Sete documentários incríveis escondidos na Netflix

(Real or Magic/Reprodução)

Real or Magic

David Blane pede para uma mulher vendar os olhos. Então toca nos ombros do marido dela, que está bem ali na frente. E ela sente o toque, por “telepatia”. Esse é um dos vários truques do mágico mais famoso do mundo. Esse tipo de ato, porém, sempre carrega um peso: a falta de credibilidade. Afinal, tudo pode ser só armação. Mas aqui Blane não deixa espaço para esse tipo de interpretação, já que que os voluntários neste doc são basicamente as maiores celebridades do mundo. O truque do toque nos ombros, por exemplo, acontece com Will Smith, sob o testemunho estupefato da família toda do sujeito. Em seguida, vem uma torrente de mágicas, agora com Woody Allen, Robert de Niro, Harrison Ford, Stephen Hawking… Gente que nunca, jamais, nem sob tortura, participaria de uma armação. Destaque para a cena em que Blane rouba o relógio de George W. Bush sem que nem ele nem seu séquito de assessores percebam, e depois mostra as imagens do furto em câmera lenta.

 

(Man vs Snake/Reprodução)

Man Vs Snake

Tim McVey ganha mal, mora num fim de mundo, tem um trabalho insuportável, pesa uns 200 quilos e já passou dos 40 anos. Mas tem um trunfo: aos 16, fez um bilhão de pontos num jogo de arcade do início dos anos 80, o Nibbler (precursor do “jogo da cobrinha”, que dominaria os celulares na era pré-smart-phone). O recorde lhe deu uma certa fama nos meios ultra-nerds – pudera: a única forma de fazer o tal bilhão de pontos era jogar por mais de 35 horas seguidas. No início deste documentário, ficamos sabendo que McVey tem um arquiinimigo, que ele nem conhece pessoalmente: Enrico, um jovem da Itália que teria batido seu recorde, ainda na década de 1980. Dali para a frente acompanhamos a paranoia de McVey para tentar recuperar sua marca, e o sentido de sua vida. O resultado dessa jornada insana vale por um ano de terapia – tanto para Tim McVey como para quem assiste.

 

(Hitler, a career/Reprodução)

Hitler – A Carrier

Se tem um assunto sobre o qual você acha que já viu tudo, esse assunto provavelmente é o nazismo. Mas você nunca viu nada parecido com este documentário de 1977, que chegou ao Netflix neste ano. Como tantos outros documentário, ele retrata a ascensão e a queda do ditador, mas com um diferencial: imagens que você nunca viu em outro lugar (pelo menos não todas juntas), dos primeiros discursos em Munique, na década de 1920, até a decadência física e mental ao longo da Segunda Guerra. O destaque aqui vai para a profusão de filmagens coloridas da época, boa parte mostrando o Führer em momentos de lazer com Eva Braun, sua amante. Mais do que meras curiosidades, as imagens coloridas nos lembram que o nazismo é algo mais próximo da nossa realidade do que as imagens tradicionais em preto e branco nos fazem crer.

 

(Senna/Reprodução)

Senna

Quando este documentário estrou nos EUA, houve quem saísse da sala de cinema às lágrimas, chocado com o final: 99% dos americanos jamais tinha ouvido falar em Ayrton Senna, então não faziam ideia de que o herói da história morria no final, num final de semana macabro (outro piloto, o austríaco Roland Ratzemberger tinha morrido nos treinos de sábado, também diante das câmeras). Os brasileiros que acompanharam os três anos em que Ayrton e Alan Prost disputavam curvas ombro a ombro não sabiam, mas estavam assistindo ao maior momento da história do automobilismo. Editada pelo documentarista inglês Asif Kapadia, a disputa entre o brasileiro e o francês ganha um tom homérico, que passava um tanto batido para quem assistia tudo ao vivo. Falo por mim mesmo: o início do GP do Japão de 1990, em que Senna enfia sua McLaren na lateral da Ferrari de Prost logo na largada, provocando um acidente, pareceu só uma manobra burocrática, em que Senna preferiu garantir o título ali mesmo do que se dar ao trabalho de correr 53 voltas. Neste documentário, porém, a batida parece uma disputa não entre dois esportistas rivais, mas uma guerra entre Aquiles e Heitor, da mitologia grega. Ah, sim: mesmo quem sabe o final dessa história provavelmente vai chorar no final.

 

(Amy/Reprodução)

Amy

Depois de dar à vida de Ayrton Senna um contorno ainda mais épico do que ela já tinha, o diretor Asif Kapadia debruçou-se sobre as filmagens de arquivo de outro ídolo que morreu jovem: Amy Winehouse. A imensidão desse arquivo ajuda. Tudo começa com uma Amy adolescente, gordinha. Insatisfeita com o corpo, ela já aparece em vídeos de família dando os primeiros sinais do transtorno que a acompanharia para o resto da vida: a bulimia. Uma grande decepção amorosa, álcool, heroína e crack protagonizam o segundo ato. No final, uma tese chocante sobre a causa real da morte da cantora.

 

(Cobain, Montage of Heck/Reprodução)

Kurt Cobain: Motage of Heck

Se Senna e Amy parecem ficção, de tão redondos, este vai mais longe. Kurt aparece ainda bebê, em vídeos de família. Vemos até ele ganhando sua primeira guitarra de brinquedo. Vinte e poucos anos depois, mais vídeos de família: Kurt e Courtney Love, sua companheira, se filmam em quartos de hotel, chapados de heroína, enquanto brincam com a filhinha Frances Bean. Mas não é só pelas imagens ínitimas que este documentário vale. Seu grande trunfo é ser uma biografia analítica, que, busca traçar os episódios que deram origem ao comportamento perturbado de Kurt. Comportamento que culminaria num suicídio aterrorizante.

 

(Maradona por Kusturica/iStock)

Maradona por Kusturica

Este documentário é uma antítese de Pelé Eterno. A obra definitiva sobre o Rei é uma coleção de ótimas imagens de arquivo entremeadas por cenas de uma breguice constrangedora (a parte sobre as conquistas sexuais de Pelé é um bom antídoto contra envenenamento – faz vomitar). Aqui é o oposto: as imagens de arquivo não são essas coisas, mas a narrativa é de primeira linha, feita por um cineasta com pegada independente (que você pode ou não gostar, mas que não tem como ser chamada de brega). Depois de assistir, fica difícil não concordar com a opinião de Tostão: Pelé jogou mais, mas Maradona era mais habilidoso. No mundo dos documentários, acontece mais ou menos a mesma coisa: Pelé Eterno é mais útil para quem quer conhecer o futebol do Rei, mas a habilidade do cineasta sérvio é bem maior que a dos responsáveis pelo documentário brasileiro. Ponto.

 

 

 

 

via Superinteressante

Publicado por Carlos Trentini

Eu, eu mesmo e eu, agora e nas horas vagas...

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