Wearables estão ganhando uma utilidade nobre: prevenir morte súbita de bebês

App + bebê

Um conhecido que trabalhou como socorrista me disse certa vez que nada o abalava muito em sua profissão, exceto os atendimentos em que as vítimas eram crianças. Um tipo específico de ocorrência sempre o deixava transtornado: o que envolvia morte súbita de bebês.

Chamada pela comunidade médica de síndrome da morte súbita do lactente (SMSL), o problema é mais comum do que se pensa e frequentemente devasta toda a família: como aquele ser com tão pouco tempo de vida pode morrer assim, de repente? A ciência ainda não sabe, mas isso não tem impedido os esforços em prol da prevenção. Há até mesmo projetos que apostam na tecnologia para evitar que o pior aconteça.

Síndrome da morte súbita do lactente

A dor da perda de um filho é imensurável em qualquer circunstância, mas, quando envolve a SMSL, o impacto costuma ser particularmente forte. Não raramente, os pais se sentem culpados, como se a morte tivesse sido causada por negligência. Também é frequente eles serem culpabilizados por familiares, vizinhos e outras pessoas próximas.

Mas não é assim. A morte súbita de bebês é um evento chocante não só pela perda de uma vida, mas também porque o acontecimento é totalmente inesperado. Na maioria esmagadora dos casos, a criança era bem cuidada e não apresentava nada que indicasse que uma fatalidade estava prestes a ocorrer, como uma doença ou um comportamento incomum.

Também não estamos falando de um problema típico de uma sociedade moderna. Muitos registros sobre mortes súbitas de bebês datam de séculos passados. Há até passagens na Bíblia associadas a ocorrências desse tipo. Apesar disso, a causa exata do problema é um mistério até hoje.

A maioria dos casos ocorre enquanto o bebê dorme

A grande maioria dos casos ocorre enquanto o bebê dorme

A síndrome da morte súbita do lactente é caracterizada quando uma criança com até um ano de idade falece e, após investigação, nenhuma causa é encontrada: não existe sinais de sufocamento, infecções, traumas físicos, enfim. Como não há anormalidades aparentes, muitos pesquisadores acreditam que a morte súbita é resultado de uma combinação de fatores.

O que já se sabe mesmo é que a maioria das mortes ocorre com bebês que têm menos de seis meses de idade, com a faixa mais crítica sendo a que se situa entre dois e quatro meses de vida. Além disso, a síndrome é mais frequente em crianças do sexo masculino (60%).

Tecnologia para prevenir

Se a causa da SMSL fosse um vírus, por exemplo, os cientistas certamente tentariam encontrar uma vacina para erradicar o problema. Da mesma forma, eles desenvolveriam técnicas cirúrgicas se a causa fosse uma falha anatômica. Mas, como já dito, não há motivo aparente: via de regra, a morte acaba acontecendo de modo silencioso e em um momento de bastante calma, enquanto a criança dorme.

Diante desses fatores, a maneira mais eficiente de combate à SMSL parece ser o monitoramento. Mas é impraticável ficar o tempo todo vigiando a criança enquanto ela dorme, mesmo que os pais se revezem nessa tarefa — pode ser que um deles adormeça nesse processo, só para citar uma limitação possível.

Bracelete - bebê

Como a vigília presencial e constante é muito difícil, um grupo de pesquisadores da Unidade de Vinculação Tecnológica de Córdoba, na Argentina, teve a ideia de se focar em um wearable para esse fim: eles estão desenvolvendo um bracelete que monitora o nível de oxigênio no sangue e o ritmo cardíaco do bebê.

Os dados do monitoramento são regularmente enviados aos smartphones dos país (ou de outros cuidadores) via Bluetooth LE, assim eles podem saber se a criança tem dormido bem ou se algum distúrbio interrompe o seu sono. Mas a principal função do bracelete é mesmo evitar morte súbita: caso alguma anormalidade relevante seja detectada, imediatamente o dispositivo emite um alarme.

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Se você teve um filho nos últimos anos, talvez já tenha encontrado um dispositivo semelhante. Há vários deles no mercado. Um que é relativamente bem conhecido e acessível (custa cerca de US$ 200) é o Mimo. Trata-se de um sensor fixado à roupa que monitora os sinais vitais, a temperatura e a movimentação da criança.

Sim, o sensor do Mimo está na tartaruguinha

Sim, o sensor do Mimo está na tartaruguinha

Os dados são enviados ao smartphone e podem ser analisados a partir de um app bastante intuitivo. Pode-se, portanto, saber com riqueza de detalhes como a criança tem dormido. Obviamente, o dispositivo emite alertas se anormalidades forem identificadas. Dá até para sincronizar o Mimo com o termostato ou a câmera de segurança da Nest, aumentando o nível de monitoramento.

Uma opção um pouco mais simples (e, com efeito, mais barata, custando cerca de US$ 150) é o Baby Vida. Ele também monitora os sinais vitais, envia dados ao smartphone e dispara alertas, com a diferença de que o sensor deve ficar fixado à perna do bebê.

Baby Vida

Como opções não faltam, o trabalho dos pesquisadores argentinos parece não fazer sentido — eles estão reinventando a roda! Mas tem um detalhe: no fundo, o Mimo e o Baby Vida funcionam como uma babá eletrônica, só que mais avançada. O dispositivo de Córdoba vai além disso: o aparelho não só emite alertas, como está sendo desenvolvido para liberar um impulso elétrico de baixa intensidade, mas suficiente para estimular a criança.

Esse estímulo, esperam os cientistas, deve gerar uma resposta que “reativa” os batimentos cardíacos e a respiração, evitando uma tragédia.

Algumas medidas simples podem ajudar

Eu fico realmente feliz em saber que esses dispositivos podem ajudar a prevenir um problema tão sério. Mas a gente não pode confiar inteiramente na tecnologia. Se o sensor escapar, por exemplo, um alerta importante pode deixar de ser disparado.

Leve em conta também que o projeto argentino, apesar de promissor, ainda não está pronto — imagine o nível de sensibilidade que o dispositivo precisa ter para liberar o impulso elétrico apenas quando realmente necessário.

Felizmente, os médicos sabem que alguns cuidados simples também podem ajudar, a despeito do mecanismo do problema não estar claro. O mais importante deles ganhou bastante atenção nos anos 1990, quando a apresentadora de TV britânica Anne Diamond, após perder o filho por SMSL, fez uma extensa campanha de divulgação da prática: fazer o bebê dormir deitado de barriga para cima (se a criança tiver algum problema que pode ser agravado por essa posição, como refluxo, convém conversar com um médico sobre a posição mais segura, é claro).

Bebê dormindo

É, simples assim. Uma das razões para isso é o fato de que crianças com poucos meses de vida muitas vezes não despertam ou mudam de posição quando estão com dificuldade para respirar. Dormindo de barriga para cima, é mais difícil que elas fiquem com as vias respiratórias bloqueadas pelo travesseiro ou mesmo pelo colchão.

Mas não é só. Outras recomendações incluem:

  • evitar colocar o bebê para dormir na mesma cama com você (não são raros os caso de pais que adormecem e acabam sufocando a criança sem querer);
  • tomar cuidado com roupas, cobertores, brinquedos e outros objetos no berço que, de alguma forma, podem aumentar a temperatura do bebê (o calor excessivo é outro fator que favorece a SMSL);
  • deixar o bebê longe de ambientes de fumantes. É um tanto óbvio, mas muitos pais não se atentam a esse detalhe. A fumaça pode alterar o funcionamento dos sistemas cardíaco e respiratório, razão pela qual também é importantíssimo que a mãe evite o tabagismo durante a gestação.

Wearables estão ganhando uma utilidade nobre: prevenir morte súbita de bebês

via Tecnoblog

Publicado por Carlos Trentini

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