Como as empresas de fact-checking enfrentam o desafio da desinformação

Quando Joseph Pulitzer já era consagrado como um dos grandes nomes da imprensa mundial no final de 1800, talvez jamais imaginasse a produção jornalística sem a sua premissa básica: a checagem de fatos. Quase 100 anos após a morte do jornalista, uma organização chamada Politifacts, que se dedica exclusivamente a pesquisar a veracidade de informações, ganhava o prêmio que leva seu nome — hoje considerada a maior honraria do setor.

Tal prática desvinculada das redações é chamada de “fact-checking”, uma expressão emprestada do inglês que significa checagem de fatos. Como um termo autoexplicativo, é bem fácil entender do que se trata: a busca por verificar se uma informação veiculada em grande escala é ou não verdadeira.

No Brasil, atualmente são nove organizações exclusivamente dedicadas a dizer se algo é verdadeiro ou não, ou ao menos indicar escalas de veracidade. No mundo, são 161 no total. Contudo, ainda é pouco pela demanda. “A gente precisa construir um ‘exército’ de checadores. Estamos em 15 aqui na Lupa. Se você somar todo mundo que faz checagem profissional no Brasil, você não chega a 50. Então, não dá conta, né? A gente precisa realmente criar um grupo bem treinado, capacitado e isento, capaz de entender seu papel como jornalista”, acredita Cristina Tardáguila, diretora da agência Lupa, uma das principais agências de checagem de notícias do Brasil.

A prática de indicar uma pessoa, ou um grupo delas, exclusivamente, para a análise de informações em busca dos dados corretos não é exatamente recente. O primeiro relato do que se considera fact-checking data de 1991, com Brook Jackson, então jornalista da CNN. A ele foi dada a função de checar todas as falas dos candidatos à presidência dos Estados Unidos no processo que elegeu George W. Bush pai. “Ele falava: ‘eu tinha muito medo. Imagina você, dizer na cara do próximo presidente do seu país, que ele estava mentindo’. Depois de muito tempo, ele voltou a pensar sobre isso e chegou à conclusão de que essa é a verdadeira função do jornalismo: questionar aquilo que se mostra como verdade”, lembra Dulce Ramos, coordenadora de programas da International Fact-Checking Network (IFCN), maior rede de checagem de fatos em todo o mundo.

Dulce Ramos, coordenadora de programas da IFCN (Foto: Reprodução pessoal)

Ou seja, embora pareça mais recente, o movimento já tem ao menos 30 anos. Os órgãos desse tipo começaram a pipocar no meio da década passada, sendo que os institutos brasileiros só surgiram após 2010.

Por que fact-checking é necessário?

Sendo uma premissa do jornalismo, é de se suspeitar que toda redação deve ter sua própria capacidade de checar as próprias informações. Contudo, uma série de fatores recentes modificou esse cenário.

O primeiro foi a mudança repentina de modelo de negócio no jornalismo. Em 2005, um levantamento do Poynter Institute calculou que as empresas digitais passariam a crescer na casa dos 30%, contra 4% das mídias tradicionais. Isso na verdade não aconteceu. Em 2010, ambos setores amarguraram um crescimento de metade do registrado cinco anos antes.

Esse panorama gerou uma série de cortes em empresas, emissoras e outros negócios voltados à informação. Com isso, o grupo de jornalistas que antes tinha tempo para desenvolver e checar seu conteúdo, passou a produzir em maior quantidade e mais rápido. “Fact-checking é uma prática que exige muito tempo e persistência e isso é uma coisa que está em escassez nas redações brasileiras, infelizmente. Exige, sim, uma dedicação e uma obstinação que nem sempre a disputa da indústria nacional permite”, explica Cristina.

Segundo levantamento do VoltData Lab, desde 2012 já foram demitidos mais de 2.300 jornalistas em redações, com vagas que não serão repostas. No total, são 7.817 funcionários, contando com outras funções como diagramador, editor de vídeo e afins não diretamente ligados à redação.

Levantamento de demissões de jornalistas entre 2012 e 2018 (Fonte e arte: VoltDataLab)

Isso gerou duas consequências diretas. A primeira é a falta direta de tempo para checar com a informação, o que se agrava com a publicação online, que exige urgência na produção.

Em segundo lugar, para Dulce, o jornalismo se tornou mais declaratório e menos comprovador. Com 15 anos de experiência em jornais do México e observando casos na América Latina, ela acredita que as empresas têm cada vez mais dado voz a entrevistados, sem mesmo checar se as informações ditas são efetivamente verdadeiras.

“O jornalismo típico é reproduzir o que os políticos dizem. É muito comum. Por muitas razões. Porque é fácil, ou porque, em muitos países da América Latina, incluindo o México, a relação entre a imprensa e o poder está muito entrelaçada, de forma que não se pode informar livremente. Porque, às vezes, o seu melhor cliente é o governo, e você não vai dizer ‘mentiroso’ para o seu melhor cliente, ou você perde o seu melhor cliente. Então, é mais fácil fazer jornalismo entre aspas, declarativo, do que realmente se colocar a verdade, contrastar se o que um político disse é certo ou não. Só que isso leva tempo e esforço. E, às vezes, o repórter não tem tempo”, critica a coordenadora.

O mesmo sentimento tem Cristina em relação a como o jornalismo é feito nas redações, modelo cujos profissionais são chamados de “repórteres taquígrafos”. Ela levanta que a função do jornalista não é mais de dar voz a pessoas, mas ser um analista da informação, já que redes sociais e internet abriram novos canais para que os próprios leitores, ouvintes e espectadores ganhem voz por si só.

Terceirização do trabalho

A solução primeira, portanto, são as agências de checagem de fatos. A Lupa, por exemplo, funciona como um sistema de ferramenta externa ao jornalismo. Tal qual uma agência de notícias como várias outras, ela vende a sua informação para empresas interessadas em uma determinada apuração de forma rápida e confiável. “O fact-checking chega para complementar o que existe hoje no jornalismo. As redações têm que ser super rápidas, velozes, para alimentar seus onlines, seu Twitters, real time, full time. Enfim, eles têm que ser também profundos, spotlight, matéria de profundidade, apuração. Não tá dando tempo para os jornais, revistas, sites e rádios terem unidade de checagem própria”, explica.

Ela ainda enfatiza que toda checagem que sai no site da Lupa, como em qualquer outra agência, nunca é uma novidade, mas um produto que já foi divulgado por um veículo que “comprou” o conteúdo.

Contudo, esse não é o único modo com que a checagem de fatos pode ser usada. Segundo Dulce, há movimentos em todo o mundo, de pessoas que passaram a buscar fontes confiáveis e oferecer dados em suas plataformas, única a exclusivamente, porque não havia empresas de mídia que fizessem isso. “Por exemplo, na Itália, um diretor da IFCN era, alguns anos, editor de um site italiano chamado Pagella Política. Ele foi criado por jovens que tinham estudado distintas disciplinas, como economia e ciências sociais, e se deram conta de que o jornalismo na Itália precisava de um certo balanço. E a produção de jornalismo estava reproduzindo o que os políticos diziam e não se davam ao trabalho de entender se era certo o que eles diziam, se era exagerado, e como estavam lidando com o dados. Isso quer dizer que as checagens de fatos em todo o mundo estão ligadas ao jornalismo, e outras ligadas a uma resposta contra uma falha do jornalismo”, explica Dulce.

No comando da IFCN, uma organização que procura discutir e montar diretrizes mostrando como empresas de checagem de fatos devem trabalhar em todo o mundo, Dulce explica que tais veículos precisam ter quatro pontos principais.

 

O primeiro é o comprometimento em não ser ligado a nenhuma instituição partidária ou governamental, de forma a não concentrar a checagem de fatos apenas em “um dos lados das histórias”.

Segundo, é imprescindível o comprometimento com a transparência sobre as fontes. Para uma instituição de fact-checking, é crucial que os leitores tenham capacidade de revisar os dados apresentados ali, fazer a mesma análise que o checador para, então, chegar ao mesmo resultado. “Isso faz parte de algo muito simples. Quando alguém perguntar: ‘quem checa os checadores?’ a resposta tem que ser, obrigatoriamente, ‘qualquer um’”, aponta a coordenadora. Por isso, precisa deixar bem clara qual é a sua metodologia para quem consome aquele conteúdo.

Terceiro, o órgão precisa apresentar de forma clara em sua plataforma como é financiado e organizado.

E por fim, a premissa é de que seja comprometido em apresentar correções de forma aberta e honesta, o mais rápido possível, quando um erro for descoberto.

É só querer?

Um dos problemas para o trabalho de checagem de fatos não é somente a falta de tempo ou mesmo de pessoas capacitadas para isso, mas enfrenta algo maior: a disposição de dados.

O Brasil tem a Lei de Acesso à Informação (LAI), criada em 2012, com objetivo de garantir que qualquer cidadão possa pedir um dado público, com retorno em até 20 dias. Contudo, nem sempre isso é possível.

Cristina explica que esta é a principal ferramenta do trabalho do checador. Ela cita o levantamento de informações para a produção de “lives”, quando informações são checadas em tempo real durante um debate, por exemplo.

“Na época da pré-candidatura, a gente achou que a Manuela d’Ávila era uma das pré-candidatas. A gente foi atrás do programa da Manuela, buscamos quais eram as bases de dados que existem sobre ela. Ou seja, tudo sobre Manuela antes do pleito efetivamente começar. Isso lá atrás. A conclusão foi de que Manuela d’Ávila iria usar muita coisa do Flávio Dino, talvez, o maior governo do partido. Logo, a gente precisava correr atrás de muitos dados sobre o Maranhão. Então, a gente entrou com um monte de pedido de Lei de Acesso no Maranhão para saber sobre saúde no Maranhão, sobre educação no Maranhão, sobre tudo. Porque a gente chutou. É chute, pode ser que ela não use nada daquilo no debate”, conta Cristina.

Entretanto, o Brasil e, segundo Dulce, a América Latina como um todo, enfrentam um problema de falta de transparência nestes dados. Uma reportagem recente do jornal A Tribuna mostra que na região da Baixada Santista, por exemplo, várias cidades como Bertioga, Mongaguá, Peruíbe e São Vicente nem sequer responderam ao pedido do veículo.

Outro levantamento de 2017, da agência Artigo 19, indica que houve avanços no acesso, mas a Lei ainda passa por problemas, sobretudo por ter sido aplicada sem uma organização de quais setores fariam este trabalho. Isso faz com que ela seja muito eficiente em alguns casos, mas completamente falha em outros. “Essa heterogeneidade da aplicação da LAI é decorrente, entre outras razões, da ausência de um órgão nacional independente e especializado de monitoramento da lei, que exerça as funções de controle, acompanhamento e promoção em todas as esferas e órgãos que estão sob sua jurisdição. Na falta deste órgão nacional único, os organismos de controle existentes descentralizados em cada órgão público, como as controladorias e ouvidorias, têm assumido essa função, fator decisivo no sucesso da aplicação da LAI em muitos casos”, conclui a agência no trabalho chamado Cinco Anos da Lei de Acesso à Informação.

A solução, segundo Dulce, é então buscar pessoas próximas, estudiosos e pesquisadores dispostos a correr atrás dos fatos.

Desafio das fake… ops! Da desinformação

O leitor mais atento deve ter percebido que o termo fake news não apareceu neste texto até este momento. Isso por conta de um conceito instituído e difundido entre os checadores fatos de que a expressão, talvez, já não seja capaz de dar conta do que de fato ela representa.

Para Dulce, fake news ganhou conotações muito além das notícias falsas. “Ela pode ser sátira. Ela pode ser uma informação certa, inclusive factual, mas que não agrada a nenhum político, algo que não favorece, e por isso ele chama de fake news. Ela pode ser uma imagem alterada, e também pode ser uma imagem certa, mas fora de contexto. Ou seja, uma meia verdade”, explica.

Por isso, a organização prefere trabalhar com o termo desinformação. Uma palavra formada pelo prefixo “des”, que significa “falta”. Ou seja, não basta apenas entender se uma informação é correta ou não, mas também como ela chega ao leitor, ouvinte ou espectador.

Dito isso, como combater a desinformação? Para Cristina, o caminho passa por educação, aliada a tecnologias da informação, legislação e apoio de empresas privadas, como as de apps mensageiros. Ela compara a situação atual com os problemas de spam na década de 1990.

Na época, com o surgimento do e-mail, usuários eram bombardeados com mensagens sobre os mais diversos assuntos, desde viagens de graça à pronografia. Isso fez com que muitas pessoas, não acostumadas ainda com a novidade, clicassem em links suspeitos e caíssem em golpes. Tal problema, segundo Cristina, foi solucionado em conjunto com três grupos.

O primeiro foi a mídia, em mostrar que o problema existia e que várias pessoas estavam sendo vítimas de golpes. “Ou seja, um processo de educação, de alerta, aviso mesmo”, aponta Cristina.

O segundo passou a ser um processo legal, quando o Legislativo decidiu que a prática do spam era permitida desde que se desse ao leitor da mensagem a opção de nunca mais receber aquele conteúdo.

Por fim, houve um apoio de empresas que prestavam esse serviço em parceria com tecnologias da informação. “Juntou Google, Yahoo, todas elas — e criaram aquela caixa de spam. Então, toda porcaria de spam cai no espaço de spam e você mal vê. Então mal ou bem, solucionou o problema. Isso tudo permeado com muita educação, as pessoas entenderam o processo de educação digital para identificar o problema e, assim, entenderam que produzir spam e distribuir spam é ruim, é perigoso”, finaliza.

Para ela, o processo para a desinformação é o mesmo. Vai exigir uma união conjunta entre empresas interessadas em combater essa disseminação de notícias falsas, atrelada a um processo de educação e automatização do reconhecimento das notícias falsas.

Educação

Para fazer com que as pessoas tenham mais conhecimento sobre como reconhecer quando uma notícia falsa é enviada, a Google criou uma programa chamado “Be Internet Awesome” (“Faça a internet incrível”, em tradução literal). A ideia é criar uma série de jogos e outros conteúdos atrativos a crianças para conscientizar sobre pensamento crítico e como lidar com informações que chegam até elas.

Os alunos navegam por um mundo mágico vendo situações em que pessoas tiveram problemas com informações incorretas e são instigadas a ajudar estas pessoas.

A própria Lupa tem iniciativas nesse sentido. Ela criou em 2017 o projeto Lupa Educação, uma iniciativa para capacitar mais jovens e profissionais interessados em comunicação sobre como podem fazer a checagem de fatos.

Automatização

Outra vertente também em desenvolvimento para a checagem da informação são projetos com objetivo de automatizar o reconhecimento de notícias falsas de forma automática, tal qual uma caixa de spam faz nos e-mails.

Em outubro, a Google atualizou o seu app de notícias passando a dar mais informações se aquele conteúdo é ou não confiável. Outros pesquisadores, como Bill Aldair, editor do PolitiFacts, citado no início deste texto, também encabeça uma série de pesquisas para criar um mecanismo de automação. Contudo, não é tão simples assim “Não deveríamos nos surpreender se conseguirmos chegar muito perto, mas nunca alcançaremos o "santo graal" da automatização da checagem. Um verificador de fatos totalmente automatizado pede avanços fundamentais em múltiplas frentes e, eventualmente, exige uma forma de inteligência artificial”, informa o jornalista.

Em 2012, eles passaram a testar uma ferramenta chamada ClaimBuster, um mecanismo que buscava dar uma nota de veracidade entre 0 e 1 para uma informação, sendo 1 o mais próximo de ser verdadeira. O principal desafio, informa Aldair, é que um dado não existe sozinho no espaço, mas é entregue em contexto e, por isso, pode ter níveis de veracidade tão voláteis. “A verdade não é bem uma ciência exata”, ele brinca.

Recentemente, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) criou um robö para o WhatsApp capaz de informar se um texto na plataforma é verdadeiro ou não. A verificação de notícia verdadeira ou falsa não passa pela checagem humana, exatamente para não gerar um viés. Para isso, o grupo usou técnicas de machine learning para “ensinar” o bot a diferenciar os dois tipos de informação. Ao todo, foi utilizado um banco de dados de mais de 7 mil notícias verdadeiras e falsas para criar o mecanismo.

Apoio de empresas

Última vertente citada por Cristina, as empresas também buscam correr atrás de tornar suas plataformas livres de mentiras. Há menos de uma semana, o Facebook lançou um balanço de contas e páginas removidas por conta de atividades ilegais relacionadas à desinformação. Desde junho, foram 280 páginas e 229 contas retiradas da rede social por propagação de notícias falsas.

via Canaltech

Publicado por Carlos Trentini

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