Facebook é chamado de “ameaça à democracia” em audiência internacional

O Facebook foi o alvo de uma enxurrada de críticas e acusações enfurecidas nesta terça-feira (27), quando aconteceu, no Reino Unido, uma audiência internacional sobre fake news, manipulação e privacidade na rede social. Representantes de nove países participaram do encontro, ao qual o CEO da empresa, Mark Zuckerberg, não esteve presente para ver sua empresa ser taxada como uma grande ameaça à democracia no mundo atual.

Em seu lugar, o fundador da companhia enviou Richard Allan, diretor de políticas da empresa para o Reino Unido, que esteve diante de legisladores durante quase três horas, respondendo a questionamentos de maneira não satisfatória, de acordo com os representantes, e tentando conter os danos da ausência do presidente executivo. Para os nove países, Zuckerberg está fugindo de sua responsabilidade e age como um “colegial milionário”, interessado apenas em cheques. Para o grupo, sua ausência soou como uma grande ofensa.

Em um ato claro de afronta, o comitê chegou a deixar uma cadeira vazia, com direito a plaquinha em nome de Zuckerberg e tudo. Allan admitiu que a falta do CEO não soa bem, mas também assumiu responsabilidade por essa decisão, voltando a afirmar que o fundador da companhia já havia comparecido a outras audiências desse tipo para falar sobre o mesmo assunto. Em resposta, os parlamentares afirmaram que o representante enviado por ele não possuía o conhecimento necessário para responder às perguntas da comissão.

Um dos principais pontos da audiência foi a revelação de informações confidenciais da empresa, oriundas de documentos apreendidos pelo governo britânico e relacionados a um processo sobre privacidade movido contra o Facebook por uma empresa de aplicativos. Entre as principais questões está um memorando de outubro de 2014, no qual um engenheiro da rede social afirma que IPs russos estavam coletando dados de usuários a partir de uma API usada pela rede social Pinterest. A empresa, então, sabia desde 2014 que era alvo de espionagem e coleta de informações por agentes estrangeiros? E, pior do que isso, tentou encobrir esse fato?

Em uma clara afronta à ausência de Zuckerberg, audiência aconteceu com uma cadeira vazia em seu nome (Imagem: Gabriel Sainhas, House of Commons)

A resposta de Allan, mais uma vez, não agradou, com o executivo afirmando que o memorando a que a audiência teve acesso está incompleto e, por isso, suas informações levam a essa conclusão. Ele afirmou que o caso foi investigado e, na ocasião, não foram encontrados indícios de atividade russa na plataforma.

Por outro lado, o diretor de políticas confirmou que certas empresas e serviços receberam uma espécie de “carta branca” da rede social por comprarem grandes quantidades de anúncios na plataforma. Isso envolveria, inclusive, a coleta de um grande volume de informações sobre os usuários, de forma a praticar publicidade direcionada, em um dos fatores que teria levado a escândalos como o da Cambridge Analytica.

Os parlamentares, entretanto, atenderam aos pedidos do Facebook e não revelaram a íntegra dos documentos obtidos a partir do processo. Essa situação é temporária e só se manteve assim para não desviar o foco da audiência, com o britânico Damian Collins afirmando que todas as informações serão publicadas na próxima semana. Allan respondeu à “ameaça” afirmando estar em um interrogatório hostil e reafirmou a existência de dados confidenciais da empresa entre os papéis apreendidos pelo governo.

WhatsApp: o problema número dois

O Brasil também foi citado durante a audiência, com Leopoldo Moreau, da Comissão de Liberdade de Expressão do governo argentino, exigindo atitudes com relação à proliferação de fake news de cunho político no WhatsApp. Ele se mostrou preocupado com a aproximação de eleições presidenciais no país, marcadas para o ano que vem, e lembrou que, em nosso país, as informações falsas proliferadas pelo aplicativo mudaram o panorama político.

O Brasil também foi lembrado como exemplo negativo de proliferação de fake news por meio do WhatsApp

Em resposta, Allan disse estar trabalhando com forças-tarefa nos países em que o pleito se aproxima, de forma a mitigar o alcance de fake news e identificar contas falsas ou que trabalhem na disseminação desse tipo de conteúdo. Moreau ironizou, afirmando que é melhor que o Facebook corra, pois a votação está chegando.

Ele também disse que movimentações como a audiência internacional também acontecem localmente, e motivou novas críticas ao revelar que o escritório argentino do Facebook também se recusou a enviar um representante para uma audiência sobre fake news e manipulação. Sobre isso, Allan pediu desculpas.

Não foi o suficiente e, assim como em outras audiências, a rede social saiu massacrada do parlamento inglês. Desta vez, ainda mais, devido à ausência de Zuckeberg. A empresa ainda não emitiu nota oficial sobre o assunto e, enquanto as investigações da comissão internacional continuam, os céus continuam de tormenta para uma das plataformas de comunicação mais utilizadas do mundo.

via Canaltech

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