os recantos naturais, Ártemis amava caçar. O paradoxo se explica facilmente: a caça, na antiga Grécia, não era predatória. Caçava-se apenas o necessário para a subsistência. Os antigos gregos tinham leis religiosas que protegiam locais selvagens como bosques e lagos.

Como Palas Atena, Ártemis era uma deusa virgem. Não queria nada com homens. E sua nudez era sagrada. Certa vez, um caçador chamado Actéon avistou, por acaso, a deusa se banhando nua em um córrego. Enfurecida, Ártemis o transformou em um cervo – e Ácteon foi feito em pedaços por seus próprios cães de caça.

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Héstia

A única deusa olímpica que jamais se envolveu em intrigas ou disputas foi a pacata e benevolente Héstia (entre os romanos, Vesta). Era uma deusa modesta e reservada: andava sempre com um véu cobrindo os cabelos, e sua principal função era manter aceso o fogo nas lareiras e tochas do Olimpo. Jamais se rendeu ao desejo físico.

Tanto Poseidon quanto Apolo a pediram em casamento, mas Héstia jurou que ficaria virgem por toda a eternidade. Os gregos e os romanos a veneravam como deusa do lar, da família e da paz doméstica. Além disso, foi a inventora da arte de construir casas, tornando-se a padroeira da arquitetura.

via Superinteressante

Publicado por Carlos Trentini

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