Análise | Assassin’s Creed Odyssey é uma aventura épica pela Grécia Antiga

Assassin’s Creed é, sem dúvidas, uma das franquias mais bem-sucedidas da indústria dos videogames. Apesar disso, desde o lançamento de seu primeiro título, em 2007, a série passou por altos e baixos, fez muita gente sorrir e tantas outras chorar e, principalmente nos últimos anos, testou a paciência de quem é fã.

Ano após ano, a Ubisoft explorou a fórmula de gameplay e o plot dos Assassinos vs Templários até exauri-los por completo. O fundo do poço foi atingido com Assassin’s Creed Unity, lançado com tantos problemas que era praticamente injogável. A partir daquele momento, finalmente ficou claro para a produtora francesa aquilo que há tempos vinha sendo apontado pelos fãs e pela crítica: a série estava cansada e precisava de uma pausa.

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O descanso só veio depois do lançamento de Syndicate em 2015. Naquele ano, pela primeira vez foi anunciado que Assassin’s Creed não seria mais lançado anualmente. A folga provou-se revigorante e frutífera: Assassin’s Creed Origins conseguiu inovar na medida certa e apresentou uma proposta diferente aos jogadores. Agora a Ubisoft foi mais além com Assassin’s Creed Odyssey, que basicamente reúne todos os elementos e mecânicas que deram certo ao longo dos últimos 11 anos e os apresenta no mais belo, ambicioso e épico título de toda a franquia.

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Deus grego

À primeira vista, o que mais impressiona em Odyssey certamente é a qualidade gráfica. Se no passado a franquia foi duramente criticada por falhas visuais que afetavam dos cenários aos objetos e personagens, este novo Assassin’s Creed passa a borracha para apagar tudo isso e se mostra aos jogadores como o jogo mais visualmente apelativo de toda a série.

Ao longo de suas quase 60 horas de jornada na campanha principal, o jogo surpreende a todo instante sobretudo pelas belíssimas paisagens que apresenta. Também não é para menos: o território da Grécia tem uma das formações geográficas mais curiosas e exóticas do mundo, com inúmeras ilhas distribuídas pelo Mar Egeu, a maioria delas com formação rochosa árida e outras com praias de areias branquíssimas. Some a isso as florestas presentes em Delfos, Corinto e nos arredores de Atenas e Esparta com a vastidão azul do mar e do céu e até mesmo a topografia de alguns lugares reproduzida à fidelidade (experimente passear por Cefalônia no Street View e faça a comparação com a Celafônia do jogo) e temos o ambiente perfeito para deslumbrar até mesmo aqueles que não são lá muito fãs do Modo Fotografia.

Os gráficos são o ponto alto deste jogo, que reproduz e apresenta cenários históricos da Grécia Antiga em cenas de fazer cair o queixo
Os gráficos são o ponto alto deste jogo, que reproduz e apresenta cenários históricos da Grécia Antiga em cenas de fazer cair o queixo (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Assassin’s Creed Odyssey consegue representar toda essa riqueza e diversidade natural com maestria, valendo-se, além disso, de um bom sistema de mudança climática que aqui e acolá pode ajudar ou dificultar o cumprimento de uma missão e outra — sobretudo as que se desenrolam em alto mar sob um forte temporal. A competência nesse sentido é tanta que dá para cravar, com facilidade, que este é o mais belo Assassin’s Creed já produzido pela Ubisoft, apresentando-se aos jogadores praticamente como um Deus grego, esteticamente perfeito.

Mudanças bem-vindas

Apesar de apelativo, o aspecto visual é apenas a isca que fisga e prende a atenção do jogador num título que inova em alguns aspectos, é rico em mecânicas e recheado de elementos que comprovadamente dão certo dentro de um Assassin’s Creed.

A principal mudança é em relação à história. Cronologicamente, Assassin’s Creed Odyssey ocorre antes de todos os outros, mais especificamente em 431 a.C. na Grécia Antiga, durante a Guerra do Peloponeso, quando ainda sequer havia a Ordem dos Assassinos ou os Templários. Por esse motivo, pela primeira vez na história da franquia a Ubisoft retira o conflito entre as duas entidades do plano de fundo e trabalha uma trama diferente, cujo foco é o drama familiar dos irmãos Alexios e Kassandra, que você pode escolher no começo do game. Outros dois arcos se apresentam no decorrer da aventura, com o personagem descobrindo a existência de um culto que está por trás do conflito militar histórico e também de sua história pessoal, e eventos relacionados à Primeira Civilização.

Em Assassin's Creed Odyssey, a Guerra do Peloponeso acontece até quando o Culto do Cosmos achar necessário
Em Assassin’s Creed Odyssey, a Guerra do Peloponeso acontece até quando o Culto do Cosmos achar necessário (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Outra alteração significativa é que Odyssey abraça, em definitivo, as mecânicas e sistema de evolução dos action RPG da atualidade. Isso adiciona toda uma nova camada de gerenciamento e coleta de itens e torna a aventura mais desafiadora. Também há toda uma diversidade de armas e equipamentos que não só alteram o estilo de jogar como também incrementam atributos de armadura, dano, energia, etc. Para completar, como todo bom RPG, a evolução do personagem acontece a partir de um sistema de níveis e de três árvores de habilidade que praticamente definem o seu estilo de jogo: Caçador, Guerreiro e Assassino.

A cada nível avançado, você recebe um Ponto de Habilidade, que pode ser investido para melhorar uma dessas três habilidades. A de Caçador está mais relacionada à exploração e sobrevivência, permitindo que você se torne implacável em ataques a longa distância. As habilidades de Assassino, por sua vez, conferem mais furtividade e destreza para aqueles que prezam por ataques surpresa, sem serem vistos. Por fim, quem gosta do combate corpo a corpo e de se banhar de sangue, pode investir todos os seus pontos na árvore de habilidades de Guerreiro para se tornar um impiedoso e brutal mercenário. Claro, também é possível moldar um personagem balanceado, distribuindo os pontos com uma certa igualdade entre as três habilidades.

É através da árvore de habilidades que você evolui e aperfeiçoa seu personagem, atribuindo-lhe, inclusive, o famoso chute espartano. Armas, elmos e outros acessórios também podem ser melhorados a partir do inventário
É através da árvore de habilidades que você evolui e aperfeiçoa seu personagem, atribuindo-lhe, inclusive, o famoso chute espartano. Armas, elmos e outros acessórios também podem ser melhorados a partir do inventário (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Para completar a lista de novidades, pela primeira vez suas escolhas impactam o desenrolar da história de maneiras diferentes. Em algumas situações, a coisa toda toma proporções gigantescas, a exemplo de um determinado momento em que você é incumbido de salvar uma família que está prestes a ser despejada de seu vilarejo acusada de estar com uma doença terrível. Caso escolha ajudá-la, em pouco tempo você fica sabendo que a permanência deles ali deflagrou uma epidemia gigantesca e está dizimando toda uma região.

Por outro lado, há situações em que é imperceptível a forma como uma escolha altera o curso da história. Exemplo disso é que, em uma determinada missão, um cidadão pede ajuda a você para procurar por um familiar desaparecido. Está em suas mãos ajudá-lo de boa fé ou simplesmente cobrar pelo trabalho, apenas porque sim, já que o impacto disso na trama do jogo é nulo.

Mesmo assim a Ubisoft garante que não são os grandes momentos e as grandes decisões que determinam o final do jogo — que, por sinal, tem vários —, mas sim a soma de todas as deliberações, sejam elas grandes ou não.

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Mecânicas e elementos aprimorados

A adição desses elementos a Assassin’s Creed Odyssey é uma prova de que, aos poucos, a Ubisoft está explorando novos ingredientes e reformulando o gameplay da franquia para conferir um novo fôlego a ela. Porém, é preciso ter uma fundação sólida e bem arquitetada para sustentar tudo isso, já que, sozinhas, essas novidades não são capazes de manter um jogo desta magnitude. E é aqui que a produtora mostra que soube reaproveitar e melhorar vários elementos que funcionaram no passado e ainda funcionam hoje.

Embora a campanha principal seja muito extensa, ainda há uma infinidade de coisas para fazer na Grécia Antiga de Odyssey. As missões secundárias são inúmeras e normalmente envolvem saquear determinados locais ou encontrar alguém para dar um recado ou acabar com ela. É mais do mesmo, já que tivemos esse tipo de side quest a rodo nos títulos anteriores. Porém, até nisso é possível perceber o esforço da Ubisoft para tornar a coisa toda mais atraente.

Um bom exemplo é a adição dos caçadores de recompensa. À medida que você comete atrocidades mundo afora, cresce o interesse de algumas personalidades por sua cabeça. Para consegui-la, eles anunciam uma recompensa e esses caçadores — todos criados de maneira procedural — saem em sua busca. A coisa toda funciona como o nível de procurado de Grand Theft Auto, só que, ao invés de estrelas, aqui seu nível é mostrado em elmos vermelhos — quanto mais deles você tiver, mais fortes serão os caçadores que virão em seu encalço. E aí você tem três opções: enfrentá-los, pagar-lhes o valor da recompensa em troca de sossego ou ir em busca do mandante para assassiná-lo e acabar com isso de uma vez por todas.

Os caçadores de recompensa são criados proceduralmente e podem aparecer a qualquer momento em busca da sua cabeça. Cada um tem sua própria história, pontos fortes e fracos e padrões de combate
Os caçadores de recompensa são criados proceduralmente e podem aparecer a qualquer momento em busca da sua cabeça. Cada um tem sua própria história, pontos fortes e fracos e padrões de combate (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Agora o mais interessante disso é que esse tipo de inimigo pode lhe encontrar a qualquer momento do jogo, inclusive durante batalhas no meio de missões. Se o seu nível de procurado for muito alto, dois ou três podem aparecer e, por normalmente serem mais fortes que os demais personagens, exigem que você altere toda a sua estratégia no meio do combate ou até mesmo desista da missão e fuja do local. É sufocante e desesperador, mas de um jeito divertido.

Os navios também estão de volta com aperfeiçoamentos. Antes presos às missões, agora eles são parte integral do jogo e você pode usá-los a qualquer momento para explorar o mapa gigantesco — afinal de contas você tem de cruzar o Mar Egeu rumo às diversas ilhas que compõem a Grécia. E, ao contrário do que muitos podem pensar, essas viagens para lá e para cá não são nem um pouco tediosas, já que a tripulação entoa belíssimas canções e Alexios ou Kassandra vibram quando uma corrente de vento favorável ajuda a nau a rasgar a imensidão azul adiante.

E se há navios, também há batalhas navais. É praticamente impossível não se tretar com embarcações espartanas, atenienses e até mesmo piratas indo de um lugar para outro. Tais combates são desafiadores na medida certa e fazem o jogador se sentir verdadeiramente no comando daquela coisa gigantesca feita de madeira. Quando saímos vitoriosos, temos a opção de iniciar uma abordagem ao navio derrotado, acabar com sua tripulação e saquear seus tesouros.

O Adrestia é peça fundamental na exploração do mapa de Assassin's Creed Odyssey, estando disponível a todo instante e não apenas em missões
O Adrestia é peça fundamental na exploração do mapa de Assassin’s Creed Odyssey, estando disponível a todo instante e não apenas em missões (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Tal qual seu personagem, o seu trirreme — sim, ele é seu e tem nome: Adrestia — pode ser melhorado com materiais e dracmas, muitas dracamas (prepare-se para gastar). Além de poder melhorar a estrutura e os adornos do Adrestia, também é possível aprimorar as habilidades dos arqueiros e lanceiros, fora as defesas e resistência de cada um deles. Outro aprimoramento interessante é que agora é possível recrutar inimigos derrotados para serem tenentes de sua tripulação, e cada um deles incrementa os atributos da embarcação de maneiras distintas.

Revisionismo histórico apurado

Poucas franquias da indústria do entretenimento utilizam o revisionismo histórico tão bem quanto Assassin’s Creed, e isso não podia ser diferente em Odyssey. O recurso consiste em reconter eventos históricos reais e inserir neles novos personagens e acontecimentos para criar uma narrativa fantasiosa.

Embora isso soe simplório, sobretudo a quem aspira escrever suas próprias fanfics, a verdade é que exige uma vasta pesquisa para aproveitar eventos, fatos e personagens históricos adequadamente dentro da narrativa proposta. Felizmente, a Ubisoft foi muito feliz nesse aspecto em Odyssey.

Como já falamos, o game se passa durante a Guerra do Peloponeso, conflito entre Atenas e Esparta que se arrastou por quase três décadas. Para ambientar o jogador, entretanto, logo no começo o título retrata a derradeira Batalha das Termópilas, aquela retratada pelo filme 300, com o jogador controlando Leônidas em meio ao conflito contra 10 mil soldados persas. Morto no combate, tudo o que restou do Leão de Esparta foi sua lança com o DNA de duas pessoas: Alexios e Kassandra.

Ao lado de seu irmão Alexios, Kassandra é uma das personagens que o jogador pode escolher para jogar Assassin's Creed Odyssey
Ao lado de seu irmão Alexios, Kassandra é uma das personagens que o jogador pode escolher para jogar Assassin’s Creed Odyssey (Captura de tela: Sergio Oliveira)

É a partir daí que Assassin’s Creed Odyssey se desenrola e fisga os que se interessam por História e pela Grécia Antiga. O jogo é competente e bem-sucedido não apenas em retratar e reproduzir locações, eventos e personagens históricos reais, como Péricles, Sócrates, Heródoto, Alcibíades e muitos outros, mas também ambientar e fazer o jogador se sentir parte de tudo aquilo. E grande parte desse mérito é devido ao seu personagem ser um mercenário.

Por não estar alinhado a nenhuma das cidade-Estado, você é livre para transitar tanto por Esparta quanto por Atenas. Graças a esse passe-livre você acompanha de perto não só as motivações de cada lado da história, mas também seus temores e algumas curiosidades. Um dos momentos que mais me marcou em minha jornada foi chegar a Atenas pela primeira vez e encontrar o centro civilizacional do Ocidente naquela época tomado pela tensão e receio de um ataque repentino de Esparta e uma população dividida entre seu líder Péricles e o demagogo Cléon. Aproveitando-se desse clima e lacunas históricas que envolvem esses personagens até os dias atuais, a Ubisoft cria algumas situações inusitadas, como a que o Pai da Democracia burla todo o sistema que ele próprio criou para salvar amigos de ataques pessoais ou até mesmo do ostracismo, fraudando votos ou armando contra seu próprio exército para isso

Por ser um mercenário, seu personagem acaba podendo transitar por toda a Grécia livremente e até mesmo frequentar festas da alta sociedade, como esta oferecida pelo líder ateniense Péricles
Por ser um mercenário, seu personagem acaba podendo transitar por toda a Grécia livremente e até mesmo frequentar festas da alta sociedade, como esta oferecida pelo líder ateniense Péricles (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Apesar disso e de podermos escolher nos aliar aos atenienses e mudar o curso da História, Assassin’s Creed Odyssey é certeiro em retratar desde costumes como um cumprimento pessoal daquela época (você acha que as pessoas apertavam as mãos há tantos anos?) às engrenagens que moviam toda a sociedade da Grécia Antiga. É o tipo de coisa que não só instrui e desperta a curiosidade de quem se interessa pelo assunto, como também demonstra o primor do vasto trabalho de pesquisa da produtora francesa.

Figuras importantes daquela época e da História ganham vida em Assassin's Creed Odyssey. Na imagem, Heródoto, o pai da história como a conhecemos hoje, é um dos que ajudam a mover a trama adiante
Figuras importantes daquela época e da História ganham vida em Assassin’s Creed Odyssey. Na imagem, Heródoto, o pai da história como a conhecemos hoje, é um dos que ajudam a mover a trama adiante (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Ambicioso, único e encantador

Obviamente que toda essa grandiosidade não está imune a erros. Como todo trabalho executado por humanos, Assassin’s Creed Odyssey carrega consigo alguns problemas, todavia nenhum deles é suficientemente grave a ponto de desabonar o game. A bem da verdade, os problemas são raros e bastante pontuais, como quando você está em uma missão por Esparta e mesmo assim é hostilizado e entra em combates contra seus soldados, mas não por sua iniciativa, e sim deles. A coisa é tão boba e rara de acontecer que a frustração não passa de um “Ué, o que está acontecendo aqui?”.

No fim das contas, o saldo é mais do que positivo. A introdução de novas mecânicas que tornam este Assassin’s Creed muitos mais um RPG de ação do que propriamente uma aventura foi muito bem executada. Já o retorno e melhoria de elementos antigos demonstra que a Ubisoft está trabalhando para não deixar a franquia repetir os erros do passado e aponta para um caminho diferente e promissor.

Assassin's Creed Odyssey é gigantesco e ambicioso, dois adjetivos que ele sustenta muitíssimo bem
Assassin’s Creed Odyssey é gigantesco e ambicioso, dois adjetivos que ele sustenta muitíssimo bem (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Pela vastidão de seu cenário, riqueza de detalhes e incontáveis horas de diversão, Assassin’s Creed Odyssey certamente é o mais ambicioso e encantador título de toda a série. Que siga nesta direção e nos apresente ainda mais novidades em seu próximo capítulo.

Assassin’s Creed Odyssey está disponível com menus, legendas e áudio totalmente em português para Xbox One, PlayStation 4 e PC. No Canaltech, o jogo foi analisado no Xbox One X com cópia gentilmente cedida pela Ubisoft.

via Canaltech

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