A Copa dos separatistas

É domingo, faz sol e o estádio Dynamo, recém-reformado, está lotado. Oito mil pessoas se apertam em suas duas arquibancadas, quase o dobro da capacidade. Quem está de fora escala o muro do estádio e se espreme pelas grades que o cercam. As duas seleções pisam no gramado, que parece um tapete (e é mesmo, de grama sintética). A seleção do Panjab, um território que fica entre a Índia e o Paquistão, vai enfrentar o time da casa: a Abkhazia, uma nação de 200 mil habitantes que fica entre a Geórgia e a Rússia – e foi um dos motivos da guerra entre as duas, em 2008.

Toca o hino de Panjab, uma batida tecno de má qualidade, mas que faz sucesso com os fãs de música eletrônica presentes. Depois vem o hino da Abkhazia, com melodia soviética e letra bem bélica (“Marchem, marchem/Derramem nosso sangue pela Abkhazia/pela independência”). Os jogadores se viram para a bandeira do país, e os torcedores fazem o mesmo – inclusive os que estavam sentados no muro do estádio, que com comovente esforço dão um jeito de se equilibrar em pé. O clima de nacionalismo é arrebatador. Bem ao lado do estádio, dá para ver as ruínas do palácio do governo, parcialmente destruído. O juiz apita. Vai começar a grande final. Estamos na cidade de Sukhumi, a capital da Abkhazia. Ela se declarou independente da Geórgia em 1992, suportou ataques militares e conseguiu sua autonomia, mas só é reconhecida como país por quatro países (Rússia, Nicarágua, Venezuela e a República de Nauru, na Micronésia). No começo de junho, a Abkhazia sediou a Copa de Futebol do Mundo, um evento organizado pela ConIFA: a Confederação de Associações de Futebol Independente, entidade criada em 2013 nos mesmos moldes da Fifa, só que reunindo as seleções de futebol de territórios, grupos e países separatistas, não reconhecidos pela ONU. Mas o que é preciso, afinal, para um lugar ser reconhecido e poder chamar a si mesmo de país? É muito, mas muito mais difícil do que parece.

Nações desunidas

A definição moderna de “país” surgiu na Convenção Internacional de Montevidéu, de 1933. Para ser reconhecido como tal, um local precisa ter quatro coisas: território definido, população permanente, governo próprio e relações diplomáticas com outros países. Parece bem claro. Mas, na prática, nem sempre é exatamente assim. O Vaticano tem território minúsculo e população idem (800 pessoas, das quais 450 têm cidadania vaticana), mas é aceito como nação independente. A Bélgica ficou quase dois anos sem governo, entre 2010 e 2011, e nem por isso deixou de ser considerada uma nação. O território também é algo relativo: atualmente, há mais de cem áreas em disputa no mundo. Até o Brasil tem pendências territoriais, como a Ilha Brasileira, localizada no Rio Quaraí e atualmente disputada entre Brasil e Uruguai. Por tudo isso, as relações diplomáticas acabam sendo o critério que mais conta na hora de definir o que é ou não país. Se você quer ser um país, a chave é ser reconhecido por outros países. E isso acontece na ONU.

Mas ser aprovado lá é um processo dificílimo. Primeiro você apresenta um pedido formal e se compromete a seguir as regras da ONU. Beleza. Mas daí o processo vai para um conselho de segurança, composto por 15 países, onde você precisa de pelo menos nove votos a favor – e não pode ser vetado por nenhum dos membros permanentes do conselho (China, EUA, França, Rússia e Reino Unido). Se passar, o pedido é votado na assembleia geral da ONU, onde é necessário obter dois terços dos votos dos 193 países representantes. Imagine o grau de convencimento e lobby necessários, nos quatro cantos do mundo, para conseguir isso. É tão difícil que até países praticamente estabelecidos, como Hong Kong, Kosovo e Taiwan, ainda não são reconhecidos pela ONU. Muitas nações acabam ficando no limbo. Na Olimpíada do Rio, mês passado, havia vários deles: Porto Rico, Guam, Aruba e Ilhas Cayman, que não estão na lista da ONU, mas competiram nos Jogos. O Comitê Olímpico Internacional é um pouco mais camarada do que a ONU: reúne 206 nações. E a Fifa, com 211, também. Mas há povos e territórios que não conseguem entrar nem nesses grupos. Aí, a saída é a ConIFA.

Nela entra praticamente qualquer um. “Nossa única preocupação é que os jogadores se identifiquem de coração com as camisas que estão vestindo, com a nação que representam”, diz o alemão Sascha Düerkop, secretário-geral da ConIFA. A Copa deste ano foi a segunda (a primeira edição aconteceu em 2014, na Lapônia), e reuniu 12 seleções – em sua maioria, formadas por jogadores amadores, que pagam as próprias despesas de viagem. A seleção da Padânia, um território do norte da Itália que luta por autonomia política, era um bom exemplo disso. Mesmo com toda a tradição futebolística da Bota, ela quase só tinha amadores. “Aquele ali é cabeleireiro, o outro trabalha na construção civil e o rapaz de bigode é delegado da cidade onde mora”, diz Matteo Prandelli, um dos poucos profissionais do time. “E nós moramos em cidades diferentes, então é difícil treinar juntos.” Apesar disso, a Padânia não deu vexame: ficou em quarto lugar, logo atrás do Chipre do Norte – mesmo país do juiz que apitou a final entre Abkhazia e Panjab.

Virada milagrosa

O jogo começou amarrado, com os times se estudando. Até que, aos 12 minutos do segundo tempo, Amar Purewal abriu o placar para o time do Panjab. A torcida local ficou perplexa, em silêncio. Até que, faltando dois minutos para o fim da partida… goooooooool da Abkhazia! A torcida enlouqueceu – e enfureceu o chefe de segurança, que corria ferozmente atrás de alguns torcedores que invadiram o campo para comemorar.

Com o empate, a decisão foi para os pênaltis. Os dois times acertaram a primeira cobrança. Mas aí a Abkhazia errou duas em seguida. Tudo estava perdido, ou quase. A Abkhazia precisava acertar as duas cobranças que faltavam, e rezar para o Panjab errar ambas. Mas os deuses do futebol pareciam estar do lado abkházio. O time conseguiu virar. E quando o atacante Vladimir Argun converteu a última cobrança, garantindo a vitória aos donos da casa, não houve segurança que conseguisse conter a torcida. No gramado, torcedores se enrolavam em bandeiras e davam a volta no campo junto com os jogadores. Uma velhinha carregava uma bandeira da Abkhazia em uma mão e uma foto de Vladislav Ardzinba, com a inscrição “nosso presidente”, na outra. Depois da guerra com a Geórgia, Ardzinba assumiu uma posição de liderança, e foi considerado pela população o primeiro presidente da Abkhazia. Depois do jogo, o primeiro-ministro Artur Mikvabia fez um discurso empolgado e decretou feriado nacional no dia seguinte. A Abkhazia era campeã do mundo. Pelo menos, do seu próprio mundo – o dos povos que querem ter, mas ainda não conquistaram, o direito de ser um país.

Algumas semanas depois da vitória, a Abkhazia fez um pedido formal para entrar na Fifa. A imprensa local perguntou ao primeiro-ministro se o país aceitaria disputar um amistoso contra a seleção da Geórgia. Mikvabia foi categórico: “Se eles reconhecerem a nossa independência, eu não vejo nenhum problema”. O esporte, afinal, nunca é apenas esporte. É um espelho da política.

Seleções separatistas

Elas têm em comum as histórias de luta – mas nem todas são boas de bola

1. Chipre do Norte

Porção norte da Ilha de Chipre, com 300 mil habitantes. Declarou independência em 1983, sem muito êxito (só a Turquia, sua vizinha, o reconhece). Bom de bola, seu time é famoso por ter aplicado massacrantes 15×0 na seleção de Darfur (Sudão). Ficou em terceiro na ConIFA.

2. Curdistão

Região no norte do Iraque com 28 milhões de curdos. Não se dá com o governo central e quer fazer um plebiscito de independência este ano (já tentou em 2014). Na copa separatista, perdeu nas quartas-de-final, nos pênaltis, para a Padânia (leia mais no texto ao lado).

3. Padânia

Parte mais rica da Itália, com 34 milhões de habitantes distribuídos por 14 regiões no norte do país. Sua autonomia foi proposta nos anos 1970 pelo deputado Guido Fanti, e hoje é defendida pelo partido político Lega Nord. O time ficou em quarto lugar na ConIFA.

4. Sápmi

Representa os Sami, povo indígena da Lapônia (região que cobre pedaços de Rússia, Finlândia, Suécia e Noruega). Tem atletas de alto nível: chegou a ceder quatro jogadores para a seleção oficial da Noruega. Foi eliminada da ConIFA nas quartas-de-final, pela Abkhazia, por 2×0.

5. Somalilândia

Região no norte da Somália com governo e moeda próprios e 25 anos de independência autodeclarada. Mas que, apesar disso, não é reconhecida por nenhum país. Disputou dois jogos na ConIFA e perdeu ambos por 5×0. Mas o carisma dos jogadores conquistou o público.

6. Raetia

Província romana conhecida pela fúria em combate – mas hoje parte da pacífica Suíça. O time existe desde 2011 e é fraquinho, com quatro vitórias, nove derrotas e um empate em jogos internacionais. Saco de pancada da ConIFA, goleado por Padania (6×0) e Chipre do Norte (7×0).

Seleções separatistas

Elas têm em comum as histórias de luta – mas nem todas são boas de bola

1. Chipre do Norte

Porção norte da Ilha de Chipre, com 300 mil habitantes. Declarou independência em 1983, sem muito êxito (só a Turquia, sua vizinha, o reconhece). Bom de bola, seu time é famoso por ter aplicado massacrantes 15×0 na seleção de Darfur (Sudão). Ficou em terceiro na ConIFA.

2. Curdistão

Região no norte do Iraque com 28 milhões de curdos. Não se dá com o governo central e quer fazer um plebiscito de independência este ano (já tentou em 2014). Na copa separatista, perdeu nas quartas-de-final, nos pênaltis, para a Padânia.

3. Padânia

Parte mais rica da Itália, com 34 milhões de habitantes distribuídos por 14 regiões no norte do país. Sua autonomia foi proposta nos anos 1970 pelo deputado Guido Fanti, e hoje é defendida pelo partido político Lega Nord. O time ficou em quarto lugar na ConIFA.

4. Sápmi

Representa os Sami, povo indígena da Lapônia (região que cobre pedaços de Rússia, Finlândia, Suécia e Noruega). Tem atletas de alto nível: chegou a ceder quatro jogadores para a seleção oficial da Noruega. Foi eliminada da ConIFA nas quartas-de-final, pela Abkhazia, por 2×0.

5. Somalilândia

Região no norte da Somália com governo e moeda próprios e 25 anos de independência autodeclarada. Mas que, apesar disso, não é reconhecida por nenhum país. Disputou dois jogos na ConIFA e perdeu ambos por 5×0. Mas o carisma dos jogadores conquistou o público.

6. Raetia

Província romana conhecida pela fúria em combate – mas hoje parte da pacífica Suíça. O time existe desde 2011 e é fraquinho, com quatro vitórias, nove derrotas e um empate em jogos internacionais. Saco de pancada da ConIFA, goleado por Padania (6×0) e Chipre do Norte (7×0).

Seleções separatistas

Elas têm em comum as histórias de luta – mas nem todas são boas de bola

1. Chipre do Norte

Porção norte da Ilha de Chipre, com 300 mil habitantes. Declarou independência em 1983, sem muito êxito (só a Turquia, sua vizinha, o reconhece). Bom de bola, seu time é famoso por ter aplicado massacrantes 15×0 na seleção de Darfur (Sudão). Ficou em terceiro na ConIFA.

2. Curdistão

Região no norte do Iraque com 28 milhões de curdos. Não se dá com o governo central e quer fazer um plebiscito de independência este ano (já tentou em 2014). Na copa separatista, perdeu nas quartas-de-final, nos pênaltis, para a Padânia.

3. Padânia

Parte mais rica da Itália, com 34 milhões de habitantes distribuídos por 14 regiões no norte do país. Sua autonomia foi proposta nos anos 1970 pelo deputado Guido Fanti, e hoje é defendida pelo partido político Lega Nord. O time ficou em quarto lugar na ConIFA.

4. Sápmi

Representa os Sami, povo indígena da Lapônia (região que cobre pedaços de Rússia, Finlândia, Suécia e Noruega). Tem atletas de alto nível: chegou a ceder quatro jogadores para a seleção oficial da Noruega. Foi eliminada da ConIFA nas quartas-de-final, pela Abkhazia, por 2×0.

5. Somalilândia

Região no norte da Somália com governo e moeda próprios e 25 anos de independência autodeclarada. Mas que, apesar disso, não é reconhecida por nenhum país. Disputou dois jogos na ConIFA e perdeu ambos por 5×0. Mas o carisma dos jogadores conquistou o público.

6. Raetia

Província romana conhecida pela fúria em combate – mas hoje parte da pacífica Suíça. O time existe desde 2011 e é fraquinho, com quatro vitórias, nove derrotas e um empate em jogos internacionais. Saco de pancada da ConIFA, goleado por Padania (6×0) e Chipre do Norte (7×0).

via Superinteressante

Publicado por Carlos Trentini

Eu, eu mesmo e eu, agora e nas horas vagas...

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