Quem é a TSMC, a desconhecida de Taiwan que está roubando o trono da Intel?

Quando a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) foi criada em 1987 com o objetivo de fabricar processadores para empresas que não possuíam capital para montar suas próprias linhas de produção, a iniciativa foi considerada como fadada ao fracasso por alguns de seus principais concorrentes. 31 anos depois, a companhia está pronto para tomar o trono daquela que, durante todo esse tempo, foi a maior do mundo: a Intel.

Com o fechamento de um acordo para produzir os processadores da AMD, a TSMC se tornou poderosa o suficiente para brigar em pé de igualdade com a norte-americana. E a AMD é apenas o mais recente dos acordos firmados pela asiática, que há anos vem sendo procurada por empresas que querem lançar sua própria linha de processadores, mas sem precisar investir o montante necessário para construir suas próprias fábricas.

A TSMC conta com clientes dos mais diversos tamanhos, produzindo chips tanto para gigantes como a Apple e a Qualcomm quanto para empresas bem mais modestas, como a Ampere Computing. E é exatamente essa grande variedade de clientes que permitiu que a empresa desenvolvesse a capacidade de, hoje, produzir os chips mais eficientes e mais baratos do mercado.

Isso não quer dizer que a Intel está morta. A fabricante ainda é responsável por 90% dos processadores usados no mercado de computadores pessoais, e suas finanças apontam para mais um ano de lucros recordes em 2018. Mas os investidores estão preocupados. Pela primeira vez desde a década de 1990, existe uma empresa com chance real de tomar o posto da Intel como a melhor fabricante de processadores do mundo — e isso já ficou claro desde o ano passado, quando, pela primeira vez, a TSMC fechou o ano com um valor de mercado superior ao da empresa dos Estados Unidos.

E esse tropeço da Intel no mercado é uma oportunidade não só para a TSMC, mas também para a entrada de novos concorrentes. É o caso da Ampere, uma empresa criada há apenas dois anos por um ex-diretor da, vejam so, Intel, mas que já vê em sua parceria com a fabricante taiwanesa a chance de atrapalhar a soberania da gigante no ramo de processadores para servidores.

Mas o que realmente faz os investidores da Intel temerem pelo futuro é que as principais indústrias de tecnologia utilizem a TSMC para criar seus próprios processadores. Como aconteceu esta semana, quando a Amazon anunciou uma parceria com a indústria de Taiwan para desenvolver seus próprios processadores para os servidores em nuvem do Amazon Web Services.

A decisão soa como uma facada na Intel, que até então era a principal fornecedora de processadores para os servidores do AWS, o maior serviço de computação em nuvem do mundo. A parceria com a TSMC permitiu que a empresa anunciasse o Gravitron, um processador feito especificamente para trabalhar com a nova versão dos sistemas em nuvem Amazon, com capacidade de processamento similar a dos processadores Intel, mas com um custo 40% menor.

Outra frente em que a Intel também vem perdendo a batalha é na própria tecnologia utilizada em seus processadores. Uma das características-chave de qualquer processador é o espaço entre trilhas de cada um dos circuitos microscópicos que existem dentro do dispositivo. Quanto menor o espaço — que é medido em nanômetros —, maior a quantidade de circuitos que os engenheiros conseguem colocar dentro de um chip, possibilitando a criação de processadores mais rápidos, mais econômicos, mais baratos e que conseguem processar uma quantidade maior de dados.

Em 2013, a Intel estava no topo do mundo tecnológico, sendo a primeira empresa a criar chips na escala de 14 nanômetros. Mas, desde então, a empresa tem tropeçado. Enquanto a TSMC já fabrica componentes de 7 nanômetros, a Intel só conseguirá criar os seus primeiros de 10 nanômetros no final de 2019. Isso quer dizer que, no mesmo período em que a Intel levará para avançar da arquitetura de 14 nm para a de 10 nm, a TSMC saiu de uma produção em 20 nm para apenas 7 nm.

Isso não quer dizer que os chips da Intel estão ultrapassados. Navin Shenoy, chefe da divisão de servidores da empresa, garante que mesmo estando atrás da concorrência no espaçamento entre as trilhas, os processadores da companhia ainda são os mais potentes do mercado, pois existem outros fatores que definem o poder de um processador além dessa característica. E ainda que isso seja verdade, a questão é: até quando a Intel poderá continuar como líder do mercado quando sua tecnologia já está atrás das demais?

Linha de produção da TSMC (Imagem: divulgação)

E mesmo a grande vantagem que a empresa dos Estados Unidos sempre teve sobre suas concorrentes — a capacidade de despejar um caminhão de dinheiro em pesquisa — não é o suficiente para derrubar a TSMC. Devido ao seu modelo de negócio, a empresa de Taiwan recebe investimentos em pesquisa de não uma, mas de diversas fontes de todo o mundo. E, ao combinar os investimentos de empresas como Apple, Qualcomm, AMD, Nvidia e Huawei, a verba em pesquisa da TSMC fica fora até mesmo dos patamares mais astronômicos da Intel. De acordo com o banco de investimentos Goldman Sachs, essa diferença em valores só tende a aumentar: até 2020, a estimativa da Intel é gastar quase US$ 20 bilhões em pesquisa e desenvolvimento — um valor astronômico, mas US$ 4 bilhões abaixo da estimativa do que será investido pela TSMC na mesma área.

Mas a TSMC não chegou sozinha no patamar que está hoje, e o maior salto no crescimento da empresa teve até mesmo uma ajudinha da Intel. Pouco mais de uma década atrás, quando os smartphones começavam a se tornar mais populares, a Intel resolveu que não iria dedicar seus recursos para a produção de chipsets para esses aparelhos, escolhendo continuar focando nos mercados que já dominava: o de computadores e servidores. Isso abriu espaço para que diversas empresas, como a Qualcomm, começacem a produzir chips voltados especialmente para esses aparelhos. Ou até mesmo algumas fabricantes de smartphones, como a Apple, começaram a usar a tecnologia ARM para criar seus próprios chips. E, independentemente da marca, todos esses componentes eram fabricados em Taiwan pela TSMC.

Olhando para trás, a Intel deve se arrepender amargamente dessa decisão, pois ela não só possibilitou o surgimento da primeira empresa que pode concorrer de igual para igual com ela em décadas, como vê hoje o mercado de smartphones seis vezes maior do que o de computadores. Como já disse Debora Shoquist, vice-presidente de operações da Nvidia, atualmente a TSMC é a melhor fabricante e, por isso, atrai os melhores investimentos do mercado. E está cada vez mais difícil para a Intel mudar esse quadro.

via Canaltech

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