As palavras e expressões mais utilizadas em 2016

Encarregada da árdua missão de definir as palavras mais usadas no ano, logo pensei em construir uma frase com esses termos que fosse capaz de sintetizar a essência de tudo o que aconteceu ao longo dos últimos 12 meses. Se em teoria parecia uma boa ideia, na prática a sentença ficou caótica, redundante e sem sentido (se você ficou ansioso, vá para a frase no final do post, caso não tenha ficado, continue aqui). Mas talvez essa frase esquizofrênica seja justamente a tradução do que aconteceu em 2016, o ano que ninguém entendeu nada.

Eficaz ou não, o fato é que uma curadoria (um termo bem 2016, inclusive) precisa de mais palavras do que cabem em apenas uma frase. Sendo assim, eis aqui as palavras e expressões que marcaram 2016:

TOP

Deus é top!

top

Até pouco tempo atrás, “top” era um termo usado para designar apenas o que estivesse no topo de uma lista (não à toa, “top” está no primeiro lugar desta lista), de um ranking ou de uma classificação. Quando alguém falava que a Universidade Harvard, nos Estados Unidos, era top, você não precisava pensar duas vezes para entender que Harvard estava (e ainda está) entre as instituições de ensino mais respeitadas do país. Não que o sentido de top tenha mudado, mas em 2016 ele ganhou novas nuances, muito provavelmente originadas da evolução da rixa entre coxinhas e petralhas que marcou o ano de 2014.

O “top” que seus pais falavam para descrever o móvel sob medida da sala da sua tia rica deixou de ser só formalismo e partiu (não, “partiu” não é deste ano) para rankings práticos, os restaurantes tops, os treinos tops, as baladinhas tops, os sushizinhos tops. Neste ano, também foi possível perceber que falar no diminutivo ajuda a enaltecer a aura top do que está sendo discutido.

Percebendo esse fenômeno massivo do lado engomadinho do Brasil, a parcela mais esquerda festiva, caviar, anárquica e/ou irônica do país se apropriou do termo para usá-lo sarcasticamente. Ironia ou não, o fato é que “top” ganhou a boca do povo e os teclados também – virou até emoji. E por ter unido, mesmo que por meio do sarcasmo, petralhas, coxinhas, zoeiros e os seus pais, tudo virou top – vide “Deus é top”. Até o próprio “top” ficou ainda mais top com derivações como topzera, topíssimo e topper, por exemplo.

FORA

Fora Temer, Fora Dilma, Fora Cunha, Fora PT

fora

Em um ano marcado por manifestações a favor da saída de Dilma, a favor da saída de Temer, contra o governo ou a favor dele, poucos foram os brasileiros que não gritaram, bateram panela ou digitaram para que alguém saísse do posto que ocupava. O impeachment da ex-presidente Dilma e Michel Temer no poder foram os catalizadores do termo em 2016, mas vale lembrar que atrelado a isso também tivemos eleições municipais, operação Lava Jato, delações premiadas, vazamentos de documentos e áudios de telefonemas de políticos ou de esquemas de corrupção em empreiteiras. O episódio em que a Polícia Federal grampeou uma conversa dos ex-presidentes Dilma e Lula em que ele se despede dela com “tchau querida” também aconteceu neste ano.

E se estamos falando de política, é impossível não falar de crise. 2015 foi o período em que o país reconheceu que estava em crise, já 2016 foi a quando a palavra se firmou de vez nos bolsos dos brasileiros: crise política, crise econômica, crise democrática, crise de confiança.

Off Topic (outra expressão do ano!)

A crise também atingiu os relacionamentos amorosos. Duvida? Uma breve lista de alguns dos casais que separaram as escovas de dentes: Fátima Bernardes e Wiliam Bonner, Angelina Jolie e Brad Pitt, Diane Krueger e Joshua Jackson, Seu Jorge e Mariana, Amber Heard e Johnny Depp, Ozzy e Sharon Osbourne, Emma Stone e Andrew Garfield, Alexandre Borges e Julia Lemmertz…

YOUTUBER

Olá, seguidores!

youtuber

Se você esteve no Brasil nos últimos doze meses, você ouviu, nem que seja de canto de ouvido, os nomes Kéfera, Winderson Nunes e Felipe Neto. Os três têm canais no site Youtube e juntos somam mais de 30 milhões de seguidores – isso equivale a duas vezes a população de São Paulo mais o número de habitantes do Rio de Janeiro. E eles não são os únicos. O crescimento de seguidores e o surgimento vertiginoso de novos canais exigiram que se criasse um termo para definir os donos das contas e, na maioria das vezes, apresentadores desses vídeos. Adaptada do inglês, youtuber é uma palavra cunhada antes de 2016, é verdade, mas nunca foi tão difundida.

Seguindo a explosão de conteúdo em redes sociais, pipocaram outras expressões chupinhadas do inglês como trendsetter (lançador de tendências), digital influencer(influenciar digital), instagrammer(“profissional” do Instagram) e influencer (influenciador). Outra novidade do ano foi seu paquera ou pretendente ter virado crush e seu ficante ou namorado ter sido transformado em boy pelo raio estrangerizador.

Por falar em Internet, 2016 foi o ano dos memes. Prova disso é que o país chegou a entrar em uma batalha virtual contra Portugal e comprovou que o Brasil é mesmo a terra dos memes (confira os melhores do ano aqui). Sendo assim, não é de se espantar que a linguagem virtual tenha ultrapassado as fronteiras do online, um paradoxo à la a arte imita a vida, a web imita a vida – deixando bem claro que a ideia de que a internet é uma realidade paralela e não o mundo real, tátil, concreto é um conceito bastante ultrapassado. Por exemplo, eu escrevo para o site da Super e nem por isso meu trabalho deixa de ser real, pelo contrário…Esse é um conceito pra lá de rococó (palavra também desatualizada desde o século XVII) sobre internet.

Neste admirável mundo novo online, surgiram outras expressões que tem tudo a ver com o espírito caótico de 2016: GRITO (em caixa alta mesmo, para demonstrar surpresa), close certo ou errado (quando você dá se dá bem, toma uma atitude certa ou não), o(a) maior que você respeita (por exemplo, Amy Winehouse é a maior cantora que você respeita) e todas as palavras possíveis no diminutivo terminando com íneo (catioríneo, fofíneo, pastelzíneo – particularmente, essa tendência poderia ser enterrada em 2016).

EMPODERAMENTO

Miga, sua loca

empoderamento

Talvez 2015 tenha sido o ano da tomada de consciência massiva do feminismo no país. A campanha “Não tira o batom vermelho” contra relacionamentos abusivos, da youtuber Jout Jout; o discurso da atriz Patricia Arquette na cerimônia do Oscar pedindo igualdade salarial e de direitos; a citação de Simone de Beauvoir no Enem e as campanhas “#MeuAmigoSecreto” e “#PrimeiroAssédio” nas redes sociais são só alguns exemplos para refrescar a memória. Neste ano, assim como aconteceu com a crise, o feminismo, a luta por igualdade de gênero e outras causas de minorias étnicas e LGBTQ só se fortificaram. Junto a esses movimentos o espírito de coletividade reinou, não à toa, os termos “migo”, “miga”, “migx” precedido ou não de “a” se popularizaram ainda mais.

Apesar da vitória dos discursos de ódio de Trump, nos Estados Unidos, nunca se falou tanto sobre protagonismo, lugar de fala, opressão e direitos humanos.

ACABA 2016

Urgente!

acaba2016

Caso você pudesse voltar no tempo e contar para o seu eu do início de 2016 qual foi a palavra que você mais viu escrita no ano, provavelmente você diria “urgente”. Jornais, redes de televisão e sites chamaram urgente por escândalos de corrupção, urgente por mudanças políticas, urgente por prisões, urgente pela operação Lava Jato e urgente por mortes, muitas mortes.

Demorou pouco para darmos adeus ao primeiro: David Bowie, o camaleão do rock, se foi no dia 10 de janeiro. Infelizmente, ele não foi o único gigante que perdemos neste ano. Também vimos “urgente” pelo anúncio de falecimento de Prince, Alan Rickman, Cauby, Muhammad Ali, Fidel Castro, Ferreira Gullar… (veja a lista completa aqui). Foram tantas as vezes em que fomos obrigados a nos despedir de personalidades brilhantes com um “urgente” que o sentimento não poderia ser expresso por um pedido tão sincero: ACABA 2016!!!

 Uma das possíveis frases com as palavras do ano:

Urgente: Manifestação de youtubers tops por um mundíneo onde as migas empoderadas não estão fora

 #Gratidão (mais um termo inflacionado de 2016).

via Superinteressante

Publicado por Carlos Trentini

Eu, eu mesmo e eu, agora e nas horas vagas...

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