Cacatuas atraem parceiros com solos de bateria

Você já dedicou canções românticas para seus pretendentes? Não?

Bom, depois não adianta reclamar que você não dá sorte no Tinder. Biólogos acabam de descobrir que até as cacatuas tocam música para atrair parceiros sexuais. No caso, algo bem menos careta que Odair José: solos de bateria. Usando sementes ou galhos, elas criam um padrão rítmico decorado com floreios e viradas, que cada indivíduo faz à sua própria maneira.

A equipe de Robert Heinsohn, da Universidade Nacional da Austrália, analisou 131 sequências rítmicas produzidas por 18 machos. Sob observação, eles conseguiram produzir até 92 batidas seguidas sem perder o balanço. Isso equivale a um pouco mais de 20 compassos – um verso de Stand by Me tem oito. Além do ritmo em si, os pássaros também agitavam as penas e produziam sons, como uma banda de um bicho só.

“Nós mostramos que a Cacatua-das-palmeiras (Probosciger aterrimus) apresenta os rudimentos essenciais da música instrumental humana”, afirmam os pesquisadores no artigo científico, publicado na Science. “Eles incluem a fabricação da ferramenta que produz o som, a performance em um contexto consistente, a produção regular de batidas, os componentes repetitivos e os estilos individuais.”

Só falta o animal pedir para os espectadores deixarem uma moeda no ninho chapéu.

A descoberta é mais que uma mera curiosidade. A existência de animais que também gostam de padrões rítmicos indica que a música, mais que uma criação cultural, pode ter raízes evolutivas. Segundo Heinsohn e sua equipe, as cacatuas parecem pensar como bateristas: sentem uma espécie de pulso interno, e então geram uma resposta motora capaz de produzí-lo.
A origem da música é um mistério para psicólogos e neurocientistas que usam a teoria da seleção natural de Darwin para explicar o desenvolvimento de comportamentos básicos na nossa espécie. Chegou a ser descrita como um “cheesecake auditivo” por Steven Pinker – que a entende como uma sobremesa saborosa, capaz de estimular sensações prazerosas, mas sem utilidade prática para a sobrevivência dos nossos antepassados.
A afirmação polêmica foi duramente rebatida por especialistas que entendem as artes como peças essenciais do desenvolvimento emocional e intelectual do ser humano. “É bem provável que pessoas criadas sem exposição a música, artes plásticas ou literatura fiquem psicológica e emocionalmente ‘atrofiadas’ (…)”, afirmou em resposta Joseph Caroll, crítico literário famoso por aplicar a teoria da evolução às artes. “Elas provavelmente teriam grande dificuldade em aprender a lidar com suas próprias emoções ou a se identificar com outras pessoas. Sua capacidade de responder de forma criativa às demandas de um ambiente cultural complexo (…) seriam severamente afetadas.”
No começo deste ano, uma teoria curiosa uniu o melhor dos dois mundos. Max Krasnow, pesquisador de Harvard, propôs que as mães da pré-história, incapazes de carregar seus filhos no colo o tempo todo, cantavam para agradá-los e dar a sensação de que eles estão protegidos enquanto desempenhavam outras atividades domésticas.
Pinker, que também é professor de psicologia na universidade norte-americana, deu apoio à especulação. “No passado, todo mundo ficava tão ansioso para encontrar uma explicação adaptativa para a música que surgiram teorias circulares, como a de que ela teria evoluído para unir grupos”, afirmou ele na época. “Essa explicação é a primeira que se encaixa com a evolução, demonstrando como a música pode melhorar a sobrevivência e aptidão de uma espécie. Isso não basta para provar que é verdade, mas pelo menos faz sentido.”
As cacatuas bateristas, portanto, são mais um passo da busca da ciência por uma utilidade prática para a música. É claro que, na sociedade contemporânea, nenhuma arte precisa (ou deve) ter um objetivo além de sua própria fruição. Mas produzir sons é uma atividade que exige grande inteligência e habilidade técnica do ser humano, e nós não dedicaríamos tanta energia a uma atividade se não houvesse um bom motivo para isso.

via Superinteressante

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