Análise | Thronebreaker tem o coração de um blockbuster digno de Jogo do Ano

Quando o Canaltech foi convidado a experimentar o primeiro ato de Thronebreaker: The Witcher Tales, em setembro, saímos da ocasião com água na boca. Pudera: ambientação no universo da franquia The Witcher, mas com enredo, personagens, visual e jogabilidade totalmente originais… Fomos acometidos por um misto de empolgação e apreensão, haja vista o apreço que alguns membros da equipe têm pela marca.

Eis que, finalmente, o jogo foi oficialmente lançado para PC (via GOG) e pudemos testá-lo em toda a sua glória, novamente vestindo a armadura da Rainha Meve, soberana dos reinos gêmeos de Lyria e Rivia, que, após voltar de um comitê de regentes e lordes, encontra suas terras em frangalhos, com bandidos e monstros espalhados por cenários magníficos em 3D aquarelado. Para piorar, Vossa Majestade ainda deve lidar com o exército negro de Nilfgaard nos solavancos de suas portas, ensaiando uma invasão em massa.

Gameplay

Pouca coisa mudou nesta análise em relação à nossa prévia: o foco de toda a mecânica de jogo de Thronebreaker ainda é a batalha em cartas, mas é importante não enxergar isso como um trabalho simplista — na trilogia original de The Witcher, o jogo de cartas Gwent representa nações em guerra; em Thronebreaker, as nações em guerra é que representam o jogo Gwent.

Explicando: dentro do universo protagonizado pelo bruxo Geralt de Rivia (The Witcher), Gwent é um passatempo, com regras fixas e estratégias que, embora complexas, funcionam mais ou menos de forma similar na maioria das partidas. Não muito diferente de outros exemplos dos jogos, como o Triple Triad de Final Fantasy 8. Em outras palavras, é uma caixinha fechada.

Todas as artes foram desenhadas pelos mesmos artistas que atuaram na trilogia original Witcher, mas trazem um estilo próprio e igualmente cativante (Captura de imagem: Rafael Arbulu)

No caso de Thronebreaker, a mudança é uma dinâmica constante. Não basta apenas pontuar mais que o seu adversário pois há embates em que regras específicas devem ser obedecidas: virar cartas específicas no baralho inimigo, assegurar a sobrevivência ou a morte de um personagem no deck, usar uma habilidade específica por um número específico de vezes — tudo isso reverbera bem com tamanho impressionante que Thronebreaker anseia ter. Conhecer as mecânicas de progressão das lutas e estratégias de combate não mais o colocam à frente de um oponente: isso tudo passou a ser necessário!

Isso nos leva a situações um pouco irritantes a princípio, como batalhas onde a sua desvantagem é tão grande que parecem até não oferecerem saída até você encontrar “aquela” estratégia para seguir em frente.

Adicione a tudo isso a navegação isométrica em visão “olho-de-pássaro” (ou seja, você controla os movimentos de Meve pelo clique em partes do mapa e acompanha tudo em uma visão elevada, “do céu”) e a coleta de recursos como ouro, madeira e recrutas (necessários para criar novas e mais poderosas cartas, bem como aprimorar o seu acampamento), E Thronebreaker oferece muita coisa para se fazer em suas aproximadas 30 horas de jogo.

É possível interagir com personagens-chave em seu acampamento, aprendendo mais sobre a história de Thronebreaker, tal qual um autêntico RPG (Captura de imagem: Rafael Arbulu)

Enredo

Algo que não ficou claro em nossa prévia foi o enredo. Embora fosse relativamente empolgante, por tratar-se mais de uma nova entrada na franquia The Witcher do que qualquer outra coisa, à medida que evoluíamos na partida, o jogo, que estava em pura ascendência, estagnava. Do meio para o final do primeiro ato, Thronebreaker entrava em uma constante que não decepcionava, mas também não empolgava.

Rapaz, o quão errado nós estávamos.

Do segundo ato para frente, quando a trama se desenrola de fato, Thronebreaker torna-se, com o perdão do uso do meme, um “eita atrás de eita”. Pense no primeiro ato como um prólogo, para você se aclimatar às mecânicas de exploração, jogo e diálogo. Quando a imersão no jogo for mais profunda, o segundo ato vem e vira tudo em cima de você.

VIDEO

O foco na moralidade se faz muito presente por toda a história, forçando o jogador a tomar decisões que, comumente, beiram entre a opção ruim e a opção pior. Uma que merece destaque nos fez passar pelo save duas vezes apenas para aferir os resultados: um bando de soldados seus está preso a uma árvore. Você pode escolher afastar-se da árvore, o que o levaria a seguir seu caminho incólume, mas com uma leve redução do seu já diminuto exército; ou tentar ajudá-los, apenas para cair em uma armadilha dos elfos Scoia’tael, que queimam a árvore com seus soldados ainda presos nela e iniciam uma batalha de Gwent particularmente chata. Decisões assim, onde você escolhe entre um pequeno prejuízo ou se complicar bastante, estão espalhadas por todo o jogo.

O diálogo também é bem trabalhado, ora transitando por pequenas animações desenhadas no mesmo estilo dos quadrinhos (em painéis estáticos, com voz do narrador), ora com uma caixa de diálogo na parte debaixo da tela, com os dois personagens da conversa posicionados nas laterais. Seja como for, a conversa, desde a troca de farpas até a exaltação de um reino ou o carinho de pais pelos filhos, é cheia de senso de humor e impacto emocional de corar de inveja qualquer drama.

Monstros icônicos, como trolls, também estão presentes e se apresentam em fiel semelhança a série The Witcher. Dica: há um troll que você pode ajudar logo no primeiro ato do jogo; ele será útil mais para frente (Captura de imagem: Rafael Arbulu)

Visual e efeitos

Aqui é onde Thronebreaker se destaca brilhantemente. Há quem pense que a progressão via clique (a exemplo de qualquer jogo de estratégia mais antigo dos PCs) tornaria a visão do mapa enfadonha. É muito terreno para se explorar, com várias saídas e buscas alternativas e side quests. Diante disso, apreciar o visual poderia tornar-se enfadonho e entediante.

“Poderia”, mas não é o caso. A CD Projekt Red fez um excelente trabalho em criar elementos de variação que direcionam a atenção do jogador para onde ela deve ir: os tons em pastel do primeiro ato são comumente quebrados por uma cidade em brasas ou uma névoa de um cemitério amaldiçoado. Mais além, se um golem aparece em seu caminho, ou pedras deslizam de encostas, ou soldados inimigos berram e se jogam contra as suas paredes, você percebe. Tudo isso por meio de flutuações de áudio e indicadores visuais que acabam levando os seus olhos para um lugar específico na tela. Nada cansa, tudo muda — e você não se sente perdido no meio de tanta coisa.

As cartas em si são um show à parte, com cada uma devidamente ilustrada e descrita e algumas delas — generais, personagens icônicos e cartas mais raras — até possuem uma animação que as destacam em decks majoritariamente formados por unidades genéricas. Aliás, mesmo as genéricas possuem o seu charme, com entradas de áudio dubladas a cada vez que são usadas. Complementam-se a isso os efeitos de névoa, fogo e gelo das fileiras de combate nas partidas de Gwent. Dá gosto de ver.

Os visuais não cansam aos olhos mesmo em mapas tão extensos: sempre há uma variância nos elementos para alterar a percepção do jogador e progredir a partida (Captura de imagem: Rafael Arbulu)

Conclusão

Thronebreaker: The Witcher Tales é um jogo que parece pequeno, mas tem o coração de um blockbuster. É um outro acerto da CD Projekt Red, além de um atestado de ousadia da produtora polonesa, que não tem medo de experimentar para trazer experiências únicas aos jogadores. Arriscamos dizer que, não fossem outras produções maiores em 2018, este seria um candidato a diversas categorias nas premiações dos melhores jogos do ano. O Canaltech, por política editorial, não dá “notas” nas análises, mas aqui temos, em definitivo, um jogo nota 10.

Thronebreaker: The Witcher Tales está disponível para PC via GOG. Uma versão para Xbox One e PlayStation 4 está agendada para ser lançada em 4 de dezembro. No Canaltech, o jogo foi analisado com cópia gentilmente cedida pela CD Projekt Red.

via Canaltech

Publicado por Carlos Trentini

Eu, eu mesmo e eu, agora e nas horas vagas...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *