Entrevista | “Araní” é a aposta para buscar novo cenário de gamedev no Brasil

“Em termos de gameplay, ‘Devil May Cry’ é uma das inspirações mais fortes”. É assim que Bruno Palermo, gerente de relações e game designer do estúdio brasileiro Diorama Digital, começa a entrevista para falar com exclusividade ao Canaltech sobre "Araní", a produção da empresa para PlayStation 4, Xbox One e PC/Steam que é ambientada no enredo baseado no folclore brasileiro. Nós chegamos a falar brevemente do título à época em que o estúdio lançou um teaser dele — após um longo silêncio nas redes —, mas queríamos saber mais sobre o que a empresa natural de Recife, Pernambuco tinha a nos contar do projeto.

Pode parecer clichê para alguns, a ideia do “estúdio brasileiro só faz jogo de índio”, até porque o pano de fundo é a terra tupiniquim, recheada de florestas densas; a protagonista que dá nome ao jogo usa motivos indígenas, como patuás e pinturas faciais, mas se formos enxergar por outra óptica, isso é na verdade um ponto a favor de Araní: a ideia passada pelas artes e vídeo é a de que o “mundo” do jogo é um intocado por diretrizes contemporâneas. Ao menos à primeira vista, a Tribo do Sol, da qual Araní faz parte, não teve qualquer contato com a civilização moderna.

 

Isso é importante de ser ressaltado pois vem de outras inspirações para a criação do jogo: “Existem também elementos da série ‘God of War’, ‘Darksiders’ e ‘Hellblade: Senua’s Sacrifice’”, diz Palermo. “Cada um destes jogos influenciou em diferentes aspectos do jogo”. Essa expressão se faz notável no combate, por exemplo: você não espera que Kratos pegue em um rifle, haja vista que o jogo se passa majoritariamente na mitologia grega antiga, assim como Senua luta com os mesmos movimentos de vikings e antepassados dinamarqueses na mitologia escandinava. Dentro deste contexto, é natural ver que o Brasil seja representado por uma personagem indígena, com um estilo de combate singular à ela (note, por exemplo, que o teaser acima não tem socos ou chutes, ou mesmo combinações que lança e pernas…).

A fidelidade à cultura indígena brasileira é evidente até quando, aparentemente, o jogo parece fugir dela. A trilha sonora de Araní é inteiramente conduzida pela banda de heavy metal Arandu Arakuaa. Até aí, nada muito a que se surpreender, exceto pelo fato de que eles tocam no idioma tupí. “Já conhecíamos a banda e curtíamos o som deles. Na verdade a ideia é mais se aproximar da sonoridade indígena, usar de instrumentos tradicionais, etc, aliado a um som mais pesado, que é bem adequado ao tipo de jogo que queríamos fazer. Então, o som da Arandu Arakuaa caiu como uma luva”, conta Bruno.

“As letras são inspiradas em lendas e ritos indígenas, buscando desta maneira contribuir para divulgação e valorização das manifestações culturais dos povos indígenas do Brasil”, diz a descrição de um vídeo exibindo o som da banda na página do estúdio no Facebook. Bruno conta que todo o acervo da Arandu Arakuaa — três álbuns completos — assinarão a produção fonográfica do jogo: “[Nós] contactamos o Zhândio [Huku, vocalista] para estudar a possibilidade de licenciarmos as músicas deles para ‘Araní’. Ele curtiu a ideia, então viabilizamos esse licenciamento, que inclui todos os álbuns, incluindo o mais recente, que já foi gravado com o jogo em mente. Há também uma música tema, exclusiva do jogo”. Veja um exemplo do som da banda no vídeo abaixo:

 

Tudo isso dentro de um programa do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul), um órgão ligado à Ancine (Agência Nacional de Cinema) que oferece capital de investimento para projetos artísticos nacionais. Sem ele, Bruno diz que “Araní” não passaria de uma ideia: “Esse capital viabilizou o projeto como um todo. Apesar de ser bastante enxuto para um jogo como ‘Araní’, de um modo geral, é este dinheiro que custeia a equipe envolvida no projeto. ‘Araní’ era uma ideia. Com a possibilidade de participar do edital, transformamos essa ideia num conceito de jogo que hoje está evoluindo para se tornar um produto completo. O edital tornou ele factível”. Isso inclui também a trilha sonora.

Bruno aproveitou que este foi o motivo do “sumiço” de aproximadamente um ano do estúdio, uma dúvida constante, questionada pelos fãs no canal do estúdio no YouTube. Durante este período, “Araní” passou cerca de um ano sem qualquer novidade — um silêncio que, para muitos, foi compreendido como um cancelamento do projeto. Isso perdurou até o mês passado, na ocasião de lançamento do teaser acima. “Entre a aprovação no edital e o recebimento do aporte financeiro há um espaço de tempo bastante longo. E o projeto dependia deste aporte para, efetivamente, se realizar. Uma parte importante deste tempo foi usada para adiantar a pré-produção, fazer pesquisa, estudar as mitologias, etc., enquanto o aporte não era liberado e não podíamos iniciar oficialmente o projeto”.

(Imagem: Divulgação/Diorama Digital)

Mas nisso também há a influência de uma negociação com publishers. Bruno não entrou em detalhes, citando que são informações derivadas de uma ideia ainda em discussão, mas o estúdio Diorama Digital está seguindo o exemplo de outra empresa — a Aquiris Game Studio. Os designers recifenses estão tirando uma página do manual dos criadores de Horizon Chase e estão procurando publishers para parceria e publicação de “Araní”: “Após o aporte, com o projeto em andamento e com o teaser feito, tivemos que segurá-lo um pouco devido a negociações com certas publishers e por isso só agora liberamos. Estamos justamente buscando parcerias que possam ampliar a audiência do jogo aqui e no exterior, além de conseguir uma boa divulgação. Por isso, não temos uma previsão de lançamento definida, visto que a negociação com a publisher tem um grande impacto nisso”.

Araní está sendo desenvolvido para os dois consoles principais — PlayStation 4, da Sony; e Xbox One, da Microsoft; além do PC, via Steam —, mas o estúdio não descarta expandir este leque: “Queremos um port — e ele está sendo estudado — para Nintendo Switch”, revela Bruno.

Araní é um projeto ambicioso, se o teaser e as artes aqui mostradas servem de indício. O estúdio Diorama Digital tem bastante experiência em CGI e trabalhos artísticos em outras indústrias, então a ênfase no visual é uma característica que vem recebendo muita atenção dos desenvolvedores. Uma ambição deles é desmitificar a indústria brasileira como produtora de jogos casuais, com visual cartunesco. Aqui também se faz um jogo “AAA” — e “Araní” pode vir a ser aquele que põe a indústria nacional à prova.

(Imagem: Divulgação/Diorama Digital)

via Canaltech

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